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É possível ser feliz? Pesquisador enumera os sete princípios para alcançar a felicidade no dia a dia

Luiz Gaziri pesquisa a ciência da felicidade e lançou dois livros sobre o tema
REPRODUÇÃO/INSTAGRAM @LUIZGAZIRI

O escritor Luiz Gaziri se dedica a pesquisar a ciência por trás da felicidade e, em duas obras publicadas, lista ações possíveis para ter uma vida mais gratificante

Neste domingo (20), celebra-se o Dia Internacional da Felicidade. Em tempos tão conturbados, é natural que qualquer um se questione se é possível ser feliz. O escritor Luiz Gaziri, de 43 anos, dedica-se a pesquisar justamente esse tema: a ciência por trás da felicidade. E, segundo o pesquisador, algumas ações práticas podem ser realizadas no dia a dia para que se encontre mais satisfação na vida, apesar das dificuldades que todo mundo enfrenta.

Foi a carreira no mundo corporativo que fez Gaziri despertar para a temática. Antes de se dedicar a pesquisar, cientificamente, sobre a felicidade, o executivo trabalhava com gestão de pessoas.

E, num momento desafiador de sua carreira, em 2004, decidiu pesquisar sobre motivação na internet e deparou-se com um artigo científico sobre o assunto. Não parou mais. “Meu trabalho como executivo foi despertando essa paixão por entender melhor o comportamento humano”, contou ele ao R7.

Em 2013, Gaziri encerrou sua trajetória corporativa para se dedicar exclusivamente ao assunto, o que já lhe rendeu dois livros “A Ciência da Felicidade” (Faro Editorial, 2019) e “Os Sete Princípios da Felicidade”, (Faro Editorial, 2020). 

Motivação e felicidade

Antes de explicar os sete princípios que podem ajudar qualquer pessoa a ser mais feliz, Gaziri explica que há uma ligação intrínseca entre motivação e felicidade. “Motivação é aquilo que nos faz agir. Quando estamos motivados, entramos num estado de maior produtividade”, explica ele. “Já a felicidade é a alegria que eu sinto enquanto estou agindo”, completa. 

Gaziri pesquisou mais de 1.200 artigos científicos antes de compor suas obras, e os estudos continuam: durante a entrevista, por telefone, o autor estava nos Estados Unidos entrevistando cientistas para a produção de um novo livro, que sai até o fim deste ano.

“O brasileiro em especial tem uma ideia muito simplista de como a felicidade funciona. A gente acha que vai existir uma solução que irá resolver todos os problemas. Se eu sou rico, vou ser mais feliz, mais bonito, etc. Mas o dinheiro é apenas uma variável, existem centenas de outras que posso usar e vão me trazer muito mais felicidade”, acredita ele. Por isso, ele optou por basear seus livros em pesquisas científicas, com uma abordagem aplicável no dia a dia.

“O ser humano é uma máquina de adaptação. E a felicidade é algo vivo, ela vai se renovando”, ensina o autor, que divide abaixo os sete princípios da felicidade:

1) Saber comprar a felicidade

O primeiro princípio é intrigante: gastar dinheiro com outra pessoa traz mais felicidade do que comprar algo para si mesmo. “É justamente o oposto do que muitos imaginam, mas estudos mostram que usar seus recursos em prol de outro indivíduo é muito gratificante”, diz ele. Mas isso não significa que não seja necessário, e importante, agradar-se – a questão aqui é como usar os recursos para ser mais feliz. Segundo explica Gaziri, além de gastar com outros, usar o dinheiro para comprar experiências traz mais felicidade.

“Quando invisto em teatro, viagens, show, restaurantes, me sinto mais feliz do que comprando bens materiais, porque essa sensação dura para sempre. A alegria de comprar um carro dura pouco, mas os momentos vividos numa viagem, por exemplo, tornam-se inesquecíveis.”

