por Iara Aparecida Dams

Quebrar.
- transitivo direto e intransitivo e pronominal
reduzir(-se) a pedaços; fragmentar(-se), despedaçar(-se).
“q. um copo sem querer”
- transitivo direto e intransitivo
diminuir a intensidade de; enfraquecer, baixar.
“q. o volume do som”
Segundo o dicionário Oxford Languages quebrar é um verbo que define um ato ruim, que pode ser ou não culposo. Quebrar, em sua essência, sempre é relacionado a algo falho, seja por quem comete o ato ou pelo que deixa-se despedaçar.
Em muitos pontos da vida pude ver este verbo aplicando-se aos mais distintos seres e corpos, indo muito além do físico e transpassando o que é invisível. Sendo no sentido mais literal possível, onde jogamos um copo ao chão e vemos o vidro fragmentar-se em pedaços tão minúsculos que o ambiente torna-se perigoso até a limpeza completa; ou no sentido figurado, buscando explicar sensações, sentimentos e percepções que não podemos explicar com palavras já existentes em nossa língua.
Já disse certa vez que a língua portuguesa é tão rica que temos palavras que não podem ser traduzidas ou explicadas em outros idiomas, e mesmo assim é tão miserável que continuamos transfigurando sentidos para acompanhar nossas sensações.
E ao quebrar vamos além do significado doloroso, compreendendo que para iniciar o novo é necessário abster-se do antigo. Deixar ir também é uma forma de quebrar, e assim permitimos iniciar novas etapas com a intenção da mudança e inovações.
E, sem querer romântizar a dor, temos a constância de querer despedaçar tudo que temos. Já quebramos nosso ano em meses, repartindo-os em semanas, as quais dividimos em dias, e estes são formados por pedaços de horas; e assim vamos fragmentado cada vez mais as coisas em nossa vida, talvez em uma vã tentativa de ter controle sobre o que escorre entre os nossos dedos.
E como é possível algo quebrar e permanecer inteiro?
Ou então romper-se e voltar a sua totalidade em instantes?
Tal qual as ondas nervosas contra a areia quente da praia, onde se desmancham para voltar a ser totalidade com o mar.
Como quebrar é sinal de fraqueza quando para permitir-se partir em pedaços é necessário muita coragem e certeza de que haverá força para reconhecer-se em cada pedaço?
E hoje aceito o ato de quebrar como essencial, com a consciência de quem sabe da dor de sofrer com o ato, mas também como alguém que reconhece a marca que deixou ao despedaçar.
“Quebraste” e continuaras quebrando, pois é impossível viver em um mundo onde permaneça sempre inteiro.

Iara Aparecida Dams, Professora do ensino fundamental I no Colégio Santos Anjos – PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Pós-graduada em Alfabetização, Letramento e Literatura Infantil (UNINA). Cursando Pedagogia (UNIASSELVI). Poetisa e escritora. Colunista do Factótum Cultural.
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