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O lado pouco conhecido da literatura russa

por Ana Paula Orlandi

Pesquisadora ilumina um fértil período da cena editorial voltado para crianças nas décadas de 1920 e 1930

No Brasil sob as palmeiras/ Do calor vem a canseira,/ Sai andando dom Basílio,/ O carteiro brasileiro./ Na mão leva uma carta,/ Amarrotada e extravagante./ No selo vai uma marca/ Da posta de lugar distante./ Sob o nome se vê um lembrete/ Dizendo que o destinatário/ No Brasil já não está presente/ Partiu de volta a Leningrado.” Assim escreveu o poeta, editor e tradutor russo Samuil (ou Samuel, em português) Marchak (1867-1964) no poema O correio, de 1927, em que carteiros do mundo todo saem em busca do escritor viajante Boris Jitkóv (1882-1938) para lhe entregar uma encomenda. “Até hoje muito popular na Rússia, Marchak é pouco conhecido no Brasil, a exemplo de outros tantos autores daquele país que produziram obras literárias para crianças entre as décadas de 1920 e 1930, como o próprio Jitkóv”, conta a editora paulistana Daniela Mountian.

Apresentar essa produção feita para crianças ao público brasileiro é um dos objetivos da pesquisa de pós-doutorado que Mountian vem desenvolvendo desde 2019 no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), com apoio da FAPESP. Muito pouco da produção russa para crianças foi lançado no Brasil, lamenta a tradutora Denise Regina de Sales, professora de Língua e Literatura Russa do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E o pouco que chegou, segundo a especialista, em muito se deve ao esforço da escritora, dramaturga e tradutora Tatiana Belinky (1919-2013), que nasceu na Rússia e se radicou no Brasil, com a família, em 1929. “Tatiana é o grande expoente da divulgação da literatura infantil russa em nosso país. Ela apresentou vários autores às crianças brasileiras, como Marchak, Kornei Tchukóvski [1882-1969] e Ivan Krylóv [1769-1844], considerado o maior fabulista da Rússia”, afirma Sales. “O trabalho que vem sendo realizado por Daniela já está abrindo outras frentes de pesquisa sobre essa temática, que também é pouco estudada no Brasil. Deu para ver esse interesse no curso sobre literatura infantojuvenil que ela ministrou aqui, na UFRGS, em julho do ano passado, com cerca de 100 participantes.”

Páginas do livro Ivan Iványtch, o samovar (1929), escrito por Daniil Kharms e ilustrado por Vera ErmoláievaInternational Library of Children’s Literature/National Diet Library

O estudo é composto por duas partes. Na primeira, a pesquisadora mergulhou na produção infantil russa, sobretudo das décadas de 1920 e 1930, com direito a temporada de um ano de investigação no Instituto de Literatura Russa, em São Petersburgo, quando visitou acervos e entrevistou especialistas. Na segunda etapa da pesquisa, ainda em curso, ela dedica-se a cotejar o cenário russo e brasileiro de produção de livros para crianças entre 1919 e 1943. Mountian não enfrentou obstáculos em relação ao idioma. “Meus pais emigraram da Moldávia [país que compunha a extinta União Soviética] para o Brasil na década de 1970. Ouço russo em casa desde criança, mas só me alfabetizei na idade adulta.”

A inspiração para aprender o idioma na totalidade veio na virada do século. A ideia era auxiliar o pai, o tradutor Moissei Mountian, que na época havia vertido para o português o romance O diabo mesquinho (1902), de Fiódor Sologub (1863-1927), um dos mais célebres simbolistas russos. “Eram cadernos e cadernos manuscritos que precisavam ser editados”, recorda a pesquisadora, com graduação em história. A experiência realizada por pai e filha, com colaboração da escritora, tradutora e professora da FFLCH-USP Aurora Bernadini, consumiu quatro anos e resultou na publicação, em 2008, do livro pela Kalinka, editora especializada em literatura russa, criada pela dupla. Além disso, O diabo mesquinho foi objeto do mestrado de Daniela em literatura, também na USP.

Cachorrinhos (1929), de Vera ErmoláievaBiblioteca Nacional da Rússia (digitalizado pela pesquisadora), São Petersburgo

A pesquisa de pós-doutorado é um desdobramento de seu doutorado sobre a obra do poeta, escritor e dramaturgo russo Daniil Kharms (1905-1942), concluído em 2016 na mesma instituição. “Kharms foi um dos precursores da literatura do absurdo e integrante da Oberiu, associação criada em 1928 e hoje apontada como a última grande experiência  da vanguarda russa do início do século XX. Ele escreveu poemas, contos e peças de teatro para o público adulto, mas essa produção acabou censurada durante o regime comunista e teve circulação restrita, só vindo à tona para o público geral após a década de 1990, com o fim da União Soviética”, informa Mountian. “Para sobreviver, Kharms também escreveu histórias infantis nas décadas de 1920 e 1930. Desde aquela época elas fazem sucesso entre as crianças russas. Além disso, outros autores de Leningrado, hoje São Petersburgo, que integravam o círculo de relações do escritor, e cujas trajetórias literárias também não estavam ligadas originalmente ao público infantil, fizeram o mesmo percurso. Esse fato despertou minha atenção”, recorda.

