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seu Zé

Por Bruna Domingues 

amou daquela vez como se fosse a última..[1]

quantos “seus Zés” são necessários para manter uma sociedade injusta, violenta e hipócrita?!  Quantos sonhos, lutas e dores cabem em um poema? seu Zé nasceu em mim há alguns anos enquanto ouvia “Construção” do Chico Buarque, “morreu na contramão atrapalhando o sábado”!  tão logo nasceu e já morreu, assim a como a paz e tranquilidade de milhares de brasileiros.  “seu Zé?” é uma referência explicita (e apaixonada!) ao poema “José” de Carlos Drummond de Andrade, onde o José se transforma no Zé-ninguém, vítima das injustiças sociais, vítima da violência e do racismo. “Oh, Sinnerman, where you gonna run to? / Sinnerman, where you gonna run to? / Where you gonna run to? /All along day?”.[2]

seu Zé, que era ninguém,

madrugava para batalhar o pão,

o diabo contente amassou,

pão não tinha mais:

e agora, seu Zé?

seu Zé, que era ninguém,

não sabia dessas coisas de política,

mas fazia o que podia.

ajudava os vizinhos mais necessitados,

se revoltava com as injustiças e violência na televisão.

queria mudar o mundo, mas não podia:

e agora, seu Zé?!

seu Zé, que era ninguém,

distraía sua agonia vendo futebol no domingo.

(quando menino, escapou da biqueira,

mas não da maldade!)

assim como os milionários, no gramado,

driblavam a bola, num espetáculo emocionante,

seu Zé driblava a dor e os seus sonhos de menino,

 para colocar feijão na mesa todo dia.

sonho não enche o prato:

e agora, seu Zé?

seu Zé, que era ninguém,

trazia no peito coragem,

juntou a dor e foi trabalhar.

no caminho do trabalho

seu peito encontrou uma bala:

a bala venceu a coragem,

seu Zé, e agora?

seu Zé, que era ninguém,

 era preto.

Seu Zé que era ninguém,

tinha família.

seu Zé, que era ninguém,

acreditava em Deus.

seu Zé que era ninguém,

tinha medo.

seu Zé que era ninguém,

 saiu no jornal.

seu Zé que era ninguém,

 agora virou um número.


[1] Trecho da música “Construção” de Chico Buarque.

[2] Trecho da música “Sinnerman” citada aqui a interpretação de Nina Simone. (Oh, pecador, para onde você vai correr? / Pecador, para onde você vai correr? / Para onde você vai correr? / Nesse dia.)

Bruna Domingues, Professora de filosofia da rede estadual de ensino de Santa Catarina. Graduada em filosofia. Mestre em Ensino de Filosofia (PROF-FILO/UNESPAR). Poetisa amadora, feminista, revolucionária e apaixonada. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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