por Adriano Nicolau da Silva

Um homem com uma personalidade irreverente, inteligente e muito  perspicaz em sua forma de entender o mundo com os olhos do sagrado. Homem  retórico, escritor, filósofo e santo com uma obra vasta e profunda, influenciou e  continua influenciando em toda a cultura ocidental. Pode se dizer que foi o  primeiro filósofo de sua época. (Cf. CAMPENHAUSEN – 2005, p. 380). 

No começo do seu trabalho escreveu muito sobre a filosofia, depois  dedicou-se à pregação e passa a escrever tratados teológicos, de exegese  bíblica. 

Algumas obras merecem serem destacadas. Educação com enfoque  psicológico, de immortalitate Animae, crítica do ceticismo, sobre a origem do mal,  os coliloquia, um apaixonado diálogo consigo mesmo sobre a Contra  Acadêmicos, crítica do ceticismo. De beata vita, sobre a felicidade. De ordine,  sobre a origem do mal: os Coliloquia, um apaixonado diálogo consigo mesmo  sobre a imortalidade da alma. De immortalitate animae; de quantitate animae,  sobre a mesma questão. De magistro, sobre a educação com um enfoque  psicológico. 

Santo Agostinho não construiu um sistema filosófico completo, ainda que  as ideias básicas se mantenham constantes e acusem um claro predomínio  platônico. Ele mesmo nos conta que começou a ler uma obra de Aristóteles e  não pôde prosseguir. Talvez o tenha afastado o estilo entrecortado,  desencarnado, a falta dessa alma que Santo Agostinho buscava em tudo. Santo  Agostinho não parece feito para encerrar a realidade em categorias. A sua  reflexão parte sempre da vida: das coisas que se passam ao seu redor, das  ideias dominantes, dos ataques contra a fé, da interioridade da sua alma.  (AGOSTINHO, 2006, p.13). 

Santo Agostinho e a busca da verdade

A filosofia de Santo Agostinho busca incansavelmente a verdade em  cristo. A base filosófica para Santo Agostinho é o amor que dá sentido à vida.  Verdade e Amor. 

“Fizeste-nos, senhor, para Ti e o nosso coração estará inquieto enquanto  não descansar em Ti”, diz nas Confissões”. 

Santo Agostinho 

Revisão: 

Para entendermos precisamos ter amor e para crer melhor devemos  duvidar da possibilidade de chegar à verdade. A verdade está no interior  do homem. Não queiras sair; é no interior do homem que habita a verdade.  A verdade é inalterável e constante. Aquele sendo eterno: Deus. São  reflexos da verdade eterna, que nos ilumina e nos permite ver. Nisso consiste o que depois ficou conhecido como “doutrina da iluminação”;  porém, desde já é preciso dizer que Santo Agostinho não a apresenta  nunca como uma “teoria”, mas como uma comprovação. Já no final da sua  vida, diz nas retractationes que o homem tem, enquanto é capaz, “a luz da  razão eterna, onde vê as verdades imutáveis” 

O Encontro com DEUS 

Para Santo Agostinho, basta abrir os olhos para enxergar a Deus, pois ele  se encontra em todas as coisas, tudo fala dele, ele está presente em todos os  fenômenos existentes.  

Aquele que é, este é o melhor nome para Deus. O amor, a santidade, a  espiritualidade, o infinito e o finito, (Confissões):  

“Basta olhar para as coisas para ouvi-las dizer isso. Tu, Senhor, fizeste  essas coisas. Porque és belo, elas são belas; porque és bom, são boas; porque  tu és, elas são. ” 

Esta última afirmação (quia est: sunt enim) significava a definitiva  superação por parte de Santo Agostinho do essencialismo platônico. Deus é  causa do ser das coisas, porque é o Ser por essência. Se a fórmula de Santo  Agostinho não é essa, a ideia é.

Criação De Deus 

Outro texto das Confissões situa de forma inequívoca a metafísica da  criação: “Que eu ouça e entenda como no princípio fizeste o céu e à terra. Moisés  escreveu isso; escreveu-o e ausentou-se. Daqui, onde estava, passou a estar,  por isso não o podem ver meus olhos. Se estivesse aqui presente, eu o agarraria,  lhe rogaria e, por ti, lhe suplicaria que me explicasse essas coisas […]. Porém,  como saberia que me dizia a verdade? A própria verdade, que está no interior  da minha alma, e que não é grega, nem latina, nem bárbara, nem necessita dos  órgãos da boca ou da língua, nem do ruído de sílabas, me diria: Moisés diz a  verdade, e eu, no mesmo instante, com toda a segurança lhe diria: é o que me  dizes”. (AGOSTINHO, 2006, p.17). 

