por Adriano Nicolau da Silva

“Todo dia ela faz tudo sempre igual”. 

Francisco Buarque De Hollanda

 

Era manhã e a chuva ainda teimava cair no asfalto gelado. À noite ele não conseguiu dormir, sonhos perturbadores e melancólicos. Teve que tomar um ansiolítico se não bastasse, acrescentou uma dose generosa de conhaque. Esperava dar a hora certa  para pegar o seu carro e se juntar às pessoas de staff da produção empresarial. Sim, estava se sentindo feliz, pois, conseguiu ser contratado, há anos, para trabalhar nessa multinacional e isso não aliviava a angústia de pensar que iria a uma organização de  trabalho para fabricar um produto que o cliente só usaria uma vez.  

Ainda chovia, havia relâmpagos e já estava quase dentro do seu sedã com detalhes  em couro e madeira, quando a ideia lhe ocorreu. Vou me aprumar, encher meu peito e  retomar o projeto de ontem. Afinal, já existem cobranças para o novo produto que irá contribuir muito para a posição da empresa no mercado financeiro Internacional. 

Ele teve tempo de olhar pela janela, percebeu que ainda chovia e ao chegar em  sua escrivaninha, em frente ao seu notebook, vários pensamentos surgiram que o  deixaram imaginando naquela manhã. Indefinível a sensação, era um estranhamento,  parecia que sua alma estava alojada em outro corpo. Logo surgiu a lembrança da infância. 

Acordava cedo todos os dias para ir à escola ter aulas com a professora Antonieta.  Nos finais de semana chamava os amigos da rua para brincar à beira de um lago, perto de  sua casa. Via quando o seu pai saia de bicicleta para trabalhar no sítio do Sr. João, cortar  cana e plantar hortaliças. O perfume do campo, o sol, as borboletas e o Sr. José aposentado e bem velhinho ficava por ali, dando conselhos e alertando para os perigos da água.  Conversa vem, conversa vai, sonhava trabalhar em uma Empresa grande como o pai do  coleguinha esnobe da outra esquina, aquele que passava todo engomado no carro  importado dirigido pelo motorista da família.  

Um forte sentimento de nostalgia e melancolia veio à mente, que bobagem, ele  pensou, executivos jamais vacilam. Lutei para ficar aqui nesta mesa e fui treinado para  assumir e colocar em prática os meus conhecimentos profissionais e enriquecer meu país, estado, cidade, comunidade e a empresa onde trabalho. Eles me pagam pela competência  dividida por horas trabalhadas. Tenho vergonha de pensar essas bobagens, é que as  pessoas não estão angustiadas com o seu verdadeiro papel nesta vida passageira. Para a  maioria, o importante é sobreviver.  

Essa descoberta me fez pensar sobre a rotina que tenho há anos e me sentir alienado com os discursos fervorosos dos empresários e governantes. Admito que certos  acontecimentos me distanciam da realidade e chamam a atenção para o meu  comportamento.  

Quando os colegas de trabalho me veem, eles perguntam, por que você não fica como os outros, querendo posto de chefia, altos salários, realizar transações milionárias,  viajar para o exterior, adquirir carros importados, investir na bolsa de valores e comprar um sítio para descansar a cabeça? Você já tem um ótimo emprego e bom salário, lutou  muito para chegar nesse lugar, saiba aproveitar as boas colheitas. 

Está parecendo tudo muito sem sentido.  

Ele olhou para a avenida, de sua janela e percebeu que ainda estava chovendo,  então veio outro pensamento, tenho que mudar o curso da minha vida, isso não pode ser  o sentido de tudo, trabalhando na mesma empresa, há tantos anos, no mesmo horário. 

Devemos pensar em sermos mais generosos, humanos, participar de uma  comunidade maior, contribuir para projetos de moradia, água potável, saneamento,  educação, saúde e estimular os sonhos e as realizações das pessoas.  

Ficam falando que perdi o foco empresarial, preciso me concentrar e entrar no  esquema, esquecer esses questionamentos e voltar para o grupo de trabalho, todos têm  razão, sonhar é para poucos, devemos colocar em prática o que a gente preparou durante  a vida, ser um exímio profissional.  

Por que alguns comportamentos se mantêm por tanto tempo e outros não? A  ciência do comportamento humano vem tentando explicar a importância do hábito e como  ele influencia nossas vidas. 

Fazemos coisas sem pensar, simplesmente através do condicionamento, colocamos nossas ações no piloto automático e facilitamos o cérebro a lei do menor  esforço. Quando nós nos envolvemos em uma realidade que não exige esforço cerebral, podemos estimular a zona de conforto comportamental. Isso pode resultar em  complacência e falta de motivação para novos projetos pessoais e profissionais.  Você está se perguntando como sair desse paradigma comportamental para  conseguir responder os seus múltiplos porquês? Há quanto tempo ele está pensando  nisso? No começo tudo que fazia era absolutamente reforçador e se sentia livre, mas hoje  estão faltando sonhos. O projeto de investimento pessoal é abandonado e trocado por  tempo de trabalho para subsistência. Como você lida com isso? Deposita todas as suas  perspectivas em uma filosofia de trabalho imposta por um sistema econômico e financeiro? 

Como percebemos, após fazer o mesmo trabalho por muito tempo, criamos  hábitos e permanecemos em uma cadeia comportamental condicionada e nós não  conseguimos mudar o mundo, mas agora é o melhor momento para refletir em mudança  e superar a si. 

À noite, indo para casa, pois continua a chover, é hora de amadurecer as ideias.  Pensar em redirecionar a vida pessoal e profissional e quem sabe investir em um sítio para plantar cana e hortaliças? Dar conselhos e orientar os jovens? E você o que pensa disso?

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. E-mail: adrins@terra.com.br. Colunista do Factótum Cultural.

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