por Eliane Camargo

Estávamos em quatro amigos, batizados naquela noite com o néctar dionisíaco: filósofos e filósofas de farra… Ali, madrugada adentro, em uma noite de bebedeira, abençoadas/os pela deusa da alegria acabamos subindo o morro do Cristo, monumento de União da Vitória.
Enquanto ela falava alto e ria graciosamente contando suas aventuras, eu observava atentamente seus gestos, sua forma livre de ser. Queria deixar-me envolver apenas pelo álcool, só por um momento, deixar de lado a minha mania estranha de analisar as pessoas, no entanto, sua presença embriagava-me de um pensar filosófico.
Uma pergunta martelava em minhas ideias: -Você é o que as pessoas falam de você?
Querida leitora,
Querido leitor…
Por instantes, fiquei pensando em quantas vezes julgamos as pessoas pelo que ouvimos falar delas, eu mesma, já fiz muito isso. Já amei pessoas só de ouvir de outros o quanto elas eram amáveis, íntegras. Mas, com o tempo, olhando de perto e descobrindo coisas percebi que tudo nessas pessoas era discurso. Um discurso amável, revolucionário, é verdade! Porém, da boca para fora. Por outro lado, já odiei pessoas por ouvir o quanto eram “más”. Fico a pensar quanta gente maravilhosa deixei de conhecer só por dar ouvidos a um discurso hipócrita. Como fui tola! Ah, querida/o, não existem vilãs/vilãos, nem heroínas/heróis, somente pessoas sobrevivendo, errando mais do que acertando.
Eu que já tinha julgado ela, ouvindo-a deparei-me com traços seus que eram meus também. Uma personagem da vida real que sem pedir licença adentrou em meus delírios etílicos. Ela é autêntica! Coisa rara de encontrar. Mas o preço por sua autenticidade é alto demais, ela paga com sua fuga da realidade, abusando de alucinógenos e remédios para suportar as intempéries de ser quem é, não entendeu ainda que sua dor é combustível para a felicidade das línguas falso moralistas.
Infelizmente, a maioria das pessoas vive um surto coletivo buscando a aprovação alheia, não conseguem evoluir para além das regras sociais. Previsíveis, apontam os erros dos outros na tentativa de esconder sua podridão, mas, esquecem que o “tóxico” que se vê no outro, diz mais sobre quem vê do que quem é visto.
Talvez, por nossa formação filosófica, em muitos pontos somos parecidas, mas há algo que nos torna muito diferentes: Em meu sangue corre uma alegria, uma esperança que me aviva em minhas diversidades, nela, uma tristeza que a arrasta para o precipício. Um olhar que diz: “-Me salva!”. (Ah, como gostaria de tirar sua tristeza, mas não posso. Isso só ela pode fazer por si.)
Já conheci muitas mulheres de uma grandeza admirável, com as quais aprendi muito e devo parte do que sou, mas ela… Ela é um misto de peculiaridades educativas, terreno fértil para muitas análises. Tem um bom coração, mas não é aquela “boazinha” enjoativa que gera likes e comentários chatos. É uma mulher devassa e ao mesmo tempo uma menina medrosa. Tão linda! De alma, de corpo e ainda assim cheia de neuras consigo. Nem puta, nem santa. Parafraseando Nietzsche: “Humana! Demasiada humana!”
Já estava quase amanhecendo e minhas indagações deram espaço para um viver menos preocupado com o que as pessoas falariam dali em diante. Não tenho resposta para a pergunta inicial, talvez não precise ou não queira.
O Cristo pareceu nos abençoar, arrisco dizer que ele preferiu amanhecer ao lado de quatro filósofas/os farrentos do que ser importunado pelas pessoas de “bem” com seus valores medíocres e negacionistas. Descemos os degraus entre risos, naquele instante éramos como amigas/os de uma vida toda.
Não poderia terminar esta escrita de outra forma, senão com a cena mais linda daquela noite: Ela saindo pelo teto solar do carro, com os cabelos ao vento e os braços abertos. Ah, minha gente, mais que uma cena, uma pintura sobre a liberdade. Ela era a liberdade!

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestre em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.
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