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O maior holocausto da história

Nós temos uma dívida com a África; é impagável, mas temos a obrigação de relembrar de todos aqueles que foram vítimas do maior holocausto da história – US Army Africa / Fotos Públicas

A cultura que chegou nos navios negreiros, abrigada na memória, faz parte de nosso imaginário

Por Miguel Barnet*

En los dientes la mañana [Nos dentes, a manhã]

Y la noche en el pellejo. [E a noite na pele.]

¿Quién será, quién no será? [Quem será, quem não será?]

(El negro [O negro] Nicolás Guillén)

Em 1963, conheci Esteban Montejo, o protagonista de meu livro Biografía de un Cimarrón (obra sem publicação em português). O trabalho foi publicado pela Academia de Ciências, em 1966, três anos após aquele meu encontro com Esteban.

Ainda me pergunto como foi possível que ninguém, em anos anteriores, tivesse notado a existência desse homem tão singular que tinha vivido a escravidão, que tinha escapado para as montanhas de Cimarrón – os escravos rebeldes que fugiam para os montes eram chamados de cimarrones na América hispânica –, que tinha lutado na guerra necessária e que tinha sobrevivido na república emendada.

Tive o privilégio de conhecê-lo através de uma entrevista que apareceu no jornal El Mundo. Meu objetivo inicial era entrevistá-lo para que, com seu testemunho, eu pudesse contribuir para o estudo sobre o quartel de escravos que o demógrafo e historiador Juan Pérez de la Riva estava realizando na época.

Mas minha surpresa foi muito grande: sua vida era um tesouro que eu não podia deixar passar. E assim foi. Descobri um mundo único, inexplorado, até mesmo mágico, que me deu uma riqueza inestimável de experiência, ou melhor dizendo, uma oferenda.

Esse mundo, com suas nuances, está no livro e é apenas um reflexo parcial do legado que a África trouxe para o nosso continente e, muito particularmente, para Cuba.

Milhões de escravos raptados das costas africanas contribuíram para forjar uma cultura da qual hoje nos orgulhamos, mas que foi duramente escamoteada por séculos de incompreensão e racismo. Eles receberam o epíteto cruel de peças de ébano, que nada mais eram do que uma força de trabalho escrava.

“Cuba sem o negro não seria Cuba”, escreveu Fernando Ortiz, e com isso ele quis medir a importância capital da riqueza que os africanos trouxeram para a nossa cultura.

“A contribuição do negro para a nação cubana não tem sido escassa. Além de sua imensa força de trabalho, que tornou possível a incorporação de Cuba à civilização mundial, e, além disso, de sua combatividade libertadora, que tornou possível o advento da independência patriótica, sua influência cultural pode ser percebida nos alimentos, na cozinha, no vocabulário, mas principalmente em três manifestações da cubanidade: na arte, na religião e no tom da emotividade coletiva”.

Isto, em síntese, é expresso por Don Fernando em sua conferência Los factores humanos de la cubanidad, de 1939.

O mesmo pode ser dito sobre o imenso legado que, em quatro séculos de tráfico transatlântico, a África trouxe para nosso continente e para o mundo.

Paradoxalmente, aqueles homens e mulheres que chegaram acorrentados às costas das Américas nos deixaram um legado com seu exemplo de emancipação e rebeldia, mostras de coragem e desejo de liberdade.

Por acaso não foram os cimarrones os primeiros rebeldes das Américas?

Numerosos grupos étnicos entraram no continente, cada um com suas próprias crenças religiosas e cultura; um mosaico que enriqueceu o corpus identitário das Américas.

A África não pertencia ao grupo dos continentes mais atrasados. A riqueza agrícola, a madeira e a exploração de metais como o bronze e o ouro fizeram da África um continente privilegiado e uma mina cobiçada pelos traficantes de escravos.

Já se sabe que os portugueses iniciaram esse negócio mercantilista que contribuiu para o capitalismo incipiente da época, mas que depois deles e com as mesmas intenções vorazes juntaram-se os ingleses, os holandeses e os espanhóis, entre outros europeus, a esse desonroso sistema de exploração que a Unesco qualificou como um crime contra a humanidade.

As culturas africanas, portadoras de uma rica diversidade, influenciaram de forma decisiva na espiritualidade da maioria dos países de hoje neste hemisfério.

A mão de obra africana não apenas construiu grandes fortalezas, castelos, igrejas e monumentos, mas também criou um mundo de expressões culturais nascidas de um rico arsenal religioso que foi capaz de sobreviver em contextos hostis e desconhecidos.

Isto certamente se deveu aos valores universais contidos nessas formas religiosas e à necessidade do africano de reafirmar e defender sua cultura como única resposta à quebra de seu sistema de parentesco e à barbárie do racismo cruel.

O Programa Rota do Escravo, que deveria ter sido chamado de escravizado, foi lançado pela UNESCO em 1995. Ele foi criado com a finalidade de conhecer e valorizar o significado e a relevância da contribuição da África para o mundo, bem como para analisar em profundidade a gênese do tráfico escravista.

A contribuição do legado africano na vida contemporânea, seu efeito sobre a psique social e o papel na formação do ethos humano foi também uma prioridade. Era uma tentativa de revelar, em um espelho côncavo, os efeitos do preconceito racial com a finalidade de que um fato tão monstruoso como o tráfico não se repetisse.

Eu fui um dos fundadores desse programa da Unesco e assisti à sua implementação na vila marinha de Ouidah, no antigo reino de Dahomey, hoje República do Benin.

Foi lá, naquela costa, que ocorreu um dos primeiros embarques de africanos para o continente americano. Depois visitei a Casa de Gorée, no Senegal, e vi o pavilhão escuro onde os escravos eram levados acorrentados para os navios negreiros.

Veio-me à mente Esteban Montejo, cujos pais foram escravos como ele, mas nascidos na África. Eu escrevo isto, e meu sangue gela. Especialmente quando me lembro daquela confissão que Esteban me fez uma tarde: “Porque eu era um cimarrón, não conheci meus pais, nem mesmo os vi, mas isso não é triste porque é a verdade”.

Nós temos uma dívida com a África. Sei que é uma dívida impagável, mas temos a obrigação de lembrar todos aqueles que foram vítimas do maior holocausto da história.

Reconheçamos a imensa contribuição da África para o mundo e, em particular, para as Américas.

A cultura que chegou nos navios negreiros, abrigada na memória que não se pode apagar desses homens e mulheres, já faz parte de nosso imaginário. E merece ser reconhecida como Patrimônio da Humanidade.

Esperemos que isso seja alcançado com o apoio de iniciativas de muitas nações e instituições relacionadas ao tema. Mas, mesmo assim, não pagaremos a dívida que temos com a África.

Nunca esqueçamos daqueles homens e mulheres que foram despojados de suas culturas e separados de seus entes queridos. Cada um deles é uma batida no coração dos povos.

*Miguel Barnet é poeta, narrador, ensaísta, etnólogo e político cubano, presidente da União de Escritores e Artistas de Cuba e da Fundação Fernando Ortiz. É membro do Comité Central do Partido Comunista de Cuba

**Este texto é uma versão de artigo publicado no Granma em 24 de março de 2021 

Brasil de Fato. 6.4.2021.

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