esquizofrenia

Resumo: De acordo com relatos clínicos e revisão bibliográfica, é de conhecimento geral que pessoas  com esquizofrenia e os seus familiares enfrentam dificuldades imensas. O diagnóstico  costuma ser baseado em sinais comportamentais que podem causar distorções na percepção  da realidade, como ocorre nas alucinações, delírios ou isolamento social total. Nesse estudo,  serão discutidos a relevância do acompanhamento psicológico e psiquiátrico, bem como os  estigmas e preconceitos que afetam aqueles que enfrentam a esquizofrenia. 

Palavras-Chave. Esquizofrenia; Sofrimento Psíquico; Psicologia; Psiquiatria.

INTRODUÇÃO  

A condição de saúde mental conhecida como esquizofrenia tem uma longa história na  humanidade, sendo mencionada em narrativas antigas, inclusive na Bíblia, que descrevem  comportamentos característicos. Há evidências de que o rei Nabucodonosor teve episódios de  desordem mental, incluindo alucinações, acreditando-se ser um animal e agindo como tal, o  que pode ser considerado um quadro psicótico. A esquizofrenia tem uma origem complexa e  envolve diversos fatores genéticos e ambientais, e é possível encontrar referências a distúrbios  mentais similares desde o período de Hipócrates (460-370 a.C. Eugen Bleuler (1857-1939)  que foi o autor da obra “Dementia praecox oder Gruppe der Schizofrenien”, gerando uma  discussão científica entre os estudiosos da época. 

Até o início do século passado, a condição de esquizofrenia era pouco compreendida e  os pacientes sofriam discriminação, sendo excluídos da sociedade e internados em instituições  de saúde mental. Devido aos seus comportamentos estereotipados, muitos eram taxados de  loucos ou considerados possuídores de habilidades espirituais por conversarem com seres  sobrenaturais. Os pais que cuidam e orientam seus filhos para uma existência repleta de  oportunidades na sociedade, cultura, trabalho, relações afetivas, equilíbrio físico, emocional e  financeiro ficam profundamente tristes quando um filho desenvolve esteriotipia, falta de  higiene, esquiva e fuga do ambiente e isolamento. 

Todo esse estranhamento no comportamento justifica a preocupação de pessoas  próximas ao doente devido à mudança nas interpretações da realidade, dos pensamentos,  afetos e atitudes que afetam de forma significativa a qualidade de vida do doente e seus  familiares. 

Existem aproximadamente 23 milhões de pessoas que sofrem com a doença mental,  esquizofrenia, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Esses dados são complexos,  uma vez que muitas pessoas excluídas, como moradores de rua e mendigos, não são  diagnosticadas por falta de acesso à saúde, desinformação, falta de programas de saúde nas  cidades e municípios, dentre outros motivos. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de  Transtornos Mentais (DSM V), a Associação Americana de Psiquiatria (APA – American  Psychiatric Association) define o Transtorno Esquizofrênico como: 

“[…] anormalidades em um ou mais dos cinco domínios a seguir: delírios,  alucinações, pensamento (discurso) desorganizado, comportamento motor grosseiramente desorganizado ou anormal (incluindo catatonia) e sintomas  negativos. ”  

Ao chegarem à clínica de psicologia, é perceptível a falta de orientação e a ansiedade  em comunicar verbalmente o que está ocorrendo com o paciente, devido à discrepância de  pensamentos e atitudes. Sinto diversos sentimentos negativos do paciente e seus cuidadores,  como, por exemplo: medo do desconhecido, tristeza, revolta e falta de esperança. Eu acredito  que é essencial fornecer explicações acerca de possíveis causas, sinais e orientações sobre os  procedimentos terapêuticos. Fica evidente que, quando o doente é oriundo de uma família  simples ou mesmo quando a doença é ignorada por vários fatores, como o distúrbio de  comportamento, a desorganização dos pensamentos, a rotina do dia a dia, o abandono da vida  familiar e social, o doente poderá caminhar para as drogas, álcool, cocaína, crack, maconha, o  que agrava ainda mais a doença. O motivo pelo qual a pessoa procura as drogas pode ser para  o alívio das demandas mentais repletas de ilusões, pensamentos mágicos, superstições, mas  também ansiedade, irritabilidade e um mal-estar permanente, chamado disforia. 

1. METODOLOGIA 

    Análise literária a partir dos textos especializados, como periódicos da Master Editora,  Revista Psicologia, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V, 2022),  APA, SCIELO, Sites do Governo Federal do Brasil, Biblioteca Virtual de Saúde e  Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). 

    2. CLASSIFICAÇÃO 

    A classificação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V,  2022) considera o predomínio de um ou mais sintomas, dividindo a esquizofrenia em  diferentes tipos clínicos. Os principais tipos clínicos de esquizofrenia identificados pelo  DSM-V são: paranoide (com predominância de delírios, frequentemente persecutórios ou  alucinações), desorganizado (também conhecido como hebefrênico, em que os distúrbios  afetivos do tipo incoerente, inapropriado ou pueril), catatônico (com sintomas de estupor,  rigidez, negativismo ou agitação psicomotora), indiferenciado (com predominância de delírios  e alucinações acompanhados de comportamentos incoerentes).

    3. TIPOS DE ESQUIZOFRENIA 

    A APA lançou em 18 de março de 2022 o DSM-5-TR, apresentando os tipos de  esquizofrenia.  

    A presença de alucinações, delírios, sensação de perseguição e pensamentos sobre  conspiração é um indicativo de esquizofrenia paranoide. Ao observar a lentidão, imobilidade,  estupor e mutismo, este quadro evidencia mais a esquizofrenia catatônica. A associação entre  o comportamento infantilizado, respostas emocionais inadequadas e cognição incoerente é  atribuída à hebefrênica

    Um dos tipos de esquizofrenia diagnosticados quando o paciente já não tem nenhum  sintoma evidente ou quando eles aparecem com baixa intensidade é a esquizofrenia residual.  Outra forma de esquizofrenia é a intensidade e ideias fixas sobre o mundo, resultando em  surtos que duram um ano ou mais, sendo conhecida como esquizofrenia simples.  

    Finalmente, a esquizofrenia múltipla com sintomas confusos escondendo a doença.  Nestes casos, os sinais podem variar em intensidade e frequência, o que pode causar incerteza  na classificação precisa da enfermidade. 

    4. PSICOLOGIA E TRATAMENTO FARMACOTERÁPICO 

    No tratamento psicológico, o diagnóstico de esquizofrenia é relevante para se pensar  em estratégias de enfrentamento do problema, bem como compreender e orientar sobre o  estigma da doença. Compreender o movimento antimanicomial é uma maneira de combater o  preconceito contra indivíduos com transtornos mentais. Existem várias técnicas que podem ser  empregadas na terapia, as quais dependem das necessidades do paciente e da habilidade do  psicólogo em aplicá-las.  

    Os profissionais que acompanham o paciente devem estar aptos para lidar com  possíveis recaídas no atendimento ao paciente e aos seus familiares. Em relação ao tratamento  farmacológico da esquizofrenia, os medicamentos são chamados de antipsicóticos, capazes de  melhorar os sintomas das pessoas que têm essa doença. Acolher os seus entes queridos e  planejar uma atuação multidisciplinar, visando trabalhar com um psiquiatra para monitorar os  medicamentos. A introdução dos antipsicóticos causou uma grande mudança na psiquiatria,  chamada de “revolução farmacológica da psiquiatria”, uma vez que permitiu que os pacientes mentais internados fossem medicados na sua própria residência, alguns deles convivendo em  sociedade. 

    5. A NEUROCIÊNCIA COGNITIVA E A ESQUIZOFRENIA 

    A capacidade humana de pensar, tomar decisões, escolher entre fazer ou não algo,  implica em assumir responsabilidade pela vida. De acordo com Houze (2012), a capacidade  de adquirir conhecimento é descrita como a capacidade de cognição ou tomada de  conhecimento da própria atividade mental. Esse conceito fica comprometido no  esquizofrênico, sobretudo quando ele começa a interpretar os fenômenos subjetivos e os  fenômenos externos com alterações no humor e com delírios e alucinações. 