Voltemos à questão anterior. Deus é aquele que é; as coisas são criadas.  Deus é quem lhes deu o ser. Por quê? Por pura bondade. “Porque Deus é bom.  ” A razão da criação é a bondade de Deus. Deus não pode ter, no seu querer,  outro fim que não o seu próprio ser. Só em relação a si mesmo pode querer mais.  A criação é gratuita. Não há nada preexistente. Santo Agostinho acaba com  todas as dúvidas. Deus cria todas as coisas do nada. E todo o criado é composto  de matéria. Santo Agostinho, que durante tanto tempo não conseguiu conceber  uma substância espiritual, não deixa de atribuir uma certa materialidade mesmo  às criaturas espirituais, aos anjos. A absoluta imaterialidade só cabe a Deus. Em  Deus estão as ideias exemplares de todas as coisas, as formas. Ao criar, essas  ideias ficam limitadas pela matéria, mas, em simultâneo, nessa matéria já estão  os germes de tudo o que será.  

Santo Agostinho retoma aqui uma doutrina de origem estoica e, em  simultâneo, faz uma concessão ao “materialismo” que professou durante anos,  embora talvez seja melhor empregar o termo de “corporalismo”. Revisão: Para Santo Agostinho a melhor explicação de Deus e a fé não se  baseia somente nos processos cognitivos e sim na crença, e no poder que  o homem tem de se permitir sentir e viver ele em seus corações. 

O Enigma Do Homem

“O homem que se espanta é ele mesmo grande maravilha”. “E dirigi-me a  mim mesmo e disse. Tu quem és? E respondi-me. Homem. Eis que tenho à mão  o corpo e a alma, um exterior e o outro interior. Porém, melhor é o interior”. “O  homem é um ser intermediário entre os animais e os anjos”. “Nada encontramos  no homem além inteiramente; isso é todo o homem: espírito e carne”. Essas são  apenas algumas das numerosas referências que poderíamos dar sobre esta  questão crucial. São os dois grandes temas agostinianos: “Deus e o homem”.  “Que te conheça a ti e que me conheça a mim mesmo”. É o famoso princípio dos  Soliloquia: “Quero conhecer Deus e a alma. Nada mais? Absolutamente nada  mais”. 

Também nesta questão Santo Agostinho trai a influência do platonismo.  O homem é uma alma que usa um corpo; ou, uma alma racional, que se serve  de um corpo terrestre e mortal; ou, “uma alma racional, com um corpo”. Tudo  indica que, para Santo Agostinho, o homem é a alma. E, há textos que parecem  fugir ao platonismo: “Porque o homem não é só corpo ou apenas alma, mas o  que é constituído de alma e de corpo. Esta é a verdade: a alma não é todo o  homem, mas é a melhor parte do homem; nem todo o homem é o corpo, mas a  porção inferior do homem; quando às duas estão juntas, temos o homem” (A  Cidade de Deus). A questão ainda está sujeita a discussão, mas exagerou-se  demais o platonismo de Santo Agostinho neste particular. De qualquer forma,  Santo Agostinho supera a desvalorização do corporal, tão essencial no  platonismo e no neoplatonismo. O corpo é matéria, criação de Deus, por isso,  bom. Não é o cárcere nem o túmulo da alma: “Não é o corpo, o teu cárcere, mas  a corrupção do teu corpo. O teu corpo, Deus o fez bom, porque Ele é bom”.  Também aqui poderíamos multiplicar os textos: “Todo aquele que quer eliminar  o corpo da natureza humana desvaira”. E de forma inequívoca, numa obra tardia,  

O Sermão 267: “Perversa e humana filosofia é a dos que negam a  ressurreição do corpo. Alardeiam serem grandes depreciadores do corpo,  porque creem que nele estão encarceradas as suas almas, por delitos cometidos  em outro lugar. Porém, o nosso Deus fez o corpo e o espírito; de ambos é o  criador; de ambos o recriador”. (AGOSTINHO, 2006, p.64). 

