Ir para conteúdo

Desigualdades

por Ana Daniele Holovaty Amaral

O outono está passando!

Conversando com uma colega de trabalho, constatamos que fazemos as atividades cotidianas de forma tão automática que não vemos o tempo passar, não aproveitamos a vida da forma que gostaríamos ou merecemos!!!

Abril se foi e deixou uma sensação de nostalgia dos feriados e dos momentos em que a classe proletária tem a falsa ilusão de liberdade. Apesar de o tema parecer uma filosofia barata ou devaneios de uma pessoa cansada, tal tema apresenta uma discussão apontada pelo materialismo dialético de Marx, já que o mesmo analisa o mundo do trabalho e não-trabalho e compreende o desenvolvimento do lazer por meio da história dos meios de produção. O mês de Abril tinha Páscoa, Tiradentes e até mesmo um feriadão de Carnaval em alguns lugares.

Feriado de Tiradentes… para os membros da elite: talvez um resort, um SPA… para a classe operária: um sonhado descanso… no máximo maratonar uma série na Netflix. Graças ao Tiradentes. Salve Tiradentes!

Mas a que deve-se esse feriado abençoado??? Como professora da disciplina de História, tenho a obrigação de ensinar aos meus alunos a origem de tal data… Historicamente falando, o Tiradentes representa toda a hipocrisia existente nesse país. Pois representa a busca incessante por um herói nacional… utopia inatingida em meio a “Moros” e ” mitos”. Kkk

Joaquim José da Silva Xavier fez parte de um seleto grupo de proprietários de terras e minas de ouro que se revoltaram com a cobrança de impostos por parte da coroa portuguesa, como afirma Chiavenato*. Como bem sabemos, no Brasil, quando a burguesia fica indignada… surte efeito… vem um golpe!! E esse, em particular, não vingou…

Pois houve propina para não colocar em jogo o poderio português…

Propina, mensalão, rachadinha… até aí tudo normal… Houve uma delação premiada e sobrou para o revoltado mais pobre e inocente: Tiradentes morreu enforcado e esquartejado para servir de exemplo aos demais revoltosos… a conspiração chegou ao fim!!!

Aí que começa a hipocrisia: Pois somente após a proclamação da República, Tiradentes torna-se um herói. Uma república jovem necessitava da figura de um herói que lutasse pelo Brasil… então… Tiradentes, branco, representante dos interesses burgueses seria perfeito para tal feito… só faltava acrescentar a representação cristã católica… conseguida facilmente graças às habilidades do pintor Pedro Américo,cujo talento ficou evidente na comparação de Tiradentes com Jesus Cristo!

Pronto: tínhamos o herói!

Temos o feriado!

E o legado desse feriado está estampado na eficácia da elite brasileira e na ineficácia do ensino de história, pois apesar desse exemplo… nota-se que cada vez que a burguesia se revolta, é criada a figura de um herói salvador dos problemas… problemas da elite! A massa fica com a hipocrisia, com o simbólico, com o feriado, com um dia de descanso…  se muito! Mesmo assim, há uma classe social incomodada com a falta de lucratividade dos dias de folga.Essa classe está feliz no mês de Maio, onde o único feriado caiu no domingo e onde o dia das mães acelera o consumismo em um dia simbólico, e não retira o ritmo acelerado da produção capitalista. Deve ser por esse motivo que a elite não gosta dos feriados.  Pois segundo Marx, o lazer possibilita o desenvolvimento humano visto que, se exercitado, o ócio criativo, promove o livre pensar, o espírito crítico, o descanso da mente, reforça os laços familiares, fazendo com as pessoas busquem uma vida mais justa e igualitária.

 Ainda nesse contexto, temos outra data comemorativa: 13 de maio. Dia da libertação dos escravos… Data simbólica perante a situação caótica da economia atual, onde os níveis de miséria tem subido consideravelmente devido ao alto custo de vida. E aí podem questionar mas e qual é a importância dos feriados em meio a esse cenário? E qual é a relação da pobreza com a data de libertação dos escravos? O ponto em comum desses assuntos é a desigualdade. Como afirma Humberto Gessinger na música  “Ninguém é igual a ninguém”.

“ …todos iguais, tão desiguais… Mas uns mais iguais que os outros…

Isto é, enquanto a classe operária sonha com o feriado, com o lazer, com o descanso… os miseráveis, muitos vítimas históricas de séculos de escravidão lutam pela sobrevivência em meio a fome e a miséria…  Em meio a esas reflexões não posso deixar de citar a história de vida de Carolina Maria de Jesus, retratada na sua obra, Quarto de Despejo:

 “Antigamente o que oprimia o homem era a palavra calvário; hoje é salário.”

Afirma a autora  quando ela se depara com as mazelas dos seres humanos, em especial de muitos brasileiros , ora operários, ora em situação de vulnerabilidade social, constatando que vivemos em uma eterna utopia: a busca de dignidade humana  em meio ao duro cotidiano. Seja por meio do desfrute de um feriado, ou simplesmente em completar as refeições diárias.

Referências Bibiográficas

CHIAVENATO, Júlio José. Inconfidência Mineira – As Várias Faces. São Paulo: Contexto. 2000.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2019.

Ana Daniele Holovaty Amaral, Pós graduação em História pela Unespar.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: