por Adriano Nicolau da Silva

Resumo: De acordo com relatos clínicos e revisão bibliográfica, é de conhecimento geral que pessoas com esquizofrenia e os seus familiares enfrentam dificuldades imensas. O diagnóstico costuma ser baseado em sinais comportamentais que podem causar distorções na percepção da realidade, como ocorre nas alucinações, delírios ou isolamento social total. Nesse estudo, serão discutidos a relevância do acompanhamento psicológico e psiquiátrico, bem como os estigmas e preconceitos que afetam aqueles que enfrentam a esquizofrenia.
Palavras-Chave. Esquizofrenia; Sofrimento Psíquico; Psicologia; Psiquiatria.
INTRODUÇÃO
A condição de saúde mental conhecida como esquizofrenia tem uma longa história na humanidade, sendo mencionada em narrativas antigas, inclusive na Bíblia, que descrevem comportamentos característicos. Há evidências de que o rei Nabucodonosor teve episódios de desordem mental, incluindo alucinações, acreditando-se ser um animal e agindo como tal, o que pode ser considerado um quadro psicótico. A esquizofrenia tem uma origem complexa e envolve diversos fatores genéticos e ambientais, e é possível encontrar referências a distúrbios mentais similares desde o período de Hipócrates (460-370 a.C. Eugen Bleuler (1857-1939) que foi o autor da obra “Dementia praecox oder Gruppe der Schizofrenien”, gerando uma discussão científica entre os estudiosos da época.
Até o início do século passado, a condição de esquizofrenia era pouco compreendida e os pacientes sofriam discriminação, sendo excluídos da sociedade e internados em instituições de saúde mental. Devido aos seus comportamentos estereotipados, muitos eram taxados de loucos ou considerados possuídores de habilidades espirituais por conversarem com seres sobrenaturais. Os pais que cuidam e orientam seus filhos para uma existência repleta de oportunidades na sociedade, cultura, trabalho, relações afetivas, equilíbrio físico, emocional e financeiro ficam profundamente tristes quando um filho desenvolve esteriotipia, falta de higiene, esquiva e fuga do ambiente e isolamento.
Todo esse estranhamento no comportamento justifica a preocupação de pessoas próximas ao doente devido à mudança nas interpretações da realidade, dos pensamentos, afetos e atitudes que afetam de forma significativa a qualidade de vida do doente e seus familiares.
Existem aproximadamente 23 milhões de pessoas que sofrem com a doença mental, esquizofrenia, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Esses dados são complexos, uma vez que muitas pessoas excluídas, como moradores de rua e mendigos, não são diagnosticadas por falta de acesso à saúde, desinformação, falta de programas de saúde nas cidades e municípios, dentre outros motivos. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM V), a Associação Americana de Psiquiatria (APA – American Psychiatric Association) define o Transtorno Esquizofrênico como:
“[…] anormalidades em um ou mais dos cinco domínios a seguir: delírios, alucinações, pensamento (discurso) desorganizado, comportamento motor grosseiramente desorganizado ou anormal (incluindo catatonia) e sintomas negativos. ”
Ao chegarem à clínica de psicologia, é perceptível a falta de orientação e a ansiedade em comunicar verbalmente o que está ocorrendo com o paciente, devido à discrepância de pensamentos e atitudes. Sinto diversos sentimentos negativos do paciente e seus cuidadores, como, por exemplo: medo do desconhecido, tristeza, revolta e falta de esperança. Eu acredito que é essencial fornecer explicações acerca de possíveis causas, sinais e orientações sobre os procedimentos terapêuticos. Fica evidente que, quando o doente é oriundo de uma família simples ou mesmo quando a doença é ignorada por vários fatores, como o distúrbio de comportamento, a desorganização dos pensamentos, a rotina do dia a dia, o abandono da vida familiar e social, o doente poderá caminhar para as drogas, álcool, cocaína, crack, maconha, o que agrava ainda mais a doença. O motivo pelo qual a pessoa procura as drogas pode ser para o alívio das demandas mentais repletas de ilusões, pensamentos mágicos, superstições, mas também ansiedade, irritabilidade e um mal-estar permanente, chamado disforia.
1. METODOLOGIA
Análise literária a partir dos textos especializados, como periódicos da Master Editora, Revista Psicologia, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V, 2022), APA, SCIELO, Sites do Governo Federal do Brasil, Biblioteca Virtual de Saúde e Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).
2. CLASSIFICAÇÃO
A classificação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V, 2022) considera o predomínio de um ou mais sintomas, dividindo a esquizofrenia em diferentes tipos clínicos. Os principais tipos clínicos de esquizofrenia identificados pelo DSM-V são: paranoide (com predominância de delírios, frequentemente persecutórios ou alucinações), desorganizado (também conhecido como hebefrênico, em que os distúrbios afetivos do tipo incoerente, inapropriado ou pueril), catatônico (com sintomas de estupor, rigidez, negativismo ou agitação psicomotora), indiferenciado (com predominância de delírios e alucinações acompanhados de comportamentos incoerentes).
3. TIPOS DE ESQUIZOFRENIA
A APA lançou em 18 de março de 2022 o DSM-5-TR, apresentando os tipos de esquizofrenia.
A presença de alucinações, delírios, sensação de perseguição e pensamentos sobre conspiração é um indicativo de esquizofrenia paranoide. Ao observar a lentidão, imobilidade, estupor e mutismo, este quadro evidencia mais a esquizofrenia catatônica. A associação entre o comportamento infantilizado, respostas emocionais inadequadas e cognição incoerente é atribuída à hebefrênica.
Um dos tipos de esquizofrenia diagnosticados quando o paciente já não tem nenhum sintoma evidente ou quando eles aparecem com baixa intensidade é a esquizofrenia residual. Outra forma de esquizofrenia é a intensidade e ideias fixas sobre o mundo, resultando em surtos que duram um ano ou mais, sendo conhecida como esquizofrenia simples.
Finalmente, a esquizofrenia múltipla com sintomas confusos escondendo a doença. Nestes casos, os sinais podem variar em intensidade e frequência, o que pode causar incerteza na classificação precisa da enfermidade.
4. PSICOLOGIA E TRATAMENTO FARMACOTERÁPICO
No tratamento psicológico, o diagnóstico de esquizofrenia é relevante para se pensar em estratégias de enfrentamento do problema, bem como compreender e orientar sobre o estigma da doença. Compreender o movimento antimanicomial é uma maneira de combater o preconceito contra indivíduos com transtornos mentais. Existem várias técnicas que podem ser empregadas na terapia, as quais dependem das necessidades do paciente e da habilidade do psicólogo em aplicá-las.
Os profissionais que acompanham o paciente devem estar aptos para lidar com possíveis recaídas no atendimento ao paciente e aos seus familiares. Em relação ao tratamento farmacológico da esquizofrenia, os medicamentos são chamados de antipsicóticos, capazes de melhorar os sintomas das pessoas que têm essa doença. Acolher os seus entes queridos e planejar uma atuação multidisciplinar, visando trabalhar com um psiquiatra para monitorar os medicamentos. A introdução dos antipsicóticos causou uma grande mudança na psiquiatria, chamada de “revolução farmacológica da psiquiatria”, uma vez que permitiu que os pacientes mentais internados fossem medicados na sua própria residência, alguns deles convivendo em sociedade.
5. A NEUROCIÊNCIA COGNITIVA E A ESQUIZOFRENIA
A capacidade humana de pensar, tomar decisões, escolher entre fazer ou não algo, implica em assumir responsabilidade pela vida. De acordo com Houze (2012), a capacidade de adquirir conhecimento é descrita como a capacidade de cognição ou tomada de conhecimento da própria atividade mental. Esse conceito fica comprometido no esquizofrênico, sobretudo quando ele começa a interpretar os fenômenos subjetivos e os fenômenos externos com alterações no humor e com delírios e alucinações.
As sinapses, assim como os circuitos neuronais, ficam desregulados na esquizofrenia, prejudicando as capacidades e as habilidades de novas interações com o meio ambiente. Essa interação “implica no surgimento de comportamentos e pode afetar negativamente novos processos mentais” (CONSENZA&GUERRA, 2011, p.16)
[…] interação com o ambiente é importante porque é ela que confirmará ou induzirá a formação de conexões nervosas, portanto, a aprendizagem ou o aparecimento de novos comportamentos que delas decorrem. Em sua imensa maioria, os nossos comportamentos são aprendidos, e não programados pela natureza. […] cujo cérebro, embora planejado para desenvolver certas capacidades, necessitará de um aprendizado mesmo para capacidades bem simples. (Idem, p.34).
É evidente que as interpretações de forma estereotipada afetam o processamento das informações e os conhecimentos adquiridos no ambiente. Quanto mais estímulos persecutórios o cérebro estabelece, mais o doente pode se sentir prejudicado por alterações nos órgãos dos sentidos, como tato, olfato, paladar, visão e audição, o que pode causar uma estranha sensação na maneira de se sentir, pensar e agir.
6. INFORMAÇÕES EPIDEMIOLÓGICAS
A OMS estima uma incidência aproximada de esquizofrenia em torno de 1%. As diversas estimativas de incidência da esquizofrenia indicam a ocorrência de cerca de quatro novos casos por ano numa população de 10.000 habitantes. As pesquisas epidemiológicas conduzidas no Brasil geram estimativas de incidência e prevalência compatíveis com as encontradas em outros países. Não há uma hierarquia entre as possíveis diferenças na prevalência da esquizofrenia entre os sexos, independentemente da metodologia utilizada em diferentes estudos epidemiológicos. No entanto, a doença é mais frequente em homens do que em mulheres. A incidência de casos inéditos é rara antes da idade adulta e depois dos 50 anos. As mulheres apresentam um estágio mais leve da esquizofrenia, o que implica numa melhor previsão e uma maior chance de se adaptar à sociedade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A esquizofrenia é um transtorno mental extremamente grave que afeta significativamente a existência do indivíduo e as suas interações sociais. Os sintomas da esquizofrenia podem surgir na adolescência ou na juventude e o tratamento requer uma equipe multidisciplinar dedicada à saúde física e mental do paciente e a sua família.
É necessário realizar muitas investigações na área da saúde mental para aprimorar a compreensão das razões da esquizofrenia. No entanto, fica claro o sofrimento diante da desorganização da personalidade do paciente, bem como dos seus familiares. É possível notar um grande preconceito em relação à doença, estigmatização e isolamento social na esquizofrenia. Na complexidade da doença, há a interação de fatores culturais, psicológicos e biológicos, entre os quais se destacam os de origem genética. É crucial manter a calma e procurar um profissional de saúde mental para ter a orientação necessária para o tratamento da esquizofrenia.
REFERÊNCIAS
1 – BLEULER, E. Demência Precoz, el grupo de las esquizofrenias. Tradução de Daniel Wagner. Buenos Aires: Hormé, 1960.
2 – CONSEZA, R.M.; GUERRA, L.B. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre–RS: Artmed, 2011.
3 – DSM-V. (2022). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais da Associação Psiquiátrica Americana (Batista, D., trans.). (4 ed.). Porto Alegre: Artes Médicas.
4 – GRAEFF, F. G., GUIMARÃES, F. S., & ZUARDI, A. W. (1999). Medicamentos antipsicóticos. In F. G. Graeff & F. S. Guimarães (Eds.), fundamentos de psicofarmacologia (pp. 69-91). São Paulo: Atheneu.
5 – HOUZEL, SH. O cérebro nosso de cada dia: descobertas da neurociência sobre a vida cotidiana. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2012.
6 – Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Transtornos mentais. OMS; 2022. Disponível em: https://www.paho.org/pt/topicos/transtornos-mentais.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br.
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