Examinemos uma dificuldade classicamente agostiniana. Deus é o criador  da alma, mas como a criou? Com os nascimentos surgem constantemente  homens, isto é, corpo e alma. Será que as almas estão nas “razões seminais”, 

na matéria, transmitidas pelos pais, na geração? Santo Agostinho assim o  pensou por certo tempo, mas depois recusou que algo espiritual pudesse surgir  da matéria. Pensou na criação imediata por Deus de cada alma, mas esse início  no tempo de algo espiritual não combinava com o que ainda restava de  platonismo nele. Acabou confessando que não sabia o que dizer. Era mais um  elemento desse enigma que é o homem. 

Fica claro que a alma é imortal, porque conhece as verdades imortais e  eternas. Que conheçamos o que seja a verdade e que nunca deixará de sê-lo é,  para Santo Agostinho, evidente. Como pode morrer ou desaparecer o que é a  sede do indestrutível? 

A alma será sempre um mistério. Muitas outras realidades sobre as quais  pensamos também o são. O tempo. É famoso o dito agostiniano: “Se ninguém  me pergunta, sei; mas se quero explicá-lo a quem me pergunta, não o sei”.  Depois de uma análise do passado, do presente e do futuro – até hoje não  superada –, Santo Agostinho concluí: “Não se diz com propriedade «três são os  tempos: passado, presente e futuro»; talvez fosse mais apropriado dizer:  «presente das coisas futuras, presente das coisas passadas, presente das  coisas presentes». Porque essas três presenças têm algum ser na minha alma,  e é somente nela que as vejo. O presente das coisas passadas é a memória; o  presente das coisas presentes é a contemplação; o presente das coisas futuras  é a expectação” (Confissões). O tempo é, assim, distensio animi, “uma espécie  de extensão da nossa alma”. É preciso ler ao menos esse livro XI das Confissões  para captar o tom da filosofia agostiniana: incerta às vezes, nada dogmática, em  diálogo constante com Deus. 

A Cidade de Deus 

A Cidade de Deus é mais uma das grandes obras universais que Santo  Agostinho legou à humanidade. Mas poucos escritos têm sido tão mal lidos, tão  mal interpretados. A oposição entre Cidade de Deus e Cidade terrena foi vista  como oposição entre Igreja e Estado. Nada mais falso. O texto célebre não deixa  lugar a dúvidas. Dois amores criaram duas cidades: o amor-próprio, que leva ao  desprezo de Deus, a terrena; o amor de Deus, que leva ao desprezo de si  mesmo, a celestial. Ou: “Dividi a Humanidade em dois grandes grupos. Um é o 

daqueles que vivem segundo o homem; o outro, o dos que vivem segundo Deus.  Damos misticamente a esses dois grupos o nome de cidades, que quer dizer  sociedades de homens”. 

A prova fundamental de que essa divisão não é equivalente à divisão  Igreja-Estado é a afirmação taxativa de que na Igreja podem existir homens que,  pertencem à cidade terrena; e, inversamente, entre as pessoas que ainda estão  fora da Igreja, podem-se encontrar predestinados à cidade celestial. Por outro  lado, essas duas “cidades” acham-se misturadas, imbricadas. A “peneira” será  feita só no final de cada história pessoal e no final da história de todo o gênero  humano. Enquanto transcorre o tempo, com as suas variações, “porque não em  vão são tempos”, a história é complexa. Não existe uma “lei da história”, não  conhecemos o futuro. Só Deus conhece o final; o homem move-se às  apalpadelas no campo da história. A história forma como que um belo poema,  em que intervêm Deus e o homem. O final só será conhecido quando soar a  última nota. 

Revisão: Em uma palavra: Santo Agostinho tem uma abertura para o  encontro com a fé em Deus, não basta filosofar ou teorizar, é necessário  “sentir” a presença de Deus, isto por si basta.  

Referências 

AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Bragança Paulista: 9ª ed. Editora  Universitária São Francisco, 2006. 

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 7. ed., São Paulo: Hucitec,  1995. 

CAMPENHAUSEN, Hans Von. Os Pais da Igreja: A vida e a doutrina dos  primeiros teólogos cristãos. Rio de Janeiro: Editora CPAD – Casa Publicadora  das Assembleias de Deus, 2005. 

Cf/DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina  Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1996.

Adriano Nicolau da Silva, Psicólogo e Psicoterapeuta. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. E-mail: adrins@terra.com.br. Colunista do Factótum Cultural.

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