Ao começar a investigação, Mountian deparou com uma profícua cena editorial voltada para publicações infantis, tanto de livros quanto de revistas, da qual participaram poetas, escritores e artistas visuais, muitos deles oriundos da vanguarda russa. “A relação próxima entre vanguarda e literatura infantil como se deu na Rússia é um fenômeno sem precedentes. Trata-se de um momento extremamente fértil, com intenso diálogo entre o conteúdo e a forma. Essa produção reuniu importantes poetas, escritores e artistas visuais modernos, que passaram a pensar o livro como um todo. Dava-se o mesmo peso para o texto e o design”, observa. “Era a época das vanguardas, havia um grande interesse dos artistas russos pela experimentação e isso se refletiu nos livros infantis do período”, concorda Elena Vássina, professora de língua e literatura russa da USP, que nasceu em Moscou e radicou-se no Brasil em 1999.

Essa cena editorial, entretanto, não brotou de forma espontânea. De acordo com a pesquisadora, após a revolução russa de 1917, que derrubou a monarquia e deu origem à União Soviética (1922), o novo regime comandou uma grande campanha para acabar com o analfabetismo no país. Também decidiu que era necessário produzir uma nova literatura infantil, sem o “ranço” do passado. Assim, os livros não falariam, por exemplo, de reis e princesas, mas de trabalhadores como carteiro, bombeiro e motorista. “Eram questões estratégicas para o governo, que injetou muitos recursos na educação e na literatura, com o objetivo de incutir nas crianças, desde cedo, uma mentalidade afinada à ‘nova ideologia proletária’ e não mais moldada pela ‘velha moral burguesa’”, diz Mountian.

Ilustração de Cavalo-fogo (1928), escrito por Vladímir Maiakóvski e ilustrado por Lídia Popovatogdazine.ru

Com essa meta, o governo instalou uma seção infantojuvenil na Gosizdat, editora estatal criada em 1924, e, durante a fase da Nova Política Econômica (1921-1928), permitiu a abertura de editoras privadas, como a Ráduga (arco-íris), que lançou cerca de 600 títulos para crianças entre 1922 e 1930. Com estética arrojada, os livros fizeram sucesso no exterior. “Na época, a União Soviética era permeável ao contato com outros países e esses livros foram expostos na Europa e nos Estados Unidos. Em 1925, por exemplo, a Ráduga foi premiada na Exposição Internacional de Arte Decorativa, realizada em Paris, pelo formato original de suas publicações”, diz Mountian. Os livros russos para crianças produzidos nesse período tornaram-se itens de colecionador e estão presentes em acervos de instituições como a Biblioteca Nacional da Rússia, em São Petersburgo, a Universidade de Princeton e o Museu de Arte Moderna (MoMA), de Nova York, ambos nos Estados Unidos.

As tiragens eram expressivas para a época. Chocolate, de Lev Zilóv (1883-1937), por exemplo, lançado em 1928 pela Gosizdat, teve tiragem inicial de 20 mil exemplares. A revista mensal Iój, publicação voltada para crianças entre 11 e 13 anos e que circulou entre 1928 e 1935, superava os 120 mil exemplares. Esse campo da produção literária absorveu escritores, poetas e artistas gráficos. “Alguns deles passaram a produzir livros para crianças por motivos ideológicos, comprometidos com a ideia da ‘construção de um novo homem’, a exemplo do poeta Vladimir Maiakóvski [1893-1930]”, relata Mountian. Dois trabalhos dessa época, assinados por Maiakóvski, foram publicados no Brasil. São os livros O que é bom, o que é ruim? (Hedra, 2012) e O que eu vou ser quando crescer (Boitempo, 2017).

Página do livro Louça, de David ShterenbergBiblioteca Nacional da Rússia (digitalizado pela pesquisadora), São Petersburgo

Outros autores abraçaram essa opção por questões de sobrevivência, como o próprio Kharms, que, ao ser impedido pelo regime soviético de publicar seus trabalhos, encontrou seu ganha-pão na literatura infantil. A aparente incongruência não era rara naquele contexto. “A experiência soviética é complexa. Na década de 1920 e início dos anos 1930, havia certa liberdade de criação e isso acabou por beneficiar a produção voltada ao público infantil, que, contudo, nunca esteve livre de paradoxos. Como a literatura infantil era considerada ponto nevrálgico na construção do novo país e necessitava de novos escritores, poetas e ilustradores, um autor vanguardista impedido de publicar para o público adulto muitas vezes conseguia ilustrar ou escrever para crianças”, diz Mountian. “Entretanto, as formas de controle foram se tornando mais rígidas ao longo dos anos.”

O acirramento da censura aconteceu com o crescimento do poder de Josef Stálin (1878-1953), que passou a dirigir o país em 1929. “A ascensão do stalinismo aumentou a intolerância a novas linguagens artísticas”, afirma a pesquisadora. Em 1934, durante o I Congresso da União dos Escritores Soviéticos estabeleceu-se que a literatura russa, inclusive a infantil, observaria as regras do realismo socialista – estilo sistematizado pelo teórico stalinista Andrei Jdánov (1896-1948), que preconizava que as obras de arte, cinema e música aí incluídos, deveriam retratar a realidade e exaltar as virtudes do regime. “A partir dessa época tornou-se obrigatório escrever e ilustrar conforme as diretrizes da estética oficial. Isso marcou o fim de qualquer possibilidade de experimentação formal e de conteúdo para a literatura infantil. Mesmo favoráveis ao regime, os livros dos anos 1920 e início da década de 1930 com design construtivista ou textos de humor com elementos do nonsense, feitos para divertir e estimular a imaginação, foram tachados de ‘antissoviéticos’, ‘reacionários’ e ‘burgueses’, e seus autores foram perseguidos. Muitos emigraram ou foram presos e mortos”, conta.

Foi o caso da pintora e artista gráfica Vera Ermoláieva (1893-1937) que, entre outros trabalhos ilustrou o livro Ivan Iványtch, o samovar, escrito por Kharms e publicado em 1929. Acusada de propagar ideias antissoviéticas, Ermoláieva foi fuzilada aos 44 anos. Kharms teve destino parecido: preso pelo mesmo motivo, morreu de fome em uma instituição psiquiátrica aos 36 anos. “Marchak também foi perseguido, mas, provavelmente por ser uma figura influente na União Soviética, escapou da prisão. Mesmo assim, viu muitos de seus colaboradores morrerem e precisou mudar de São Petersburgo para Moscou, onde trabalhou como tradutor até o final da vida, na década de 1960.”

Conto suprematista sobre 2 quadrados (1920). Texto e imagem de El LissitzkyGif produzido com imagens da Biblioteca Nacional da Rússia (digitalizado pela pesquisadora), São Petersburgo

Faro editorial
Considerado, ao lado de Kornei Tchukóvski, um dos pais da poesia infantil moderna russa, Marchak também desempenhou papel fundamental na história do livro infantil daquele período. “Marchak não foi apenas parte dessa geração, mas um dos responsáveis por ela existir”, afirma Mountian. Além de editor-chefe da seção de livros infantis da Gosizdat, o poeta idealizou a revista Ioj. “Na década de 1920, ele  levou poetas e escritores para o mundo da literatura infantil, a exemplo de Kharms, que começou a escrever para crianças na Ioj.” A revista tinha um componente ideológico como outras publicações do período, mas ao mesmo tempo trazia passatempos e anedotas em um design arrojado. Segundo a pesquisadora, Marchak convidou Vladímir Lébedev (1891-1967), artista conhecido pela produção de cartazes, para ser editor de arte da Gosizdat. Lébedev, por sua vez, atraiu outros artistas visuais para os livros infantis da editora. “O faro editorial de Marchak pode ser comparado ao de Monteiro Lobato [1882-1948], que mudou a forma de comercializar e produzir livros infantis no Brasil, com publicações mais divertidas e chamativas graças à presença de ilustradores vindos do jornalismo e da propaganda”, prossegue Mountian.

Como desdobramento da primeira etapa de sua pesquisa, Mountian organizou o livro Contos russos juvenis (Kalinka, 2021), com 15 contos escritos entre 1781 e 1928 por autores como Lev Tolstói (1828-1910) e Anton Tchékhov (1860-1904), além de Catarina II (1729-1796), imperatriz da Rússia entre 1762 e 1796. “Durante a pesquisa percebi que para entender a produção soviética dos anos 1920 e 1930 precisaria dar alguns passos para trás e conhecer a literatura russa clássica para crianças iniciada formalmente no século XVIII por ninguém menos do que Catarina II, que escreveu dois contos para os netos”, relata Mountian. Para Elena Vássina, da USP, o lançamento é bem-vindo. “Talvez pelo fato de a história da Rússia ser permeada por guerras, muitas dessas narrativas infantojuvenis buscam passar a mensagem de que precisamos ser corajosos e ter a esperança em dias melhores. Trazem, sem dúvida, um grande ensinamento para os tempos atuais”, conclui.

Projeto
Literatura infantil russa e brasileira: Uma análise comparada (1919-1943) (n° 17/24139-9Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisadora responsável Aurora Fornoni Bernardini (USP); Beneficiária Daniela Mountian; Investimento R$ 602.758,44.

Livro
MOUNTIAN, Daniela (organização e prefácio). Contos russos juvenis; tradução do russo Irineu Franco Perpétuo, Moissei Mountian, Tatiana Larkina. São Paulo: Kalinka, 2021.

Artigo
MOUNTIAN, Daniela. Monteiro Lobato e Samuel Marchak através de seus ilustradoresRUS – Revista de Literatura e Cultura Russa, São Paulo, v. 11, n. 15, p. 63-89, 2020.

Revista Pesquisa Fapesp. 10.2.2022.

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