Ir para conteúdo

“Imaginar é preciso: o futuro que deve ser”

Por Charles Santiago

Beca da cor do curso — qual a cor da faixa do meu curso? Dicas da Alpha

Quinta feira, depois de um encontro com os mestrandos em filosofia, na verdade, mais do que um encontro, uma honrada discussão sobreo texto de Charles W. Mills:  A imaginação sociológica, precisamente, o capítulo que se intitula A promessa, tomei nas mãos uma cerveja e, enquanto esperava o horário da formatura dos licenciados da Unespar, Campus de União da Vitória, meditei longamente sobre dois conceitos que angustiaram nossa tarde de debates – inquietação e indiferença.

A imaginação sociológica, adverte que é preciso racionalização e sensibilidade para com a inquietação e a indiferença, ações que povoam a existência humana e entrelaçam o cotidiano do homem moderno. Para nosso autor, “vivemos a miséria da inquietação vaga” – traduzindo para o nosso tempo – somos os progressistas das redes – nossa revolução é operada do sofá da sala, em outros termos, “a esquerda universitária”.

Com relação à nossa indiferença contemporânea, o fato salta os olhos, banalizamos o mal – não há racionalidade que explique a razão de nossa insensibilidade para com o sofrimento avizinhado.  Somos o político realista, aceitamos os fatos como eles são, afinal, são o que são e não há o que fazer ou mudar – resulta do que somos.

É justo dizer: de todas as provocações que avexaram o nosso debate naquela tarde filosófica, uma questão amofinou a minha cuca: “somos capazes de, na faina cotidiana, impacientar os que estão em nosso entorno?”, dito de outro modo: “estamos, no ofício do magistério, atormentando nossos estudantes?” “Qual o verdadeiro tamanho da inquietação que somos capazes de provocar?

Decerto que, os incautos, patrulheiros das ideologias, de posse da afronta dilemática, tomados por uma leitura malograda de A vocação como ciência, do perspicaz Weber dirão:

“O verdadeiro professor se impedirá de impor, do alto de sua cátedra, uma tomada de posição qualquer, seja abertamente, seja por sugestão”.

Vou ignorá-los, pois no momento da escrita a preciosidade do tempo me impede de lançar pérolas aos porcos. Todavia, para não incorrer em grosserias, os versos do amigo Paulo não podem ficar despercebidos, pelo contrário, servirão como respostas para o edito weberiano: “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”. 

Não se trata, é claro, de doutrinação ideológica, prosa transloucada do tempo hodierno, longe disso, o levante freiriano abeira-se da imaginação sociológica que nos obriga a inquietação, mais do que isso – impacientar homens e mulheres na labuta para tornar problema público toda injustiça, sofrimento e violação da vida, que são, quase sempre, problemas periféricos de um tempo em que a vida não figura como dever ser: abundante – livre – plena, humana em dignidade.

Em uma tarde de provocações, depois de um bom debate com os amigos mestrandos, bem como a incursão no texto de Mills, A promessa, arrazoava comigo sobre o ofício do magistério… e por um instante, atordoado em pensamentos, como em uma epifania, Belchior ateou em meus ouvidos: “amar e mudar as coisas”. Naquele momento de meditação, acudido pelo poeta nordestino, tecia uma crédula conclusão para o dilema da tarde: o ofício de magister é o de artesão intelectual – o trabalhador que ama e muda as coisas. 

Paulo, pensador incompreendido, sobretudo, no círculo da leitura fácil, aquela que se fabrica no interior das redes sociais, como um bom artesão, sabedor da vocação do magistério nos legou com a seguinte assertiva: “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso. Amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade”.

Depois de duas latas de cerveja, muito bem acompanhado das memórias de leituras freirianas, das músicas do meu poeta preferido, o mais arretado dos nordestinos, e um bom período de meditação, fui surpreendido pelo meu coordenador de curso, com uma mensagem de texto que anunciava a celebração noturna – a formatura dos novos professores.

Ali na sala e de computador aberto, já preparado para a solenidade festiva, assistia o que parecia impensável – aglomeração remota de professores, funcionários, estudantes e familiares para celebrar o fim de um ciclo – a formação de novos artesãos intelectuais.

Uma festança estranha, decerto, pois na tela fria do computador, risos e gritos musicavam o momento de “aleluia” e como quem procurava o melhor ângulo, no mais singelo canto de cada casa, com a catraia pintada, mesmo sem abraços e aperto de mãos, formandos e formandas demostravam, vencedores e felizes, o quão são capazes de se reinventarem – para que a vida siga seu curso e complete sua travessia – a plenitude existencial, que é tecida no cotidiano de cada homem e de cada mulher que, mesmo diante da tragédia pandêmica, combatem o bom combate, exaustos é óbvio, mas resilientes.   

É preciso dizer: mesmo na modalidade remota, não faltou emoção, felicidade e encantamento na solenidade de formatura. E, o mais importante, foi perceptível o comprometimento de obreiros da educação que devotarão suas vidas para a formação e transformação de tantos rebentos que carecem e carecerão desses mestres que, dentre tantas coisas, são sementes do hoje e de um longo amanhã – ambiente sem indiferença e de grandes inquietações – um chão sociologicamente imaginável.

Com os olhos em lágrimas, um deságue de emoção, ao assistir os belos discursos, expressões de longos carreiros, buscando confraternização com os novos colegas, tomei nas mãos uma cerveja gelada, celebrei a ocasião gloriosa – esperançando, com os novos artesãos intelectuais, de que venceremos o nosso maior adversário – a ignorância, o negacionismo – e que, no futuro próximo, constituiremos um novo tempo – imaginativo – possível, perspectivo, em que seremos perturbações para os que cruzarem os nossos destinos,  pois, como nos versos de Mario Quintana: “nada jamais continua, tudo vai recomeçar”.

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural. Autor do livro Filosofia de Boteco.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

<span>%d</span> blogueiros gostam disto: