Ir para conteúdo

O inferno está vazio?

Por Paulo Cesar Jakimiu Sabino

O Brasil é o inferno?. Mesmo para uma sociedade acostumada com… | by  Leandro Ruschel | Medium

Nas palavras de Jorge Ben: “Moro, num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”… mas nem sempre é “que beleza”[i]. Que o Brasil seja um país de paisagens encantadoras, rica cultura cuja reunião de diferentes grupos étnicos deu um toque único para seu povo ninguém pode negar. Viver aqui, por vezes, é um privilégio. Só que nem sempre dá para ser feliz no Brasil. Tá complicado, sabe?

Não estou aqui para comparar minha terrinha de céu azul anil com outras que estão por aí. Já não sou ingênuo o suficiente para acreditar em hierarquia de povos em tempos como os nossos. Eu estou pensando o Brasil pelo Brasil, comparando a sua imensurável beleza com sua equivalente podridão. Me ocorreu esse pensamento quando li um trecho do sempre genial Luiz Antônio Simas em “olha o jesuíta aí, gente” – título que não dá pra ler sem considerar a sonorização que acompanha a frase. Simas quase me tranquilizou quando escreveu: “Não gosto do Brasil; é mais honesto dizer. Eu gosto é da brasilidade, essa comunidade de sentidos, afetos, sonoridades, rasuras, contradições, naufrágios, ilhas fugidas, identidades inviáveis, subversões cotidianas, voo de arara e picada de maribondo, saravá e samba. Coisas que o Brasil, Estado colonial brasileiro delimitado em marcos territoriais, a burocracia, a república, assim como a monarquia, odeiam. O Brasil é um empreendimento do ódio. A brasilidade é uma reação vital, inovadora, transgressora, contra a mortandade como signo do Brasil”[ii].

Quando eu li isso, eu pensei: talvez eu goste da brasilidade. Pena que não consegui comprar a ideia por mais sedutora que fosse. Eu sou da opinião de que a brasilidade é responsável pelo empreendimento de ódio que é o Brasil da mesma forma que torna nosso país tão atraente. Essa brasilidade é tão carente de afeto, ao mesmo tempo que é tão generosa para fornecê-lo, e isso forma uma dicotomia estranha e confusa. Queremos afeto e queremos dar afeto, com a ressalva de que só entre nossos pares. Essa facilidade afetiva resulta em amor, alegria e complacência na mesma medida que resulta em ódio, sofrimento e intolerância. A brasilidade de sarava e samba só dá amor quando quer, porque se quer o oposto, sabe fazê-lo com perfeição equivalente. Por isso tanta desavença entre nosso povo, uma desavença antiga que jamais parece ser vencida – e muito antes dessa “polarização política” atual, e sabe-se lá se ela desde quando ela é “atual”. É só aguçar a visão um pouco, notar a querela sulista e nordestino que tá mais pra uma briga sem vergonha de ensino médio. A gente vive na mesma terra, e se mata nela também.

Esse caldeirão de afetos que o brasileiro é elegeu o atual presidente, ajudou a eleger o anterior, e assim, voltando nos anos, eu imagino que foi até 64. É afeto… pra bem ou pra mal. A verdade é uma só: brasileiro não é um povo equilibrado, isso pode ser notado na reação dos espectadores de uma novela ou nas arquibancadas de futebol. Como é que deixa esse povo em casa. Não dá. Brasileiro é bicho selvagem – só vai. A diferença é que anos de evolução civilizatória não nos permite mais essa selvageria… a gente é fraco e humano, e já tá mais do que provado que ficar em casa hoje é a melhor opção, não adianta teimar no contrário. Ei, talvez brasileiro só seja burro mesmo. Mas essa é uma explicação muito simplista e eu não gosto do simples.

Senti vontade de rir, perdão, mas é que lembrei de Rousseau: “o homem é bom por natureza”. Ele era francês, claro, mas creio que a aposta mais certeira é saber que não há “bom por natureza”, nem seu oposto: há apenas natureza. Nessa natureza, portanto, é preciso equilíbrio, porque o desiquilíbrio do nosso povo um dia vai nos matar. Ainda mais quando vivemos sob um governo que não faz questão alguma de impedir tal feito. Nosso país tropical pode ter sido abençoado por Deus, mas este senhor já se mandou de cá faz tempo. Será que vivemos em um paraíso habito por demônios? Não, o inferno não está vazio, é que seus demônios estão sem um rei… porque o diabo reina é aqui – e como reina, é reinento demais.

E é lamentável ter de aludir a Shakespeare falando de Brasil. Eis nossa decadência.


[i] Trecho da música “País Tropical” de Wilson Simonal, composição de Jorge Bem. In: Alegria! Alegria! Vol. 4, Intérprete: Wilson Simonal. Berlim, Odeon, 1969, 1 Disco, Faixa 11 (3min35seg).

[ii] SIMAS, L. A. Olha o jesuíta aí, gente. In: SIMAS, L. RUFINO, L. HADDOCK-LOBO, R. Arruaças: uma filosofia popular brasileira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.

Paulo Cesar Jakimiu Sabino, Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP e Doutorando em Filosofia na UFPR. Entusiasta de literatura russa. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: