O tempo passa e nós, geralmente, só percebemos quando a calça dos filhos está curta, quando surge uma marca a mais no rosto ou quando a mecha de cabelo branco aumenta…

A última vez que escrevi por aqui foi em maio. E chego a dezembro com muitas coisas pelos rascunhos e em pensamento, porém pouco escrevi o tanto que gostaria. 

O tempo não me permitiu? O que fiz do tempo a partir do que me foi assimilado sobre como devo usá-lo visando produtividade não me permite fazer muitas coisas. Entre elas, muitas das quais eu ainda gosto muito: relaxar, ler, escrever, dormir, ouvir música bem quieta no sofá… 

O que temos feito do nosso tempo? Quando e como nos foi imposto que descansar é tão desnecessário?

Frases ouvidas e reproduzidas por muito tempo marcam nossa forma de usá-lo, como : “Enquanto descansa, carrega pedra.”; “ “Deus ajuda quem cedo madruga.” O que elas podem nos dizer, além de que descansar e dormir não são tão importantes? Há outras interpretações e você deve ter pensado em muitas outras frases que já ouviu pela vida e que não nos permitiram por muito tempo descansar sem culpa.

E agora que ficamos exaustas/os, irritadas/os, dolorosas/os, aprendemos que descansar é muitíssimo importante para realizar demandas diárias, além de nos dar qualidade de vida e tantos outros benefícios.

Então, atualmente, é preciso descansar com um exercício acoplado: enquanto descansamos, trabalhamos com a ideia de que não precisamos sentir culpa por isso (e olhar a louça para guardar pensando que ao invés de descansarmos, era possível guardá-la logo, e que…, calma! Isso não é preciso porque temos o direito de descansar). Além de cansadas/os fisicamente, cansamos nossa mente pensando naquilo que não estamos fazendo e que, não fosse a ideologia da produtividade, nem perderíamos tempo pensado.

Apesar dessas angústias em relação ao tempo que perdemos por não nos permitirmos descansar, ainda sou otimista quanto ao tempo que podemos aproveitar sabendo que quem melhor pode organizá-lo somos nós. 

Assim – ainda que as frases ouvidas em tantos espaços desde a infância como “tempo é dinheiro” e coisas do gênero tenham feitos marcas – podemos, aos poucos, desconstruir alguns conceitos que ficaram, evitando repetir essas falas e ações que desvalorizam algo muito mais essencial do que produzir resultados que nós mesmas/os nem sempre usufruímos: sentir a vida com o passar do tempo como se ele fosse, por alguns minutos, só nosso.

Gisele Souza Gonçalves. Professora e Doutora pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe. Colunista do Factótum Cultural.

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