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“01 de maio, luta e liberdade”

Por Charles Santiago

Hoje, primeiro de maio, gostaria de ajuizar sobre a faina do trabalhador da educação – o professor – artesão intelectual que é, na sociedade contemporânea, enxovalhado com arengas de odiosidade, ressentimento e de palermice por uma camada da política brasileira.

Nesta data, dia do trabalhador, seria justo discorrer, é certo, sobre a tensão que agonia uma parte expressiva da população brasileira com o fantasma do desemprego! Ou quem sabe: tratar aqui da precarização das relações de trabalho, de maneira especial, do contraditório emprego informal que se acaçapa sobre o manto dos serviços “essenciais” – aqueles que são impossibilitados de paragem.

Poderia, até, como denúncia de uma desumanidade brasileira, tratar dos condenados à miséria, aqueles que não ascenderão, sequer, ao mercado informal – os invisíveis de nosso tempo – os desterrados de dignidade e de vida humana.

Todavia, uma meditação dessa altura, exigiria de mim um ânimo de leitura do velho Marx, mais do que isso, compreendê-lo a partir da categoria trabalho, da concepção de estado, dos meios de produção e, acima de tudo, da luta de classes. Ainda assim, analisar a flexibilização do trabalho e sua perversidade contra o trabalhador que vende sua força de trabalho e, quase sempre, não é assistido por uma mediação de direitos trabalhistas e de organizações sindicais.

É justo considerar: tais temáticas são inapropriadas para o tempo presente, estaria eu incidindo no risco classificatório – condenado ao título de comunista.

Não nego que, se assim o fizesse, tematizar sobre o problema acima aventado seria mais do que uma exposição de ciência política ou um escrito político-filosófico, constituiria, certamente, um honroso debate com os briosos leitores da revista Factótum Cultural.

Outrossim, considerando o espaço aqui de reflexão, atenho-me somente a pensar, mesmo que brevemente, sobre o trabalho do profissional de educação e sua recepção no imaginário coletivo de nossa tosca elite política.

Pois bem! Primeiro, mesmo em tempos de pandemia, é preciso dizer: os professores estão trabalhando! Mais do que isso, estão ressignificando seu cotidiano para que a educação siga seu fluxo – garantir ensino e aprendizagem aos homens do ‘Brasil futuro’ – os meninos de um ‘Brasil agora’, que é destroçado político e culturalmente.

Não vou adentrar no mérito de que, com a inoperância do Estado Brasileiro, os professores estão colocando seus bens privados a serviço do bem público, o que seria, no tempo atual, mesquinho de minha parte. Mas, é justo considerar que essa categoria, os nossos mestres, sem exceção, fazem um malabarismo dos diabos para que o ensino abrace, com qualidade, o maior número possível de sua gente.

Decerto que todo orbe sabe que os professores trabalham e estão ralando, dobrado, inclusive. Não existe uma só alma que desconhece o fato – a vida fadigada em que se encontram nossos trabalhadores da educação. É preciso, já que indagar não ofende, questionar sobre o real motivo da problemática retórica sobre os professores… “por que não querem trabalhar?”.

Essa pergunta, ação capciosa e debochada dos desavisados, tem sua importância: silenciar sobre nossa tragédia humana; garantir pseudomoralidade. No fundo, apaziguar o teatro dos horrores – “normatizar tristes partidas”.

Os médicos estão trabalhando! Os enfermeiros estão trabalhando! O comerciante está trabalhando! Todos estão trabalhando, exceto os professores! O que querem esses profissionais? Imaginam os nossos políticos.

São perguntas corriqueiras, mas que têm sua intencionalidade retórica e conjuntural: esvaziar o debate no que concerne às instituições públicas e sua importância no salvaguardo da vida humana.

A desumanidade do discurso se abeira ao Shylock: exige libra de carne dos trabalhadores da educação! Não há Pórcia nesse jogo. É preciso a celebração do contrato: educação se faz é na escola, independentemente das condições circunstanciais, Antonio precisa honrar seu compromisso – ceder sua porção de carne. Não se trata de fazer educação, mas de estar na escola – responder legalmente aos desejos de uma parcela da classe política – “aparentar normalidade”.

Tomo a liberdade para responder a querela dos apombaiados:

– Os preguiçosos, professores indolentes, estão aqui! Estão ali! Onipresentemente estão em todos os lugares. Os computadores, os aparelhos de celular são os instrumentos tecnológicos que os transportam para nossas casas e modificam nossas vidas – estão conosco todo o tempo.

Como não reconhecer homens e mulheres que, mesmo cansados com as dores do tempo pandêmico, abalados com tristes partidas, de semblante sempre aberto, buscam o mais doce canto da casa para produção de arte: entoar, via tela de computador/celular, sabenças para os filhos e filhas de cada trabalhador deste país? Como não se regozijar com homens e mulheres que, incansavelmente, reinventam-se para fazer com que o conhecimento ultrapasse tamanhas barreiras e se avizinhe em cada recanto desse país tão desigual?

Quero, neste dia, considerando que o mês de maio é mariano, dedicado pelos católicos a Maria Santíssima, pedir, gentilmente, a Nossa Senhora, a mãe de Deus, que se apresse no socorro dos desvalidos e conceda misericórdia para os seus filhos e filhas que sucumbem na fila dos desempregados. Proteção para os que são humilhados e têm sua força de trabalho indevidamente apropriada pelos senhores do poder. Pelos trabalhadores da educação, homens e mulheres que lutam contra o obscurantismo, o negacionismo e resistem à fúria de funestos políticos, paciência para esperançar dias melhores.

O que posso dizer? Que este dia, primeiro de maio, seja de luta, mas também um horizonte para celebrações e farturas: que não falte pão, que não falte justiça, que não falte vida, que não falte coragem de lutar e de resistir aos infortúnios de nosso tempo: a trágica política brasileira!

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural. Autor do livro Filosofia de Boteco.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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