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Sexta, dia de farra e folia

Por Charles Santiago

Sexta, como todas as outras, isto é, depois de um dia de trabalho e um pouco de treino na academia Corpo e Ação, de meu amigo Rafael Vidal, tomei nas mãos uma cerveja e, sem grandes expectativas, aguardava o que haveria de ser: embriaguez, ressaca…

No entanto, naquela sexta, bastante próxima de meu aniversário, três dias somente, de algum modo eu já estava celebrando mais um ano de vida, os prazeres e sofrimentos de uma carcaça avexada. 

 Como tudo na vida acaba, não foi diferente com minha aguardente. À noite, seguindo o seu curso, depois de grandes tragos etílicos, inclusive de uma destilada, presente de Leandro Costa, amigo dos bons, fui pelas circunstâncias, pressionado a providenciar abastecimento etílico, já que meu estoque havia se desfeito no ar.

É sabido que usufruímos, sobretudo nesse tempo de pandemia, dos serviços de tele-entrega e dos motoboys. Um trabalho primoroso, mesmo não sendo devidamente reconhecido. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o serviço é chamado de “exército da salvação”, mas, com tudo isso, os empregos, quase sempre, estão na informalidade, precarizados e subalternizados.  

O trabalho assalariado é uma atividade humana que, dentre outras coisas, o trabalhador, por meio de suas forças produtivas, abrolha, em tese, sua subsistência. É óbvio que, no Brasil, estamos longe de pensar o trabalho como uma conquista da dignidade humana e, mais do que isso, condição essencial para a vida. O que temos, na prática, especialmente, na reorganização e flexibilização do mundo do trabalho, fruto do sistema capitalista moderno, é a precarização, a informalidade e uma legislação frouxa, no quesito de proteção e amparo do operário brasileiro, ou seja, uma devastação do ser humano.

É por essa razão que, para Marx, na obra O Capital, o sistema capitalista, para sobreviver, aliena o trabalhador, desumaniza o trabalho e cria falsas ilusões de vida e de existência moderna.

Observe que o serviço delivery, outrora despercebido, com a pandemia tornou-se essencial – aquilo que os paulistas chamam de o “exército da salvação”. O essencial, é digno de nota, é somente um capricho do sistema, pois o trabalho continuou e permanece na categoria de precarização, informalidade, arranjo de sobrevivência.

Pois bem, lá pelas tantas, solicitei a esse nobre serviço que me fossem alcançadas  duas caixas de cervejas e, sem muita demora, eis que pousa em minha porta uma cabrocha gentil, bastante simpática, boa prosa e muito risonha. Em poucos minutos eu já sabia o seu nome, onde morava, o que gostava da vida…enfim, contou-me, inclusive, que era sua última entrega da noite, pois, segundo ela, é arriscado, em uma sociedade como a nossa, mulheres desempenharem serviços dessa natureza, sobretudo, nas madrugadas.

Eu, amante de prosa e do néctar dionisíaco, não nessa mesma ordem, convidei-a para que se juntasse a mim e celebrasse comigo mais uma primavera. Ela achou estranho o convite, mas não se fez de arrogada, pelo contrário, disse que seria um prazer dar cabo das cervejas, fazer amigos e jogar conversas ao vento.

Não foi uma noite fácil para os meus vizinhos, pois o sol testemunhou o fim de nossa farra e, aos gritos e risos, celebramos, não somente mais um ano de vida, mas também uma boa amizade, dessas que a gente só encontra em um bom boteco.

Ali, depois de outras tantas horas, rindo e proseando buliçosamente, percebemos que já havíamos dado conta de nossa beberagem etílica. Para o nosso deleite, o deus da modernidade nos brindou com o serviço de tele-entrega, pois independente do dia e da hora estão de prontidão com seus aplicativos para socorrer os infortúnios, especialmente, das madrugadas a fio. Por isso, de imediato, solicitamos que seus companheiros de trabalho nos ajudassem com o abastecimento do líquido que nunca sacia.

Ah, minha gente, outros dois trabalhadores, gentis e bons de papo, não só trouxeram nossa encomenda, como se ajuntaram a nós naquela madrugada eufórica. Não só bebemos  como fizemos um grandioso debate, mais do que isso, aliamos projetos sindicais, constituímos caminhos de dignidade e elaboramos uma agenda de luta política.

É certo que tudo não passou de projetos e conversas soltas, mas, é justo lembrar, o debate superou, na prática, monólogos professorais que são, quase sempre, intermináveis, chatos e pretensiosos.

Foi possível aprender, no concreto, a teoria marxiana e, como um bom garçom, ouvir os mais variados queixumes. Todos faziam justas reclamações e ponderavam sobre a hipocrisia dos paladinos da política, aqueles que têm como responsabilidade  a defesa dos trabalhadores.

É certo que o álcool, depois de longas doses, retira os filtros, bem como  liberta línguas e pensamentos. Lembro-me que, em um dado momento de nossa prosa, tecendo sobre política, fui interrompido por ela, a moça risonha que, nesse momento, com um olhar negro e cintilante, buscando uma querela, versou:

– “Eu aposto uma caixa de cerveja que tu tens uma foto, nas redes sociais, ostentando a vacina contra a covid-19, proclamando o SUS, a ciência e pedindo: fique em casa”.

As mulheres, ah, sem sobra de dúvida, são as vozes da revolução. Onde houver uma mulher, haverá mudança, justiça e transgressão. Não é sem razão que a fagulha revolucionária foi, é e será sempre feminina.

 Depois da provocação da querelante, já entorpecida, fez-se um silêncio ensurdecedor, pois para os demais colegas da moça arretada, a provocação poderia não ser bem acolhida, mesmo porque a ofensiva fora contra o anfitrião da farra. E, todo mundo sabe, nós, brasileiros, não amamos um bom debate, gostamos mesmo é de nossas bolhas sociais. 

Os motoboys demostraram incômodo com toda aquela conversa, talvez porque já conhecessem a sua colega de trabalho e temessem um fim desagradável para aquele imbróglio político. Ela, pouco preocupada com os colegas, pelo contrário, o silêncio foi combustível para incendiar o nosso boteco. Por isso, tomou nas mãos mais uma cerveja, subiu em uma velha banqueta e bradou com o seu sotaque memorável:

“Trabalhadores do mundo, uni-vos. Não perderemos nada, exceto as correntes”. Depois, com o dedo enriste, continuou o discurso:

– Muitos ostentam, nas redes sociais, o direito de ser vacinado e fazem de uma foto bandeira de luta, mas como perguntar não ofende, quero saber o seguinte:  e os demais trabalhadores, precarizados, os informais? Esquecem que estamos do mesmo lado, mas não somos unidos! Nós somos “categorias” e não “trabalhadores”!

Depois dessa ofensiva política, muito bem orquestrada, inclusive, com cerveja nas mãos, mesmo extasiado com o belo discurso, arrisco a dizer que fora o melhor de toda a noite, irrompi com o silêncio:

– Parabéns, uma retórica esplendorosa! Por outro lado, devo fazer ponderações, pois considerando o nosso momento boteco, o debate, para ser justo, precisa apresentar o contraditório. Eu quero exibir que, para muitos, a postagem da vacinação não é só uma foto, mas um ato de resistência. Simboliza uma luta contra uma cultura obscurantista, peleja contra a negligência de um governo irresponsável e, acima de tudo, estimula a educação, crença na ciência…

Ela, com uma elegância singular, fez gesto de concordância com um leve movimento de cabeça, mas com seu estilo sarcástico, rindo pelos cantos da boca, advertiu:

– É preciso mais do que foto, mais do que um textão em redes sociais.

Nesse momento, um dos motoboys, temendo uma contenda, disse que o momento não era de debate político, mas de confraternização, de farra. Todos concordaram, inclusive, desculparam-se pela ousadia da jovem filósofa. Um até brincou:

– Não esquente, pois essa menina é comunista.

Ela somente escancarou os dentes e sorriu com doçura. Não recebia as palavras de seu colega como ofensa, pelo contrário, para ela, aquilo não passava de um grato elogio.

Eu, diferente do que pensavam aqueles que estavam no recinto, não fui, em nenhum momento, ofendido, pelo contrário, adorei a prosa e, não posso negar, estava embebecido com a ousadia da moça que, dentre tantas coisas, soube, com maestria, interpretar O Manifesto Comunista, garantindo sentido e conteúdo contemporâneo para a assertiva marxiana.

Foi então que, não me lembro quem, mudou de assunto e, saboreando as últimas latas de cerveja, falamos da vida e sua brevidade, especialmente nesse tempo, em que a morte, sem avisos, arranca amigos, parentes próximos de forma prematura… Falamos da morte e seus abusos… Falamos até que o sol, em um belo sábado, dispensou nossa celebração e construiu, graças ao álcool, uma singela memória.

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural. Autor do livro Filosofia de Boteco.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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