2) Gratidão

Gaziri explica que, cientificamente, já é comprovado que sentir gratidão traz mais felicidade. “Vários estudos demonstram que listar, todas as noites, num caderninho, as cinco coisas pelas quais somos gratos, nos torna mais felizes”, diz ele. Além disso, outra descoberta aponta que, quando expressamos pessoalmente a gratidão por algo bom que alguém nos fez, começamos a ficar mais felizes.

“Mas precisa ser ao vivo. Costumo dizer que a gratidão acontece offline, seja escrevendo num caderninho antes de dormir, seja falando pessoalmente com alguém. A felicidade sempre aumenta quando estamos frente a frente com alguém a quem somos gratos”, afirma.

E, em tempos completamentes mediados pela internet, como os atuais, a presença física não pode e nem deve ser descartada. “Não importa com quantas pessoas você interaja no online, o que importa mesmo, para a felicidade, é quem são as pessoas que estão na sua vida presencial.”

3) Reconhecimento

Este é um princípio, de certa forma, relacionado ao segundo, e envolve reconhecer o que os outros fizeram de bom, não apenas por nós. Por exemplo: se seu colega de trabalho fez um projeto bacana, parabenizá-lo sinceramente por isso trará felicidade… a você!

“Reconhecimento funciona da forma inversa que a gente acredita, os cientistas descobriram que a gente fica mais feliz quando reconhecemos o que outras pessoas fizeram do que esperar que os outros reconheçam você por algo que você fez. Isso vale para pequenas ações no dia a dia, como elogiar uma pessoa, ser amável. Isso é algo que traz enorme felicidade para todos nós.”

“A gratidão envolve o que acontece na minha vida, apreciar mais aquilo que eu já tenho em vez de querer mais e mais. O reconhecimento é diferente, é mais no sentido de expressar que outras pessoas são importantes na nossa vida, expressar admiração. E, de preferência, presencialmente. Estar presente é sempre a melhor forma que existe de ficar feliz.”

4) Ajuda

“Ficamos exponencialmente mais felizes quando ajudamos os outros do que quando recebemos ajuda de outras pessoas. O princípio do reconhecimento também envolve isso: para eu ser reconhecido, eu preciso ajudar alguém. E, quando eu presto essa ajuda sincera, as pessoas têm algo a retribuir. E isso vai escalando”, conta Gaziri.

O autor comentou sobre um estudo em que cientistas descobriram que, quando um pequeno grupo começou a ajudar os outros, no ambiente de trabalho, esse grupo que recebeu o auxílio começou a, espontaneamente, ajudar outros também. E adivinhe? “Quem ficou mais feliz foi quem ajudou, e não quem foi ajudado”, diz ele.

5) Relacionamentos

Segundo Gaziri, o princípio dos relacionamentos é um dos mais importantes em termos de busca pela felicidade. Ele citou um estudo da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, que começou em 1938 e está coletando dados até hoje.

“Eles queriam entender o que faz com que algumas pessoas tenham longevidade, vivam muitos anos e bem. Então, descobriram que o principal fator para isso é a qualidade dos relacionamentos que a pessoa cultiva ao longo da vida”, diz Gaziri.

“Assim, analisando tudo, quando eu gasto o meu dinheiro com alguém, quando reconheço o valor de uma pessoa ao meu redor, quando ajudo o outro, tudo isso é construir relacionamento. E o que a gente vem fazendo hoje em dia? Cultivando nossos relacionamentos ou o telefone celular?”, questiona ele.

Tratar as pessoas bem gera uma onda de felicidade

Tratar as pessoas bem gera uma onda de felicidade

Novamente, aqui entra a importância da presença. Segundo o autor, estudos mostram que puxar papo com um estranho, na sala de espera de uma consulta médica, por exemplo, deixa uma pessoa mais feliz do que se ela tivesse trocado esse contato por navegar em redes sociais ou ver um filme no celular. 

“Existem inúmeras oportunidades de construir uma vida mais feliz, de cultivar relacionamentos. Quando capricho na interação com alguém que eu não conheço, a pessoa com quem eu interagi fica mais feliz também. E ela vai transmitir essa felicidade para os outros, gerando o que chamamos de efeito de contágio. Ou seja, um ato de gentileza seu não para naquela pessoa, vai ser transmitido a outra, que vai passar para uma terceira. Nada substitui o contato humano!”

