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Ao amor metafísico… Corações (re)partidos

Por Eliane Camargo

(Ao som de Belchior, só assim faria sentido lhe escrever)

♫♬♪ “…Estava mais angustiado que 

um goleiro na hora do gol, 

quando você entrou em mim como sol num quintal…”1 ♬♫

– Se ficou meloso é por conta desse tempo de pandemia.

(Respondo) – Eu gosto de textos melosos. 

 (Risos) – Gosta nada! Conheço você. É bruta. A tua escrita é combativa! 

A pessoa deste diálogo não está errada, me conhece como poucas. Conhece meus gostos, meus medos, o meu pior lado. Nunca me julgou porque os seus “monstros” são parecidos com os meus. Para ela não tenho medo de me mostrar, nem de me sentir vulnerável.

– Você já sentiu algo assim?  Seria isso o amor? 

♬♫ “…Porque o amor é uma coisa 

mais profunda 

que um encontro casual…” ♬♪

Admirar, desejar uma pessoa quando ela se faz perfeita não é amar. Sabemos que amamos quando esta se mostra como é, também com as suas imperfeições. E mesmo imperfeita nossos olhos continuam a brilhar com a sua lembrança. Não tenho dúvidas: O amor está na verdade dos nossos defeitos . 

Mas hoje, contrariando o meu próprio “gosto combativo”, meu texto é sim: meloso. Parafraseando Álvaro de Campos (Fernando Pessoa): Ridículo! Assim como são ridículas todas as cartas de amor. Rídiculo como são as minhas intenções.  

– Mas devo perguntar: Cara leitora e leitor,  não é assim que “toda/o” “apaixonada/o” se mostra?

Escrevo aos corações (re)partidos. Aqueles que se entregam a grandeza do sentir. “Corajosas/os”, se jogam no abismo de si, nas incertezas e se permitem afetar. Se você  não é assim, sinto muito, mas este texto não terá nada para lhe dizer.

♬♫“…Quero gozar no seu céu 

pode ser no seu inferno… 

viver a divina comédia humana

 onde nada é eterno…” ♫♫

(Abro um parênteses e conto uma pequena história)

“Foram muitas idas e voltas entre aqueles dois, que por um lado eram muito parecidos e por outro, completamente diferentes. Ela, uma feminista sonhadora inquieta com as injustiças do mundo. Ele, um machista que apesar de ter um bom coração estava bem ajustado a uma sociedade conservadora. Havia alguma coisa que sempre os aproximava, mesmo se tentassem ir embora. Mas, ao mesmo tempo, sempre tinha algo que os separava mesmo quando queriam ficar.

Falavam sobre muitas coisas…Contudo, aquelas tão esperadas palavras nunca eram ditas. E assim seguiam, ambos não dizendo o que era preciso dizer (ou fazer).

Mas, como tudo na vida, nada é para sempre. Depois de uma “conversa” atropelada, regada por muitas lágrimas, onde o não dito doeu mais que qualquer  palavra gritada, um nunca mais passou a existir. (Há amores que nasceram para não ser) A desilusão tomou conta e o amor muito ferido escondeu-se atrás dos olhos que se preencheram com raiva (muita raiva!) Ficou lá humilhado, jogado num canto escuro da alma. Cansado, não tinha mais forças para lutar. (Os corações se partiram).” 

Uma vez li sobre a “Síndrome do coração partido”, que dizia que a dor de um amor perdido se aproxima do luto da morte. Que a desilusão de um amor verdadeiro poderia levar a pessoa a não querer existir mais. (quem já perdeu alguém para a morte, sabe o que estou dizendo) A vida  perde o sentido. E com isso o corpo entende que não seria mais viável viver, o coração, não metaforicamente partiria.  

– Sim! Se morre de amor. Mas é preciso dizer também: O amor faz viver!

Corações partidos habitam almas grandiosas, que se doam, se repartem ao outro. Por isso o amor é metafísico. O amor se faz para além de corpos, ele se dá no sentir/pensar que se constrói como um todo, para além da razão. É um ato gigantesco repartir  uma parte de si para a felicidade de outra pessoa. Amar é grandioso demais para caber em corações egoístas. Lembro Eliane Potiguara:

Lá vão dias roendo comigo

Tua imagem de amigo

Lavando a memória e não te querendo

Mas me invades a alma

Meus olhos, as noites, meus cantos

Enfim, os sonhos.2

– O amor nos invade sem pedir licença. É um atravessar que completa.

Quem se entrega de verdade arrisca sair “ferida/o”, mas isto não deveria causar medo. Medíocre é quem não se atreve a viver, por não controlar o que virá. (Aliás, o que podemos controlar?) Pequeno é quem se esconde atrás de seu ego, pela covardia de não se permitir “ser” com o outro, por não olhar com sinceridade para si “mesma/o”.

Para algumas pessoas o amor ainda é o que encanta a vida, para outras tantas, desiludidas com relacionamentos abusivos,  o amor é prisão.  Para mim o amor é bom. “Repouso tranquilo de ventos e sono na dor”. 3

É verdade, enquanto a tristeza e a raiva tomam conta não há espaço para amar novamente. Mas isso também passa. Aos corações partidos devo reafirmar um clichê e uma de minhas poucas certezas: O tempo é sábio, ele cura. 

Que a dor de um coração partido não nos impeça de caminhar. Que tenhamos corações inteiros para abraçar outras histórias. 

E assim, o poeta ecoa em meus ouvidos:

♫♫ “… Enquanto houver espaço, corpo, 

tempo e algum modo de dizer não

Eu canto.” ♪♪♫

1 Trechos da música: Divina Comédia Humana de Belchior.

2 POTIGUARA, Eliane. Cântico da distância. In: Metade Cara, metade máscara. Grumim Edições: Rio de Janeiro, 2018. p.76.

3. PLATÃO. O Banquete. Livro de domínio público.

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestre em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

2 comentários em “Ao amor metafísico… Corações (re)partidos Deixe um comentário

  1. Lindo, incrível, fantástico, estonteante e de tirar o fôlego.
    Suas palavras são como um quebra-cabeças, vão se encaixando e formando uma lindíssima e inexplicável paisagem.
    Como sempre, seus textos são produções perfeitas, que chegam fundo na alma, nos fazendo lembrar de sensações e sentimentos sem igual!
    Parabéns, Eli. 👏

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigada Iara pela leitura, pelas palavras. É uma alegria saber que minha escrita te tocou, porque seus textos sempre me afetam. Só agradeço. Uma abração😘

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