    As sinapses, assim como os circuitos neuronais, ficam desregulados na esquizofrenia,  prejudicando as capacidades e as habilidades de novas interações com o meio ambiente. Essa  interação “implica no surgimento de comportamentos e pode afetar negativamente novos  processos mentais” (CONSENZA&GUERRA, 2011, p.16) 

    […] interação com o ambiente é importante porque é ela que confirmará ou induzirá a formação de conexões nervosas, portanto, a aprendizagem ou o aparecimento de novos comportamentos que delas decorrem. Em sua imensa  maioria, os nossos comportamentos são aprendidos, e não programados pela natureza. […] cujo cérebro, embora planejado para desenvolver certas capacidades, necessitará de um aprendizado mesmo para capacidades bem  simples. (Idem, p.34).  

    É evidente que as interpretações de forma estereotipada afetam o processamento das  informações e os conhecimentos adquiridos no ambiente. Quanto mais estímulos  persecutórios o cérebro estabelece, mais o doente pode se sentir prejudicado por alterações  nos órgãos dos sentidos, como tato, olfato, paladar, visão e audição, o que pode causar uma  estranha sensação na maneira de se sentir, pensar e agir. 

    6. INFORMAÇÕES EPIDEMIOLÓGICAS 

    A OMS estima uma incidência aproximada de esquizofrenia em torno de 1%. As  diversas estimativas de incidência da esquizofrenia indicam a ocorrência de cerca de quatro  novos casos por ano numa população de 10.000 habitantes. As pesquisas epidemiológicas  conduzidas no Brasil geram estimativas de incidência e prevalência compatíveis com as  encontradas em outros países. Não há uma hierarquia entre as possíveis diferenças na  prevalência da esquizofrenia entre os sexos, independentemente da metodologia utilizada em  diferentes estudos epidemiológicos. No entanto, a doença é mais frequente em homens do que em mulheres. A incidência de casos inéditos é rara antes da idade adulta e depois dos 50 anos.  As mulheres apresentam um estágio mais leve da esquizofrenia, o que implica numa melhor  previsão e uma maior chance de se adaptar à sociedade. 

    CONSIDERAÇÕES FINAIS 

    A esquizofrenia é um transtorno mental extremamente grave que afeta  significativamente a existência do indivíduo e as suas interações sociais. Os sintomas da  esquizofrenia podem surgir na adolescência ou na juventude e o tratamento requer uma equipe  multidisciplinar dedicada à saúde física e mental do paciente e a sua família. 

    É necessário realizar muitas investigações na área da saúde mental para aprimorar a  compreensão das razões da esquizofrenia. No entanto, fica claro o sofrimento diante da  desorganização da personalidade do paciente, bem como dos seus familiares. É possível notar  um grande preconceito em relação à doença, estigmatização e isolamento social na  esquizofrenia. Na complexidade da doença, há a interação de fatores culturais, psicológicos e  biológicos, entre os quais se destacam os de origem genética. É crucial manter a calma e  procurar um profissional de saúde mental para ter a orientação necessária para o tratamento da  esquizofrenia. 

    REFERÊNCIAS 

    1 – BLEULER, E. Demência Precoz, el grupo de las esquizofrenias. Tradução de Daniel  Wagner. Buenos Aires: Hormé, 1960. 

    2 – CONSEZA, R.M.; GUERRA, L.B. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre–RS: Artmed, 2011. 

    3 – DSM-V. (2022). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais da  Associação Psiquiátrica Americana (Batista, D., trans.). (4 ed.). Porto Alegre: Artes  Médicas. 

    4 – GRAEFF, F. G., GUIMARÃES, F. S., & ZUARDI, A. W. (1999). Medicamentos  antipsicóticos. In F. G. Graeff & F. S. Guimarães (Eds.),  fundamentos de psicofarmacologia (pp. 69-91). São Paulo: Atheneu. 

    5 – HOUZEL, SH. O cérebro nosso de cada dia: descobertas da neurociência sobre a vida  cotidiana. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2012.

    6 – Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Transtornos mentais. OMS; 2022.  Disponível em: https://www.paho.org/pt/topicos/transtornos-mentais. 

    Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br.

    Tendência