6) Emoções positivas

Gaziri explica que, de acordo com os estudos a que teve acesso, a felicidade ocorre quando a gente atinge um balanço maior entre emoções positivas e negativas. Mas, daí, muitos podem questionar? Qual é a dificuldade em construir mais momentos positivos? “Nosso olhar humano sempre é mais voltado para a tragédia, para a notícia ruim, a nota baixa… É o chamado viés da negatividade”, explica o autor.

“Isso tem relação com os nossos ancestrais. Como espécie, para sobreviver, a gente precisava prestar atenção, o tempo todo, no que podia dar errado. Era um estado de alerta permanente. Hoje não precisamos mais agir assim, mas a gente continua a atuar pelo viés da negatividade.” Para sair disso e entrar no “balanço positivo”, Gaziri sugere aplicar o que os cientistas classificam como “proporção da positividade.”

“Para ser feliz, a gente precisa de uma proporção de três  momentos positivos para um negativo, todos os dias. Ou seja: não se trata de evitar as coisas ruins, elas vão acontecer, querendo ou não. Mas é possível estar preparado para encarar os fatos negativos, como se separar, ficar doente ou ser demitido”, explica ele.

Assim, diariamente, é preciso empenhar-se para construir o máximo possível de acontecimentos positivos, usando os demais princípios, como gastar dinheiro com outras pessoas, sentir gratidão pelo que tem de bom na sua vida, reconhecer os esforços dos outros, etc.

“Dessa forma, quando o momento negativo chegar, o cérebro saberá como agir para contornar aquela situação. Quando construo ativamente momentos de felicidade, eu me preparo para aquilo de ruim que é inevitável na vida.”

7) Pensar negativo

Aqui temos o princípio mais polêmico: segundo Gaziri, pensar negativo é uma forma de ficar mais feliz. Mas como? “Existe uma confusão na cabeça das pessoas sobre ser positivo e pensar positivo”, afirma ele.

“Ser positivo é ser alguém que constrói muitos momentos de felicidade, ou seja, tem um balanço acima de 3 para 1 no seu dia a dia. Porém, pensar positivo é acreditar que só pelo fato de querer algo com muita força o universo irá conspirar a seu favor”, completa.

Apesar do senso comum dizer que é preciso ter “pensamento positivo” para se alcançar algum objetivo, a evidência científica sugere que isso é uma ilusão, que pode até mesmo ser prejudicial. De acordo com Gaziri, quando uma pessoa fantasia com algo que quer muito, ela ativa regiões do cérebro ligadas ao prazer. Ou seja, a pessoa pensa algo positivo, se sente bem e acaba relaxando, quase como se o cérebro entendeu que ela já conseguiu o objetivo.

“A mente se engana e relaxa. E, quando relaxamos, perdemos a motivação. É aí que entra o pensamento negativo: tudo bem ter um pensamento positivo, mas, logo em seguida, é importante treinar o cérebro a pensar no pior cenário possível para aquela situação. Quais dificuldades eu vou ter? Quais obstáculos vou encontrar pelo caminho?”, aponta Gaziri.

Então, em vez de relaxar, a pessoa começa a pensar em saídas, em ações, e se planeja melhor, o que a leva a conquistar seu objetivo mais facilmente. “Os cientistas chamam isso de contrastre mental, ou seja, pensar negativo pode ajudar a ser mais feliz.”

Por fim, como um conselho adicional, Gaziri lembra que a proporção da positividade é 3 pra 1, e não 3 para zero. “Por que isso? Porque um pouquinho de stress ajuda a gente a agir, a se mover em direção ao que queremos. Precisamos de um pouco de desafio, senão a vida perderia a graça – e a motivação – rapidamente, e não seríamos felizes.”

VIRTZ.R7.20.3.2022.

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