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O Problema da Morte em Arthur Orlando

Por Dávila Tassiana Zabandzala e Guilherme Bollmann

Sêneca diante da morte – SoCientífica

“Não tenhais pela vida amor nem ódio; mas enquanto viverdes, vivei bem”.

(MILTON, Paraíso Perdido)

Arthur Orlando (1858 – 1916) foi um jurista, escritor, político, amigo e “pupilo” de Tobias Barreto. Arthur era membro e colaborador de vários jornais, como o 24 de FevereiroA EsmolaHomens e LetrasConcentraçãoFolha do NorteJornal do RecifeProvíncia[1]. E como integrante da Escola do Recife, pregou o evolucionismo filosófico.

Em 1901, ele assume as funções de redator chefe do Diário de Pernambuco, um tabloide de oito páginas que destinava razoável espaço à promoção da cultura e à divulgação de teses e ideias. Atribuía grande destaque às doutrinas pacifistas de Tolstói e buscava familiarizar os leitores com a evolução da ciência, apresentando comentários e notas sobre suas conquistas.

Arthur Orlando era sociólogo, e acreditava que apenas pelo caminho da sociologia era possível o conhecimento das instituições jurídicas, este pensamento diferia do que pensava Tobias Barreto, assim demonstrando que a Escola do Recife não era um grupo rígido de princípios, pois não impedia seus membros de emitirem suas opiniões ou fazer suas pesquisas conforme seus ideais, desde que fossem norteadas cientificamente.

Neste texto, procuraremos comentar sobre o problema da morte, tratado por Arthur Orlando nos anos de 1896 e 1898, e incluído no livro Ensaios de Crítica (utilizamos a edição de 1975). O título em francês, Le problème de la mort, ses solutions imaginaires et la science positive, é de uma obra de Louis Bordeau, publicada em 1893, que serve de referência para Arthur.

Orlando começa seu ensaio apontando como a morte é um tema que sempre foi tratado de alguma forma, seja por escritores, religiosos ou em tribos. A morte não só vem sendo observada, mas também enfrentada por aqueles que se expõem às balas, epidemias ou as ironias do destino.[2]

O autor aponta como o tema da morte nem sempre é tratado como algo maligno, a morte também foi abordada, na história da filosofia, como algo simples, cômico, e às vezes até doce. Voltaire escreve que deveríamos aproveitar a vida que é pouca coisa, pois a morte não é nada.

No ensaio, o autor também fará uma reflexão sobre o homem primitivo, que quando dormia e visitava os sonhos, sem conseguir entender o que estava acontecendo, presumia que sua alma saia de seu corpo e ia para outros planos, visitava os mortos e os animais. Este ser misterioso, que hora se mantém unido ao corpo e hora o deixa, nem sempre foi imaterial. Primitivamente, o espírito chamava-se sombra, participando de certa forma da materialidade do corpo. Orlando (1975, p. 44) escreve que é conhecido pelos filólogos que:

Não somente as línguas selvagens, mas o grego, o latim e outras línguas civilizadas exprimem a mesma relação de identidade entre os dois vocábulos. Umbra, entre os romanos, significa a sombra dos vivos e a alma dos mortos. É o que explica certos povos acreditarem que o corpo do morto não projeta sombra.

Assim, demonstra como os assuntos da morte, alma e corpo, sempre estiveram presentes, hora pensando em uma alma material, o que se denominava animismo, e hora pensando numa imaterialidade da alma, que poderia separar-se do corpo em uma jornada. O autor cita que para Sócrates:

a sobrevivência não passa de uma esperança, com que a pessoa se deve encantar. É bem significativa a peroração de seu discurso perante seus julgadores: “”De duas coisas uma, ou a morte é o inteiro aniquilamento ou é a passagem para um outro lugar. Se tudo é destruído, a morte será uma noite sem sonho e sem consciência de nós mesmos, noite eterna e feliz. Se é mudança de morada, que felicidade encontrar os conhecidos e conversar com os sábios!” (ORLANDO, 1975, p. 51).

