por Adriano Nicolau da Silva

Escrever sobre Georg Wilhelm Friedrich Hegel não é tarefa fácil. Hegel  foi um dos filósofos mais completos de sua época. Ele com sua inteligência e  ambição intelectual colocou a filosofia em um lugar de destaque. Alemão, nasceu  em Estugarda em 27 de agosto de 1770 e faleceu em Berlim em 14 de novembro  de 1831. Tinha paixão pelos estudos, lecionou na Universidade de Heidelberg,  onde exercia sua função com brilhantismo, pois era admirado até por quem o  criticava, chegando a ser reitor da Universidade de Berlim. 

Hegel era um leitor compulsivo dos filósofos que o antecederam, entre  tantos tinha preferência pelos teóricos: Spinoza, Kant e Rousseau. Com o seu  idealismo, acabou influenciando vários estudiosos, o mais conhecido, Karl Marx.  Hegel tinha uma admiração pela filosofia clássica, sobretudo pela grega, e  recebeu também influência do racionalismo cartesiano e do idealismo alemão.  Escreveu várias obras, embora a mais conhecida e que nos oferece uma  compreensão maior do seu pensamento é o livro intitulado: “Fenomenologia do  Espírito, 1806”. Hegel herda também a ideia de dialética e uma lógica  transcendental. Para ele, a dialética ajuda a entender a complexidade entre os  opostos: afirmação, negação, síntese, antítese, tese e o idealismo da identidade  do sujeito, objeto na consciência do absoluto.  

Hegel compreende o “absoluto” por meio da dialética, mediação,  autodiferenciação e este entendimento poderá acontecer somente no final de  cada processo. O homem, segundo a sua percepção, desenvolve-se  biopsicossocialmente, sempre em processo dinâmico e contínuo em sua história.  

A filosofia de Hegel é aquela que mais realizou, na modernidade, a  ambição do sistema absoluto. Alegava que a totalidade é a maior vocação da  filosofia e a história do homem entra como um processo imprescindível na  compreensão do ser ideológico. O reconhecimento da trajetória, da lógica e do  contexto histórico não é absoluto, representa apenas um fragmento da  totalidade. A ideologia do filósofo é apresentar algo que não está acabado, mas  em constante mudança e transformação. Vir a ser através do movimento, 

dialética, quântico, universal, histórico e não separando sujeito e objeto, ambos  se encontram no espírito ou ideia em movimento. Tal movimento tem como  sujeito o espírito constituído pela história e pela natureza. Encontramos esta  ideia na Fenomenologia do Espírito, onde Hegel apresenta a história imanente  da experiência humana. A consciência é apresentada nesta obra desde o estágio  da certeza sensível até o momento da autoconsciência, produzida por si e  desenvolvida mediante uma via espiritual que é o conceito e a razão. 

Sobre este aspecto do pensamento hegeliano, a história está dividida em  diferentes períodos, marcados em níveis distintos de desenvolvimento e cada  um representando um estágio definido de realização da razão. Cada estágio  deve ser compreendido e entendido como uma totalidade pelas maneiras  dominantes do pensar, instituídas pela sociedade, ciência, religião e filosofia.  Existem estágios diferentes da realização da razão, mas há apenas uma razão,  da mesma forma que há apenas uma totalidade e uma verdade: a realização da  liberdade do ser. 

Foi na Alemanha, no final do século XVIII e início do século XIX,  considerada uma sociedade caótica, contraditória e complexa, que Hegel  questionou as reflexões de Kant sobre uma realidade antagonista, que consolida  o mundo cindido, dependente do sujeito e propôs uma realidade processual não  definitiva, mas superável dialeticamente. Hegel localizou na Razão a única  possibilidade de desenvolvimento e a liberdade. Também, diferente dos  empiristas, possibilitou pensar o sujeito, não apenas como um receptáculo  passivo do conhecimento da realidade, mas também como criador desta  realidade. A objetividade da realidade é atribuída à ação humana realizada no  mundo através de seu trabalho. Na teoria hegeliana tudo é espírito ou ideia em  movimento. Tal movimento tem como sujeito o espírito constituído pela história  e pela natureza.  

Para Hegel: 

Assim, a consciência saiu também desse segundo modo do  

perceber, que era tomar a coisa como o verdadeiro igual a  

si mesmo, e, ao contrário, tomar-se a si mesma como o  

desigual; como o que retorna a si [saindo] para fora da  

igualdade. O objeto agora é-lhe o movimento todo, antes  

dividido entre o objeto e a consciência. A coisa é una, sobre 

si refletida; é para si, mas também é para o outro. Na  

verdade, é para si outro [o oposto] do que é para o outro.  

(HEGEL, 2002, p. 103). 

Hegel explicava os acontecimentos através das categorias ordenadas e  divididas em unidades. Neste sentido surge o “nada”, pois o homem é livre e  busca alcançar o conhecimento e a sabedoria constantemente, onde não se  encontra na realidade prática, mas no mundo metafísico. 

Portanto, no idealismo alemão, Hegel considera a lógica, usando a  dialética uma maneira prática de conhecer o mundo. A dialética é entendida  como duas ideias diferentes, uma tese, e uma antítese e a partir do confronto  entre as duas, surge a síntese e consequentemente uma nova tese. Neste  sentido o homem está em processo de crescimento constantemente, o “ser” e o  “devir” isto é, vir a ser no mundo, considerando o seu idealismo, a sua história,  o seu presente e o seu futuro. Neste processo, a contradição percebida no  pensamento humano é como o fenômeno surge, e como ele é na sua totalidade.

O ser é o conceito em si; as suas determinações são  

enquanto são, e na sua distinção são estranhas umas às  

outras, e a sua ulterior determinação (a forma dialética) é um  

passar para outro. Esta determinação ulterior é, juntamente,  

um pôr fora e, assim, um desdobrar do conceito que estava  

em si e, simultaneamente, o entrar em si do ser, um  

aprofundar-se deste em si. O desdobramento do conceito  

na esfera do ser torna-se tanto a totalidade do ser como  

deste modo é superada a imediatidade do ser ou a forma do  

ser como tal. (HEGEL, 1988, p. 137). 

Diante do exposto, quais são as mudanças que queremos no pessoal e  na sociedade? Qual seria a nova tese a ser pensada e colocada em prática nos  movimentos sociais e políticos na atualidade? Neste processo dialético, estamos  conseguindo o sentido de ter uma vida digna para nós e para o coletivo? O  homem está preparado para ser íntegro pessoal e socialmente? A filosofia de  Hegel está ultrapassada? 

Sugestões de Referências Bibliográficas

HEGEL, G. W. F. Enciclopédia das ciências filosóficas em epítome. vol. 1.  Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1988.

Hegel, G. W. F. O Sistema de vida ética. Lisboa: Edições 70, 1991. _______.  Fenomenologia do espírito. 2 v. Petrópolis: Vozes, 1992. _______. Filosofia dello  spirito jenese, editado por Cantillo. Bari: Laterza, 1971. _______. Lineamenti  della Filosofia del Diritto. Diritto naturale e scienza dello Stato in compendio,  editado por G. Marini. Roma-Bari: Laterza, 1996. 

MARCUSE, H; WOLFF, R. P; MOORE, B. A crítica da tolerância pura. Rio de  Janeiro: Zahar, 1970.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. E-mail: adrins@terra.com.br. Colunista do Factótum Cultural.

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