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Os 5 temas que os homens mais falam na terapia

Dilemas sobre a nova masculinidade e o feminismo são temas recorrentes das sessões de homens na terapia (Foto: Ilustração de Victor Amirábile/GQ Brasil)

GQ Brasil ouviu sete psicólogos e psicanalistas sobre as grandes questões que os homens abordam em suas sessões.

Seja pela sabedoria vinda das mesas de bar, seja pelas evidências obtidas com rigor acadêmico, tem-se que os homens procuram serviços de saúde com menor frequência que as mulheres — aquela dorzinha, aquela pinta estranha ou mesmo as consultas de rotina vão todas ficando para depois.

Isso inclui, é claro, os encontros com terapeutas. Eis algo, porém, que começa a ficar no passado, de acordo com os especialistas ouvidos pela GQ. Os homens não só têm superado a barreira que os separa da terapia como também chegam às sessões com menos aversão a demonstrar vulnerabilidade.

“A masculinidade só está em crise para quem ainda não conseguiu entender que o machismo é ruim e limitante para ambos os sexos”, diz Regina Navarro Lins, psicanalista e autora de 13 livros sobre relacionamentos. 

Ela e outros seis psicólogos e psicanalistas respondem à seguinte pergunta: o que, afinal, os homens confessam aos seus terapeutas?

1 – Nova masculinidade

Embora os homens não usem exatamente estes termos, muito do que levam para as sessões parte da chamada crise do patriarcado e das redefinições da masculinidade. Chegamos ao século XXI num cenário de mudança de papéis sociais, em que as mulheres se tornam mais poderosas e as relações de comando vão se alterando.

“Há placas tectônicas profundas se movimentando, e eles não sabem como se portar nem o que sentir”, diz a psicanalista Maria Homem.

No dia a dia, isso se traduz em novos códigos sociais e profissionais ainda em assimilação. “Eles não podiam passar uma manhã com o filho pequeno nem desmarcar um trabalho para ir à reunião da escola das crianças. Só podiam sentir dois afetos: raiva e luxúria. E agora descobrem novos caminhos”, conta ela.

“Há dez anos, era menos comum que chorassem numa sessão”, relata o psicólogo Artur Scarpato, de São Paulo. As novas possibilidades, no entanto, chegam carregadas de paradoxos.

“Muitos se queixam de que buscam entender o feminismo e se desconstruir, mas consideram que seus esforços não são reconhecidos”, diz o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Os homens ainda estão aprendendo a lidar com a mulher espetacular que se tornou mais e mais comum nas últimas décadas. “Profissionais e amorosas. Instigantes e inteligentes, independentemente de ser bonitas ou atraentes”, diz Dunker.

Elas têm características que às vezes assustam. “Se você quer uma grande companheira, seja grande para merecê-la, para suportar a liberdade dela e o brilho que ela tem”, acrescenta o psicólogo e palestrante paraibano Rossandro Klinjey, de Campina Grande.

Ele diz que já viu muitos casos em que maridos têm dificuldade de torcer pelo crescimento delas. Tendem a ver o sucesso profissional feminino como uma competição, enquanto elas celebram cada vitória deles como um passo bem-sucedido dos dois.

“Cheguei a orientar uma paciente a não contar mais para o esposo quando fosse promovida no trabalho.”

Regina Navarro Lins: A masculinidade só está em crise para quem ainda não conseguiu entender que o machismo é ruim e limitante para ambos os sexos (Foto: Ilustração de Victor Amirábile/GQ Brasil)

Na dúvida sobre como reagir ao novo panorama das relações sociais, parte dos homens tem reações inflamadas. “Fazem um teatro da virilidade, classificam como mimimi ou histeria aquilo que não entendem e buscam discursos religiosos e reacionários para combater as transformações”, diz Maria Homem.

“Ele quer uma arma para tentar recuperar um pouco da potência que perdeu”, complementa Artur Scarpato.

2 – Relações a dois (ou mais)

“É comum o homem procurar terapia porque foi traído, não quer assumir para os amigos que está sofrendo, mas precisa conversar com alguém a respeito”, diz Klinjey. 

Segundo ele, as razões que levam à infidelidade feminina nada têm a ver com a performance de seus companheiros. 

Devem-se, na verdade, à sensação da mulher de não ser escutada, ao abandono afetivo e à falta de qualidade no relacionamento.

“Durante as sessões, eles acabam entendendo que o adultério foi a ponta do iceberg de um processo maior.”

“Hoje as mulheres têm tantas relações fora do casamento quanto os homens”, afirma Regina Navarro Lins, que considera que a grande transformação da última década, no que tange aos relacionamentos, é a conversa sobre manter um casamento aberto.

Homens acreditam cada vez mais na dita nova adolescência, um momento futuro em que poderão aproveitar caso se esforcem e sejam bem sucedidos antes dos 40 anos; psicólogos relatam que expectativas e frustrações andam no divã (Foto: Ilustração de Victor Amirábile/GQ Brasil)

Tanto em seu livro “Novas Formas de Amar” quanto no conteúdo que produz para as redes sociais e em suas participações no programa “Amor e Sexo”, da Rede Globo, a psicanalista carioca reitera o declínio do amor romântico e a ideia de que as pessoas de um casal não percam sua individualidade.

Um levantamento feito pela Globonews aponta que houve 76.175 divórcios no Brasil em 2020. Os números do ano passado são ainda maiores: entre janeiro e maio, as separações registradas em cartórios subiram 26,9% em relação ao mesmo período de 2020.

“A convivência pré-covid era baseada numa série de distrações”, explica Scarpato. Muitos casais que se viam apenas à noite e ocupavam o fim de semana com uma programação que envolvia outras pessoas foram forçados a conviver intensamente.

“A visão que tenho da pandemia é que foi como pegar uma árvore e chacoalhar. Só permaneceu no lugar o que estava bem firme. Tanto nas relações pessoais quanto nas empresariais.”

3 – Trabalho demais, desempenho nem tanto

De acordo com os entrevistados, muitos homens chegam à terapia com queixas sobre a carga horária, que transborda dos dias úteis para os fins de semana e ocupa momentos antes direcionados a atividades pessoais ou familiares.

Nem sempre por mera cobrança de chefes, mas por objetivos pessoais cada vez mais ambiciosos. “Vivemos hoje uma lógica de autocobrança e autoexploração”, diz Klinjey.

A pressão por eficiência se desdobra em tentativas de otimizar a rotina. Qualquer brecha na agenda precisa ser preenchida com compromissos. Momentos de silêncio ou contemplação são divididos com consumo de conteúdo ou aplicativos — ou seja, não se faz uma coisa apenas.

O executivo que está no Zoom também responde a mensagens instantâneas e faz compras on-line, fragmentando a atenção.

Isso se dá sobretudo com a consolidação do trabalho remoto pós-pandemia, em que emendar reuniões com gente de lugares diferentes do mundo se tornou corriqueiro.

“Produtividade não tem nada a ver com ser ocupado. E as pessoas que não entendem isso têm adoecido”, diz a psicanalista baiana Jessica Alberton.

Navarro Lins exemplifica: “Atendi pacientes que sentiam uma impotência profissional tão grande que afetava a potência física”.

Em 2020, uma pesquisa sobre saúde mental no contexto da Covid-19 envolveu seis universidades do país e a Fiocruz. Foram ouvidos mais de 45 mil brasileiros, dos quais 52,6% declararam sentimentos frequentes relacionados a ansiedade e depressão. 

4 – Segunda adolescência

Wilson Franco, de São Paulo, conta que ouve com frequência relatos de uma espécie de segunda adolescência propagandeada pelo mundo corporativo: a ideia de que o sujeito vai praticamente se entregar a uma servidão voluntária, trabalhar numa rotina muito frenética até os 35 anos para acumular uma fortuna pessoal e daí se lançar a um projeto focado no prazer pessoal.

“É o cara que acha que vai largar um cargo numa corporação e virar barista gourmet ou instrutor de bungee jumping”, diz ele.

Para além da discussão sobre a possibilidade de concretizar esse sonho, o terapeuta aponta que a questão aqui tem a ver com a relação entre o homem e o envelhecimento — sentir-se onipotente para enfrentar até mesmo a passagem do tempo.

“Se o marido dos anos 50 achava que ia sair para comprar cigarros e nunca mais voltar, o de 2021 pensa em largar a grande empresa e viver à margem do capitalismo, no estilo do filme ‘Nomadland’.”

Também cresceram os relatos de homens que buscam recomeços em esferas variadas. Há os que tentam o caminho do empreendedorismo, com negócios próprios e startups, os que miram uma transição de carreira e ainda os que optam por viver em outro país.

“Percebi uma retomada nas conversas sobre tirar passaporte europeu, reavivar um processo de cidadania estrangeira que havia sido deixado de lado devido a burocracias”, diz Wilson.

5 – O feed do vizinho é mais verde



Klinjey fala em “adultescentes” também para se referir ao comportamento imaturo de parte dos homens de hoje, sobretudo no que diz respeito à validação externa. “As redes sociais são uma verdadeira tragédia! Eles se comparam o tempo inteiro”, conta Jessica Alberton.

A antiga rodinha de amigos se gabando no vestiário deu lugar à ostentação na internet.

Porém, com o agravante de acrescentar às proezas sexuais conquistas de toda ordem: de bens materiais a superação intelectual. “

Trabalho a questão da autoestima, porque eles acham que têm de ser perfeitos”, resume a psicanalista.

GQ. 21.2.2022.

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