Ir para conteúdo

O triunfo da pulsão de morte: Freud explica a incivilidade com a qual lidamos com o coronavírus

Por Nelson Asnis

Félix Zucco / Agencia RBS
O amanhecer em Atlântida durante o Carnaval: lixo espalhado após uma noite de aglomeração Félix Zucco / Agencia RBS

Das medidas políticas às aglomerações cotidianas, professor e psiquiatra analisa a forma como os brasileiros têm se comportado em tempos de pandemia

Você, como eu, deve ter amigos ou colegas que são boas pessoas, intelectualmente bem capacitados, mas que a todo o momento não colocam máscara, não cuidam o distanciamento e viajam como o fariam sem pandemia. Por que isso acontece?

Qual a semelhança e qual a diferença entre essas pessoas que aglomeram na praia se divertindo alegremente e quem não o faz? A semelhança é a vontade disso; a diferença é a capacidade de renúncia.

Uma das maiores dificuldades do ser humano é postergar o prazer. É muito difícil, para as crianças, que precisam brincar, para os adolescentes, que precisam se reunir, e para os adultos e idosos, que não têm mais tanto tempo a perder.

Opondo-se ao princípio do prazer, como assinala Freud, temos o princípio da realidade. E se instala dentro de cada um de nós uma luta. Como o princípio do prazer costuma levar vantagem, o que fazer para ajudar o princípio da realidade? Leis. Que são constantemente burladas. 

Porque, como mostrou Freud, cada indivíduo é virtualmente inimigo da civilização. Para ele, a civilização, que significa tudo aquilo em que a vida humana se eleva acima de suas condições animais, não pode prescindir da coerção. Como escreve Zygmunt Bauman em O Retorno do Pêndulo (2017), “enfrentar situações nas quais a balança se inclina contra fazer o que se quer e a favor de fazer algo que se gostaria de evitar”. 

O processo civilizatório fez com que a medicina evoluísse do obscurantismo das poções “milagrosas” até chegarmos, no século 19, ao modelo precursor da chamada “medicina baseada em evidências”, a partir dos ensaios de Pasteur e Claude Bernard.

Em mais uma prova de que Freud estava correto quando insistiu ser o indivíduo inimigo da civilização, vemos todos, atônitos, um retorno ao obscurantismo quando pessoas sem formação médica compram, distribuem e “prescrevem” “kits covid”, já exaustivamente testados e considerados sem eficácia contra a covid-19 (por vezes inclusive com potenciais efeitos colaterais prejudiciais) por comunidades científicas de países desenvolvidos nas áreas da terapêutica médica. 

Não contentes, os mesmos “especialistas” se outorgam o direito de ridicularizar as vacinas, dando as costas para países com medicina desenvolvida que sabiamente se anteciparam encomendando milhões de doses, que, hoje já vemos, protegem suas populações, diminuindo o número de internações e a mortalidade, como ocorre, por exemplo no Reino Unido e em Israel.

E, nós, brasileiros: por que descuidamos tanto dos protocolos da pandemia? Por que vacinamos nossa população “a conta-gotas”?

Novamente Freud nos ajuda. Porque todos temos, dentro de nós, um potencial de destrutividade pronto a ser acionado, chamado por ele de “pulsão de morte”. Assim como temos também uma pulsão de vida responsável por promover os cuidados para nos protegermos da covid-19. A questão seria não tanto o fato de termos a pulsão de morte, mas sim como lidamos com ela.

O que vemos em nosso país é o livre trânsito da pulsão de morte e, em consequência, do coronavírus. A “pulsão de morte brasileira” parece triunfar sobre a de vida.

A pulsão de morte atua tirando a máscara, aglomerando, distribuindo remédios ineficazes, não comprando respiradores e deixando “a passos de tartaruga” o processo de vacinação. 

Mas, voltando à pergunta inicial, por que por vezes mesmo pessoas boas e inteligentes insistem em se descuidar, atentando contra sua integridade e, em tempos de pandemia, contra seus semelhantes?

Bom, aí só uma boa psicoterapia para tentar responder.

Por Nelson Asnis, Professor, psiquiatra e psicanalista.

GZH, 25.2.2021.

Factótum Cultural Ver tudo

Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: