Por Bruna Domingues 

Pra quê rimar amor e dor?[1]

estimados leitores, esse é um poema sobre violência. escrevo para resistir. escrevo para honrar a memória de nossas ancestrais. escrevo como quem luta. escrevo igualmente como quem abraça (afeto também é uma arma poderosa, não se esqueçam disso!). escrevo como quem ginga. escrevo como quem grita. escrevo porque o instante urge. escrevo para me tornar maior que meus medos. escrevo porque sou humana. escrevo porque tenho fé.

noite dessas, no meio de uma gira de Esquerda (no terreiro “Casa cruzeiro de Luz” no município de Porto União – Santa Catarina), conheci uma moça tão valente e destemida como a noite, tão alumiada e aberta feito dia: falo de Dona Maria do Morro. Quando questionada ao chegar “atrasada” na macumba, tratou logo de responder: “eu chego a hora que eu quero porque ninguém manda em mim”. assim, me encantei com tamanha liberdade e me comovi com sua forte história:

antes que o amor me matasse, eu matei o meu amor.

abre a roda; abre a gira, corro o mundo, sou dona da ginga,

debaixo da minha saia tem navalha, tem fogo, tem mandinga

tem mel, tem marafo, tem rebeldia, tem alegria e tem dor.

moça valente, filha da Bahia

não tem tempo ruim pra Maria

desde pequena já sabia o que queria

antes que o amor me matasse, eu matei o meu amor.

abre a roda; abre a gira, corro o mundo, sou dona da ginga,

debaixo da minha saia tem navalha, tem fogo, tem mandinga

tem mel, tem marafo, tem rebeldia, tem alegria e tem dor.

moça de fé, na macumba ela ia

trabalhava muito para buscar o pão de cada dia,

até que nas curvas da rotina para ela um moço bonito sorria.

antes que o amor me matasse, eu matei o meu amor.

abre a roda; abre a gira, corro o mundo, sou dona da ginga,

debaixo da minha saia tem navalha, tem fogo, tem mandinga

tem mel, tem marafo, tem rebeldia, tem alegria e tem dor.

casada, aprendeu as manhas do amor e do prazer com muita alegria

mas com o passar do tempo, o tempo bom acabaria

o moço prender a liberdade de Maria queria.

antes que o amor me matasse, eu matei o meu amor.

abre a roda; abre a gira, corro o mundo, sou dona da ginga,

debaixo da minha saia tem navalha, tem fogo, tem mandinga

tem mel, tem marafo, tem rebeldia, tem alegria e tem dor.

nem saravá mais ele permitia

bater, impedir, maltratar era o que ele fazia

ser livre era o que maria queria

antes que o amor me matasse, eu matei o meu amor.

abre a roda; abre a gira, corro o mundo, sou dona da ginga,

debaixo da minha saia tem navalha, tem fogo, tem mandinga

tem mel, tem marafo, tem rebeldia, tem alegria e tem dor.

certa feita, vestido de ira e covardia

matar Maria com muita força ele queria

só que primeiro nele, com sua peixeira, fatalmente maria golpearia.

antes que o amor me matasse, eu matei o meu amor.

abre a roda; abre a gira, corro o mundo, sou dona da ginga,

debaixo da minha saia tem navalha, tem fogo, tem mandinga

tem mel, tem marafo, tem rebeldia, tem alegria e tem dor.

entidade, hoje em dia

pelos terreiros Maria abençoa e rodopia

exibe sua peixeira, bebe cachaça e tudo alumia.

conta das suas andanças e inspira rebeldia

diz que achar o lugar das mulheres nesse mundo ela queria

Do morro para o mundo, que sorte ganhar o axé de maria.

antes que o amor me matasse, eu matei o meu amor.

abre a roda; abre a gira, corro o mundo, sou dona da ginga,

debaixo da minha saia tem navalha, tem fogo, tem mandinga

tem mel, tem marafo, tem rebeldia, tem alegria e tem dor.


[1] Menção a música “Mora na Filosofia” de Arnaldo Passos e Monsueto Menezes.

Bruna Domingues, Professora de filosofia da rede estadual de ensino de Santa Catarina. Graduada em filosofia. Mestre em Ensino de Filosofia (PROF-FILO/UNESPAR). Poetisa amadora, feminista, revolucionária e apaixonada. Colunista do Factótum Cultural.

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