Desde quando o homem se percebe mortal, precisa aprender a lidar com a vida de forma diferente. Toda a construção da sociedade enfrenta o problema da mortalidade, pois sempre, antes de tudo, já temos um “não”, um limite inscrito em nosso corpo. [3] A existência de tantas religiões, ritos e tradições diferentes, e que lidam com a imortalidade de formas tão distintas com os seus mitos, lendas e rituais, o ceticismo e também as vivências particulares, ao mesmo tempo demonstram uma singularidade do ser humano que une todas as sociedades que já existiram ou que virão. O autor nos apresenta alguns costumes onde, enquanto alguns povos ofertam comida, vestimentas, utensílios que auxiliem a vida póstuma, outros sacrificavam animais, serviçais, pessoas da família que serviriam de guia no mundo dos espíritos, e outros ainda praticam a cremação ou outros cerimoniais. Mesmo que os protocolos sejam tão diferentes, o destino é o mesmo.

Como lidar com o problema da morte, que é algo que falamos apenas de fora, que é tão inacessível ao mesmo tempo em que está tão presente? Essas questões nos abalam, nos fascinam, nos deixam inquietos.

É impossível não pensarmos também na situação atual do mundo, quando há a instauração de uma pandemia que ceifa um número absurdo de vidas diariamente, onde o exercício de superação dessas mortes é diluído em tantas outras tarefas, como a falta de tempo para o luto, o esforço para manter a sanidade mental, cuja necessidade é propagada em todos os momentos, o atropelamento de sentimentos quando mais de um ente querido se vai em um período muito curto de tempo e inúmeras outras iniquidades da vida presente assolam a humanidade. Vemos que “No entender de Sêneca não há razão para lastimarmos a morte dos seres, que nos são caros. Se com a morte desaparece o sentimento, o finado volta à condição que tinha antes de nascer” (ORLANDO, 1975, p. 55). Porém, cada indivíduo tem sua maneira própria de enfrentar uma ausência.

Não conseguimos falar da morte a não ser da perspectiva da vida, e sendo assim, ao imaginarmos um outro mundo possível em outra dimensão ou mesmo nesta, estamos elaborando percepções tanto únicas e individuais quanto coletivas de como lidamos com a existência. Quer tenhamos uma alma, quer não – Orlando nos lembra que a alma humana nem sempre teve uma natureza espiritual, ou seja, ao longo dos anos, houve uma construção coletiva desse conceito – e independentemente do grau de nosso apego a vida, a finitude sempre está à espreita.

Lembrando que “(…) a crença em uma existência futura nem sempre implica a idéia de uma divindade, que distribui recompensas ou castigos às ações boas ou más da vida presente” (ORLANDO, 1975, p. 49), temos que assumir a responsabilidade por estarmos vivos. Mesmo que não tenhamos chamado pelo sopro da vida, e estejamos vivos sem o nosso consentimento assim como a Mme. Sevigné, talvez possamos encontrar algum consolo em viver. Na possibilidade para que as pessoas de fé possam encontrar suas respostas, suas resistências, assim como os céticos, que preferem se indagar sobre a vida presente, esta mesma tão desconhecida.

Bordeau acreditava na capacidade de construirmos “uma estada suportável e mesmo cada vez mais atraente”, e ele também não consegue decifrar o enigma da morte. E se aqui apenas levantamos algumas questões, já que para dar conta das conclusões de Arthur Orlando seria necessário um maior estudo e aprofundamento, além do fato de que em todos os anos de existência da humanidade não foi possível chegar a uma resposta definitiva, deixamos também o convite, para que com estes ou outros autores, nos enveredemos por este assunto que nunca se esgota, até que chegue a hora derradeira.

Temos muitas dúvidas sobre o que pode ocorrer com a morte, mas como Sócrates escreve: morrendo ele não estará mais entre nós,  assim, a morte não é um problema, pois quando chegar, não estaremos mais aqui (como afirmava Epicuro, em sua Carta sobre a Felicidade).

Referências:

ORLANDO, Arthur. Ensaios de Crítica. Editora da Universidade de São Paulo, Editorial Grijalbo LTDA. São Paulo, 1975.


[1] https://www.academia.org.br/academicos/artur-orlando/biografia

[2] Para dar um contexto histórico do Brasil na época, lembrando que o texto foi escrito entre 1896 e 1898, ocorreu neste período a Guerra de Canudos e a tentativa de assassinato do Presidente Prudente de Morais.

[3] CORRÊA, José de Anchieta. Morte. São Paulo: Globo, 2008.

Guilherme Bollmann, Estudante de Filosofia UNESPAR.

Guilherme Bollmann, Estudante de Filosofia UNESPAR.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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