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A filosofia não salva, liberta!

Quando no Ocidente surgiram os primeiros filósofos gregos, é bom que se diga, não foram bem recebidos em suas cidades e grupos.

Pois desde o início, a filosofia assustou o status quo não só de caráter socioeconômico, mas, principalmente, intelectual. Por não aceitar as respostas prontas e consideradas consagradas sobre todas as coisas, atrapalhou os planos daqueles que viviam sob o céu hierárquico da ideologia e que tudo aceitavam e manipulavam em nome, vejam só, da família tradicional e dos deuses e suas crenças habituais.

De maneira sucinta, podemos dizer que a enormidade geográfica que era a Grécia por entre suas influências e seus influenciados, indo da península ibérica até a Ásia Menor passando pelo norte da África, trouxe, desde os seus primórdios, como para qualquer povo assentado e organizado em um território, a necessidade da construção de um espírito coletivo de sentido amplo e educativo. O mito, uma narrativa fantástica de caráter simbólico para a construção da verdade, foi um passo fundamental na consolidação daquilo que viemos a conhecer como cultura grega. Portanto, levantar suspeitas e ir contra a exposição mítica e seus poetas narradores (que se dividiam entre aedos e rapsodos) era comprar, no mínimo, uma briga contra a suposta certeza estabelecida. E os filósofos compraram essa briga!

Em nome da construção e percepção de uma verdade que podemos chamar inicialmente de real, Tales de Mileto, Anaxágoras de Clazômenas, Pitágoras de Samos, Heráclito de Éfeso, Demócrito de Abdera dentre outros e cada um a seu modo, desenvolveram esquemas estruturalmente lógico-racionais e sem apelos mágicos ou fantásticos de uma nova explicação da realidade.

É fato, portanto, pensarmos que a aceitação direta e franca desses pensadores não se daria de forma simples. Acostumados, como até hoje a maioria ainda permanecemos, ao argumento que se tornou de autoridade, a maior parte dos gregos não concordaria facilmente com a nova proposta da autoridade do argumento. Custou tempo, vidas e muitos arrependimentos, a aceitação da filosofia como um saber abstrato, coeso e repleto de sentido, desenvolvido, junto à matemática, a partir do discurso dialogado e reflexivo de comprovação de teses lógicas sobre a realidade natural e humana. Ainda quando aceita e incorporada parcialmente na cultura, permaneceu sendo vista com suspeita e perigosa pela maioria das pessoas, principalmente, por aquelas que cada vez mais se acomodavam nas esferas de poder político-social.

Milênios passaram e cá estamos! A filosofia segue sendo vista com desconfiança pelas pessoas que dela não desfrutam e pelas que ocupam, como outrora, as mesmas estruturas de poder social. E por dois motivos: a ignorância que sustentam como saber e pelo medo de perderem o espaço em que se acomodaram nas sociedades que ainda cultuam a ideia da força e não a força das ideias.

Enquanto isso, destroçado e cada vez mais carente de si, o ser humano Moderno como um todo, vem sentindo radicalmente no corpo e na alma uma orfandade de sentido cósmico. Vive numa prisão paradoxal de realidade e ilusão. Na realidade, busca viver entre os riscos fortuitos e ilusórios de seus sentidos corporais. Na ilusão, cria um campo de defesa em torno de afetos que não se sustentam na realidade.

Dentro de sua alma, na solidão de seu ser, ele se pergunta: o que fazer? A religião, majoritariamente, voltou ao estado de mito, com uma narrativa ficcional de divindades que se mostram ausentes, mas opressoras. Fanatismo e negócio de homens para homens que há muito mataram o seu deus feito à sua imagem e semelhança.

E, como sempre, atacada tal qual “Geni e o Zepelim”, mas tranquila e sabedora daquilo que pode e daquilo que precisa, a filosofia percebe o olhar aflito e de quase desespero dos homens e mulheres que ainda sentem gritar o bom senso: o mundo precisa de filósofos!!

Diário do Litoral. 6.2.2022.

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