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Temos histórias, não contos de fadas…

Por Liliam Beatris Kingerski

Homenagem do Plenarinho às mulheres que fizeram e fazem história - O  Legislativo para crianças - Câmara dos Deputados

Escrevo e a caneta treme entre meus dedos, em ritmo de tristeza e com o coração apertado. Ouço uma música e o barulho da chuva parece acalmar meu coração… Sigo viajando no infinito das possibilidades. E eu enquanto escrevo eu sou! Já dizia Grada Kilomba: Enquanto escrevo…Eu retorno a mim mesma/ Eu me torno.[1]

Este texto é resultado das coisas que me incomodam sobre a história das mulheres… O quanto elas foram silenciadas, oprimidas e não foram valorizadas. As mulheres que leio me contam suas histórias e é incrível como elas ainda se repetem!

Sou uma mulher e uma educadora apaixonada pelo que faço, mãe que ama os três filhos  e o que há de singular em cada um. Quando criança compreendi que teria que aprender a limpar e cuidar dos afazeres da casa. Não nego, sempre tive dificuldades para cozinhar; não foram poucas as vezes que escutei como teria que ser uma garota comportada e como deveria me vestir.  Incomodava-me o fato de nos contos de fadas que a professora contava na escola, tudo sempre terminava feliz, os casais eram apaixonados, eles iriam ter filhos e viver juntos para sempre e tudo parecia tão perfeito. As histórias que eu escutava das mulheres me faziam idealizar a felicidade,  eu podia acreditar no quanto todas as mulheres desejavam esses sonhos…Trata-se do que a escritora Chimamanda vai chamar de  história única!

Histórias como a que Chimamanda retrata na sua obra “Perigos de uma história única”, me fazem pensar nas opressões e no silêncio. Nessa obra ela descreve sua vida, ela que sempre escutava  e lia as história que os brancos escreveram sobre o seu povo, descrevendo-os a sua maneira e apagando suas construções. História em que tinha até um certo apreço, mas que não era a sua. Quebrando estereótipos sobre a África, ela conta uma história diferente, a sua. Contar nossas histórias nos torna vivos e como diria a autora: Todas essas histórias fazem de mim quem eu sou.[2]

Quando cresci, finalmente me vi mulher, com dois filhos e abandonada pelo príncipe encantado. Mas não desisti, ainda pensava que encontraria alguém pra mim (pensamento que nos é inculcado pela sociedade, como se não pudéssemos sobreviver sós!)  De tanto ouvir constantemente, eu queria encontrar a minha cara metade. Embora, tudo que vivi na realidade ia contra o que os contos de fada pregavam.

O que sempre escutei era o quanto era culpada por determinadas situações, sempre possíveis de serem resolvidas à dois…uma vez, depois de um dia corrido, entre as responsabilidades do trabalho, os cuidados com os filhos, e as tarefas de casa; “meu marido” chegou em casa e disse que não havia comida pronta… Naquele momento me questionei: – Só mulheres cozinham? ( Espantada ainda pelo fato de que ele sempre foi a pessoa que mais realizava essa tarefa, e cozinhava bem!) Ainda sobre os trabalhos das mulheres, trabalhos exaustivos que vivenciamos na nossa rotina, percebi quantas coisas que desejamos fazer e deixamos de lado, por falta de tempo, afinal, temos que cuidar da casa, dos filhos…não podemos fazer o que queremos e quando queremos.

Hoje escrevo tomada pelas angústias e surpresas que só a vida pode proporcionar… Nem todas boas, mas com todas elas sinto que preciso aprender, porque do contrário, de nada adiantam os sofrimentos e as feridas… Minhas companhias têm sido os livros que leio, na maioria escritos por mulheres.

Eu sou aquela que guia a caneta e que deixa minhas as marcas nesta folha de papel…e nessas linha a minha história não é a mesma história que sempre escutei, a história única, aquela das mulheres que encontram seus príncipes e simplesmente tudo termina bem;  a minha história não era a do conto de fadas que havia escutado tanto quando criança…mas ainda assim, ela é minha!

Chimamanda fala da importância de reconhecer-se na escrita, de se fazer presente, de escrever e não ser descrita, segundo ela: “Escolher escrever é rejeitar o silêncio”.

É contra esse silêncio que luto!

Uma noite alguém me disse: – Não deixe que ninguém te coloque pra baixo! (frase que me fez olhar pra mim!) Como é importante compreender as histórias como a possibilidade de conhecer o outro, a possibilidade de conhecer uma outra história!

Sim! Eu sou tudo o que vivo e vivi, e não posso deixar de fora os momentos ruins pelos quais passei, eles me deixam mais forte, e me fazem ainda ter esperança no ser humano, esperança de que contar as nossas histórias/ vivências representa quebrar com os estereótipos, e como é importante contá-las! Também temos que acreditar que novos dias virão, com novas histórias para contar.

-Mas como essa história termina?

Poderia ter um fim perfeito, mas a realidade mais uma vez me mostrou que não vivo em um conto de fadas… Numa bela noite, depois do meu aniversário, eu escutei por entre os lábios do homem que eu amava por quase dez anos, que ele não queria mais… O chão parecia ter desaparecido e eu caí num abismo… Senti que o que eu vivi não era meu, eu estava ocupando um espaço que não era o meu e eu vivia a história que era a dele… Na voz de Chimamanda: Temos um mundo cheio de mulheres que não conseguem respirar livremente porque estão condicionadas demais a assumir formas que agradem aos outros .[3] 

Finalmente entendi que não existem fórmulas para a felicidade e que não é possível viver sem caber nas histórias dos outros…mas temos a nossa história e é ela que precisamos abraçar.


[1] https://www.youtube.com/watch?

[2] ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo:  Companhia das Letras, 2019.

[3] ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para Educar Crianças Feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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