
por Adriano Nicolau da Silva
Ao buscar inspiração literária no pensador Boaventura de Sousa Santos, refleti sobre a subjetividade dos personagens que inspiram a coragem e narram as suas histórias pessoais, especialmente as suas angústias e a preocupação social. São preocupações que transcendem o tempo mental e cronológico. A angústia e o desejo são o que regem o ser humano, já apontava Freud. E como saber se estou desejoso ou angustiado sem consultar um analista? O mundo que criamos, repleto de vazios existenciais e com grande dificuldade para compreender o passado e o presente com perspectivas preocupantes para o futuro, nos faz sentir estimulados, como apontava Skinner. Apesar disso, não devemos ficar espantados, como afirmava Platão. Será necessário juntar todas as informações, conhecimentos e saberes para encontrarmos o que de melhor nos esperam no futuro? Com toda a certeza, Albert Einstein responderia com a seguinte frase: “a imaginação é mais relevante que o conhecimento”. É possível encontrarmos nas ciências, as respostas para a psique humana?
E, para superar as disparidades sociais, discriminações, injustiças, descrenças, desordem e caos, é necessário pensar numa revolução, como sugerido pelo filósofo Michel Foucault, visando a desestabilização constante das relações de poder. Qual o poder devemos nos ater? Os que estão voltados para a Política, o social, o educacional, o econômico, o cultural e o ideológico, ou estamos buscando o poder do agora? Ou seja, permanecermos conectados na existência do agora, mesmo que seja necessário desligar o nosso emocional e o espiritual?
Estamos no processo de busca entre o desejo e a angústia, reforçando a teoria de Pierre Duhem ao defender a ideia da continuidade do trabalho científico desde o mundo antigo até hoje.
A discussão sobre a descrição final da entidade quântica, conhecida como partícula, tem sido frequente na área da física quântica. Sinalizava a ideia do teórico Niels Bohr, essa dualidade é um paradoxo, ou “o paradoxo da dualidade”, um dado fundamental ou metafísico da natureza. Esse fenômeno é percebido na prática ao observarmos que algumas classes sociais vivem segundo a necessidade de mudar a realidade. As suas conquistas pessoais e sociais são evasivas, efêmeras e reversíveis. À medida que se conquista uma vitória social, outra classe privilegiada se junta para tirar os seus direitos conquistados. Dessa forma, a classe dominante tenta manter o ciclo repetitivo, pois são reforçados pela mais-valia, termo referenciado por Marx, representando o processo de exploração da mão de obra assalariada.
Até que ponto a ansiedade prevaleceu entre a dualidade do que é “ente” definido por Heidegger e servir de plateia para as classes dominantes manterem o poder à custa de punições emocionais e morais?
Ao pensar no sociólogo Boa Ventura, ele apresenta-nos uma perspectiva dialética, com críticas que questionam o estado regulador de emancipação. Para ele, um movimento social aconteceu no século XX, quando o governo buscou manter a ordem pública, oportunizando os direitos dos trabalhadores. Proporcionou um orçamento mínimo para questões sociais após a revolução industrial em benefício dos trabalhadores. Essa armadilha comportamental, provocou uma atitude no homem de ampliar o presente em todos os sentidos, esquecer o passado e contrair o futuro, ignorando as vivências e experiências da sociedade.
Para expandir o presente, propôs uma sociologia das ausências; para contrair o futuro, uma sociologia das emergências. Dada que a imensa diversidade de experiências sociais revelada por estes processos não podem ser explicadas adequadamente por uma teoria geral. Em vez de uma teoria geral, proponho uma teoria de tradução, capaz de criar a inteligibilidade mútua entre experiências possíveis e disponíveis (p. 240).
Sendo assim, o capitalismo surge como o queridinho, oferecendo os benefícios de uma liberdade econômica, intervencionista de políticas públicas. A tensão dialética entre o estado e a sociedade civil, se apresenta ao forçar a submissão à soberania e perdeu a sua liberdade.
Com base nessa reflexão, quando elegemos os nossos representantes, legitimamos as suas ações e os nossos direitos ficam sujeitos às ações dos estados. Por meio do direito político, é possível exercer o poder de votar e se candidatar e o sociólogo Boa Ventura de Sousa Santos, sustenta não haver justiça social e cognitiva, devido à dissociabilidade da dimensão política e epistemológica da prática e da teoria. Segundo esse pensador, a ciência e o saber devem servir à sociedade e os seus membros, e é necessário pensar numa harmonia completa do Estado, da cultura e da sociedade em benefício do homem de bem.
Algumas nações têm maior influência nas ideias políticas, e a globalização é prejudicada por não possuírem força econômica e política em comparação com países ricos que propagam sua cultura. O globalismo é baseado em padrões como elementos culturais e, a partir daí se estende para a globalização. Os nossos direitos humanos podem ser vistos de maneira específica, tais como cosmopolitismo, globalização hegemônica ou contra a globalização.
O cosmopolitismo visto de uma perspectiva positiva implicando numa postura proativa em relação às diferenças e um interesse em discutir a união das comunidades iguais e pacíficas de cidadãos, que devem ser capazes de se comunicar além das fronteiras culturais e sociais, criando uma solidariedade universalista.
Sendo assim, o cidadão deveria ter os seus direitos reconhecidos na sua comunidade, país e nas fronteiras de um território. Para Boaventura de Sousa Santos, todo o conhecimento adquirido pelo cidadão envolve o seu social e isso explica a importância da discussão sobre o que é conhecimento científico e, consequentemente, o que é ciência, afim de se produzir um diálogo voltado para as necessidades do homem inserido na sociedade.
“Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”. Paulo Freire.
Referências
1 – Santos, Boaventura de Sousa, Martins, Bruno Sena (2018), “Socialismo, democracia e epistemologias do Sul. Entrevista com Boaventura de Sousa Santos”, Revista Crítica de Ciências Sociais, Número especial, 9-54.
2 – SANTOS, Boaventura de Sousa (2002). Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências, Revista Crítica de Ciências Sociais, 63, 237-280.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br.
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