
Um amplo relatório global constatou que o comprometimento do bem-estar mental persiste no mundo inteiro, sem nenhum sinal de melhora desde antes da pandemia de covid-19.
Publicado on-line em 04 de março, o Global Mind Project da Sapien Labs foi realizado em 71 países e entrevistou mais de 500 mil pessoas com acesso à internet. O estudo mostrou que o declínio mais acentuado da saúde mental ocorreu entre os jovens adultos e ocorreu nos países mais ricos, enquanto os melhores índices de bem-estar mental foram identificados em vários países em desenvolvimento da África e da América Latina.
“Nosso trabalho mostra um quadro preocupante das perspectivas após a pandemia”, disse ao Medscape a Dra. Tara Thiagarajan, Ph.D., fundadora e cientista-chefe da Sapien Labs.
‘Descobertas inesperadas’
O objetivo do Global Mind Project é fazer um “mapa-múndi dinâmico em evolução que retrate o bem-estar mental e possibilite compreensões profundas sobre os fatores que o afetam. A ideia é que esses dados sejam usados para uma assistência mental mais eficaz por meio de políticas e intervenções sociais baseadas em evidências”, escreveram os autores.
A pesquisa se baseou nas respostas ao Quociente de Saúde Mental (QSM), um questionário on-line anônimo que avalia 47 aspectos de capacidade e funcionamento mental em uma escala de repercussão na vida. O QSM “está alinhado com a definição de bem-estar mental da Organização Mundial da Saúde”, disse Dra. Tara. O índice se refere à capacidade que uma pessoa tem de lidar com os fatores de estresse e as adversidades e de contribuir produtivamente para a sociedade.
O primeiro relatório, publicado em 2021 e divulgado pelo Medscape na época, incluiu oito países com cerca de 49 mil adultos. Desde então, o documento passou a incluir mais países, idiomas e participantes.
Em 2023, a pontuação média do QSM nos 71 países foi de 65 em uma escala de 300 pontos, com 27% dos entrevistados classificados como “sofrendo de angústia ou com outras dificuldades” e apenas 38% como “bem-sucedidos ou prósperos”.
Nos oito países de língua inglesa que foram monitorados desde 2019, o QSM diminuiu 8% entre 2019 e 2020 (período que coincide com o início e a disseminação mundial da covid-19).
Em 2021, esses países apresentaram uma queda adicional de 3%. De forma preocupante, o QSM médio, bem como o percentual de entrevistados “sofrendo de angústia ou com outras dificuldades”, apresentou pouca mudança. Da mesma forma, os índices dos 32 países monitorados desde 2021 e dos 64 países acompanhados desde 2022 também permaneceram relativamente inalterados.
O que é animador é que “as quedas do bem-estar mental que ocorreram durante a pandemia foram interrompidas, mas, infelizmente, não houve sequer um início de aumento do QSM em relação aos níveis pré-pandêmicos”, disse a Dra. Tara.
A pesquisadora disse que os resultados da pesquisa foram inesperados. “Esperávamos ver uma ‘curva em forma de U’, na qual o bem-estar mental despencaria e voltaria a subir lentamente, mas não foi isso que encontramos.”
Quais países se saíram melhor e pior?
A República Dominicana, o Sri Lanka e a Tanzânia tiveram as classificações mais altas no QSM, com pontuações ≥ 88, enquanto o Brasil, a África do Sul, o Reino Unido e o Uzbequistão tiveram as classificações mais baixas, com pontuações que variaram de 48 a 53. Na escala do QSM, isso representa uma diferença de 14,3% entre os países com melhor e pior classificação. Com uma pontuação média de 72, os Estados Unidos ficaram num nível intermediário entre os países com melhor e os com pior classificação.
O menor percentual de pessoas que informaram estar “sofrendo de angústia ou com outras dificuldades” foi identificado no Sri Lanka (14%) e na Itália, na Geórgia e na Nigéria (17% cada), enquanto o maior foi no Reino Unido e na África do Sul (35% cada), no Brasil e na Austrália (34% e 33%, respectivamente). Um quarto das pessoas nos EUA disse estar “sofrendo de angústia ou com outras dificuldades”.
“Uma das descobertas mais surpreendentes foi que os países que se destacaram não eram os mais bem-sucedidos economicamente. Temos trabalhado para entender por que países como a Tanzânia e a República Dominicana estão se saindo muito melhor em termos de bem-estar mental do que os países do “núcleo anglófono”, como os EUA, o Reino Unido e a Austrália, que são mais ricos”, disse a Dra. Tara.
Um possível motivo pode estar relacionado com a idade. Nos oito países de língua inglesa, o bem-estar mental das pessoas nas faixas etárias mais jovens (< 34 anos) diminuiu de 42 a 50 pontos no QSM em relação ao período anterior à pandemia, enquanto entre os indivíduos com idade ≥ 65 anos quase não houve declínio.
Os idosos “parecem ter saído ilesos, talvez porque muitos tenham vivido grandes crises, como a Segunda Guerra Mundial, e tenham uma atitude diferente em relação a momentos de crise”, disse a Dra. Tara.
Outro motivo pelo qual as pessoas mais velhas se saíram melhor pode estar relacionado ao uso da internet, especialmente o papel dos smartphones.
“Em 2023, publicamos um breve artigo mostrando que, quanto mais jovem a pessoa era ao receber o primeiro smartphone, pior era o seu bem-estar mental quando jovem adulta, especialmente entre as mulheres”, contou a Dra. Tara.
O “eu social” (uma medida agregada de como nos vemos e nos relacionamos com os outros) teve uma melhora drástica e os pensamentos suicidas diminuíram significativamente com o aumento da idade em que o indivíduo recebeu seu primeiro smartphone.
“Nos países com o melhor bem-estar mental, como os países subsaarianos, as pessoas tiveram acesso à internet mais tarde do que nos outros países, e a média de idade de recebimento de um smartphone era mais alta”, disse a Dra. Tara. Por outro lado, a idade para receber um smartphone está ficando “cada vez mais baixa” no Reino Unido, por exemplo.
Isso pode ser responsável não apenas pela diferença de bem-estar mental entre os países, mas também pela disparidade entre faixas etárias, com os grupos mais jovens apresentando o pior bem-estar mental.
Alimentos processados e unidades familiares mais fracas
Outros fatores são o consumo de alimentos ultraprocessados, muito mais comum nos países mais ricos do que nos países menos favorecidos — fenômeno descrito em um artigo de 2023 com cerca de 300 mil adultos entrevistados em 26 países.
“Quanto mais alimentos ultraprocessados forem ingeridos, piores serão os resultados em todas as dimensões da saúde mental”, disse a Dra. Tara. “Foi um efeito generalizado em todas as faixas etárias, em todos os gêneros e em todos os sintomas de bem-estar mental, principalmente no transtorno depressivo, mas também no controle emocional e cognitivo e na resiliência.”
Os países nos quartis superiores de saúde mental informaram um consumo muito menor de alimentos ultraprocessados, e aqueles com o maior consumo desses produtos apresentaram o pior bem-estar mental. Nos países mais ricos, “a maioria das calorias consumidas atualmente vem de alimentos ultraprocessados”, disse ela.
Um terceiro fator enfatizado no relatório anual de 2022 do Sapien Lab mostrou que os países com laços familiares mais fortes — geralmente países menos favorecidos economicamente — apresentaram bem-estar mental superior ao dos países ocidentais onde “os laços familiares estão mais deteriorados”, disse a autora. “Não incluímos essa ideia no relatório deste ano, mas acreditamos que esse fator desempenhe um papel importante.”
Uma causa potencial relacionada à perpetuação de um pior bem-estar mental é a manutenção do trabalho remoto, o que leva a menos interações sociais presenciais, acrescentou Dra. Tara. “As interações entre pessoas criam conexões e melhoram as habilidades sociais.”
A repercussão da pandemia é longa…
Em comentário para o Medscape, o médico Dr. Ken Duckworth, professor assistente na Harvard Medical School e diretor médico na National Alliance of Mental Illness (NAMI), ambas nos EUA, disse que as descobertas da pesquisa foram “convincentes, criativas e importantes”, e sugeriu que “o período pós-pandemia pode ser mais comparável ao lacear constante de uma roupa que ao movimento de um elástico, que estica e depois volta à forma inicial”.
Em outras palavras, as repercussões da pandemia “são longas. Já se passaram anos e as pessoas ainda não voltaram a ser o que eram, segundo este trabalho — especialmente os mais jovens”.
Dr. Ken, autor de “You Are Not Alone: The NAMI Guide to Navigating Mental Health”, [Tradução livre: “Você não está só: guia NAMI sobre saúde mental”] acrescentou uma ressalva. Quando fez entrevistas para seu livro, as pessoas nos EUA se sentiam mais à vontade para falar sobre suas vulnerabilidades de saúde mental em comparação às provenientes de culturas latino-americanas ou asiáticas. “Portanto, não podemos supor que todos os entrevistados desta pesquisa mundial tenham a mesma abordagem cultural para descrever suas dificuldades de saúde mental, e o relatório não considerou essas diferenças culturais.”
A Dra. Tara Thiagarajan é fundadora e cientista-chefe na Sapien Labs. Dr. Ken Duckworth informou não ter conflitos de interesses relevantes ao tema.





