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Cresce o número de mulheres que não querem se casar ou terminam casamentos infelizes

Cabelos Grisalhos - Sua Idade (Foto: Getty Images)
Cresce o número de mulheres que não quer se casar e ter filhos (Foto: Getty Images)

Em sua nova coluna, a antropóloga Mirian Goldenberg reflete sobre as mudanças no comportamento feminino e como as brasileiras têm rompido as pressões sociais em torno do casamento.

Quando comecei a minha pesquisa sobre amor, sexo e traição com o livro A Outra: Um Estudo Antropológico Sobre a Identidade da Amante do Homem Casado, em 1990, constatei a extrema valorização do marido, da família e dos filhos na cultura brasileira. Por outro lado, constatei também uma enorme desvalorização, competição, inveja e rivalidade entre as próprias mulheres.

Ao estudar situações em que determinadas mulheres se tornam amantes de homens casados, mergulhei no mundo de incontáveis que são traídas, que sofrem por serem enganadas, que desejam ser únicas, especiais, insubstituíveis, incomparáveis e inesquecíveis. A “número um”. Mulheres que querem ser amadas simplesmente por serem “elas mesmas”.

Nas centenas de entrevistas e grupos de discussão que realizei em mais de três décadas de pesquisas, escutei histórias de traições, mentiras, culpas, vergonhas, arrependimentos, dores, sofrimentos, faltas e insatisfações amorosas e sexuais. “Eu me sinto uma mulher invisível, transparente. Não me sinto reconhecida e elogiada. Invisto muito mais no relacionamento do que meu marido. Eu me sinto ignorada, diminuída e inferiorizada. Eu me sinto um fracasso como mulher.”

No início das minhas pesquisas, algumas mulheres me disseram: “Não sou feliz, mas tenho um marido”. O que significa essa frase? “Estou muito infeliz e insatisfeita no casamento, mas a sociedade, a família, o trabalho e até mesmo as amigas me cobram para ter um marido, uma família e filhos. Busco cumprir todas as minhas obrigações como mulher: ser uma boa mãe, esposa, filha, amiga e amante. Procuro fazer o máximo e o melhor que eu posso, mas nunca é o suficiente. Cuido de todo mundo, mas não tenho tempo para cuidar de mim. E ainda escuto: não faz nada além da sua obrigação como esposa e mãe.”

No entanto, tenho observado uma profunda transformação nos comportamentos femininos. As brasileiras estão buscando romper com as prisões externas e internas que nos tornam infelizes e insatisfeitas. Cresce o número de mulheres que não querem se casar e ter filhos, apesar dessa escolha ainda ser vista com muito preconceito e estigma, inclusive pelas próprias mulheres. Incontáveis outras, apesar do medo da solidão e dos preconceitos, estão se divorciando e pondo um fim em casamentos que não funcionam mais. 

Grande parte das mulheres que pesquisei quer ter um companheiro, um parceiro, um amigo, mas não aceita mais a posição de ser “a outra” ou a esposa traída, aquela mulher que só fica com as migalhas de atenção e amor. Não basta apenas ter um marido, o tal do “capital marital”, para se sentir uma mulher realizada e feliz. 

Hoje, a frase que eu mais escuto das mulheres é: “Não tenho marido, mas sou feliz”. Que pode ser traduzida como: “Sou muito mais livre e feliz porque tenho a coragem de ser eu mesma. Se na minha jornada existencial eu encontrar um parceiro que caminhe junto comigo, que alimente minha vida de coisas boas e belas, será maravilhoso. Mas não vou mais me submeter a pressões sociais só para agradar os outros e me tornar uma mulher infeliz e insatisfeita. Ninguém pode determinar e escolher por mim o que é básico para a minha felicidade. Liberdade é a melhor rima para a alegria. Sou uma mulher independente, autônoma e corajosa para escolher o que me faz feliz”.

Podem nos roubar tudo, menos a liberdade que temos de escolher o que é importante para cada uma de nós, o que é mais verdadeiro e essencial para a nossa felicidade. Nem sempre é fácil, pois vivemos em uma cultura que aprisiona nossos desejos, potenciais e escolhas. No entanto, não me canso de repetir, cada mulher que se liberta das prisões externas e internas que sofremos diariamente, inspira e liberta muitas outras mulheres que estão sofrendo aprisionadas em relacionamentos tóxicos, violentos e infelizes.

Em muitas casas brasileiras, como mostro nas minhas pesquisas, a família pode ser um lugar de violência física, verbal, psicológica, abuso financeiro, xingamentos, maus tratos e “brincadeirinhas” que humilham, diminuem e provocam uma verdadeira “morte simbólica” de mulheres, velhos e crianças.

Como escrevi no meu livro A Invenção de uma Bela Velhice, as mulheres maduras revelam que as amigas são muito importantes para a nossa liberdade e felicidade. São as amigas que escutam, que cuidam, que estão juntas em todos os momentos que precisamos. As amigas são a nossa família escolhida, a “família do coração”.

Meu propósito de vida tem sido mostrar que as mulheres brasileiras não estão sozinhas com os seus medos, vergonhas, culpas, dores, sofrimentos, tristezas e inseguranças. Quando descobrimos que não somos fracassadas, quando temos a certeza de que muitas estão passando pelas mesmas dúvidas e angústias, sofremos um pouco menos, não é verdade?

Por demonstrar a importância da união e da amizade entre as mulheres, sempre termino os textões diários que posto no meu Instagram com “tamojuntas?” Acredito na força e no poder dessa expressão, pois descobri, em mais de três décadas de pesquisas com milhares de mulheres de todas as idades, que amigas unidas jamais serão vencidas, pois nunca estaremos sozinhas. E então, tamojuntas?

Vogue. 22.1.2022.

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