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Contar mais uma história: por que amamos?

Por Pâmela Bueno Costa

Diferença Entre Amor e Forma de Amar – Psicóloga Fabíola Luciano

Amor, um fio

condutor para/da Vida.

Amando devagar e urgentemente[1]

Uma coisa é certa: sem amor nada seríamos. Porém, temos que nos conscientizar que existem várias formas de compreender o amor. Desde os tempos mais remotos da história e da filosofia até aos dias atuais, muitos filósofos dedicaram-se  e dedicam-se a esse conceito que, por muitas vezes, escapa às definições conceituais. Enquanto afeto, vive em potência dentro de cada pessoa. Não deve ser  parâmetro compreender o amor somente  pelo viés da universalidade ocidental. Nossa dificuldade em entender é justamente tentar definir e conceituar algo que está além de definições.

 Um filósofo indiano, chamado Juddu Krishnamurti, nos provoca a pensar a questão: “estar ampla e profundamente atentos ao fato de que não existem meios para o amor como um objetivo desejável da mente”[2]. Ele afirma que:  a dificuldade é que nós não amamos; e se nós de fato amamos, queremos que isso funcione de uma forma particular, não lhe damos liberdade. O sentimento de posse. O equívoco está em achar que a pessoa  amada vai agir como  o amante deseja. Assim, para o autor: “nós amamos com nossas mentes e não com nossos corações. A mente pode se modificar, mas o amor não. A mente pode se tornar invulnerável, mas o amor não; a mente pode sempre se retrair, ser exclusivista, tornar-se pessoal ou impessoal. O amor não é para ser comparado e tolhido” (2008 p.63).

Segundo Juddu, mantemos nossos corações sempre vazios e cheios de expectativas. É a mente que se apega, que é ciumenta, que controla e destrói. O desejo incontrolável de definição racional mata e agoniza o amor, a razão está sempre buscando garantia, segurança; nesse sentido, temos que nos questionar: pode  o amor ser garantido pela razão?

 O que pode a criatura, senão amar? Nos versos drummondianos, nos questionar o que é o amor e o que entendemos sobre esse sentimento (tão nobre), em tempos tão sombrios,  torna-se essencial. Amamos e queremos ser amados, porém, nem sempre o outro (objeto amado e de desejo)  sente e entende o amor da mesma maneira. Podemos amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo? Uma pausa, aqui caberiam muitas respostas, por ser o amor plural, amamos muitas pessoas, mas de diferentes formas, pensando nas conceitualizações gregas: o amor ágape, philial e erótico.  “Amores são sempre amáveis” – e assim, intermináveis, pois sempre é tempo de contar uma nova história.

Amar é contar histórias! – nesse sentido, vamos recordar a história de um jovem sofredor, tão sentimental. Na obra de Goethe, Os sofrimentos do Jovem Werther – nos damos conta o quanto o amor pode ser nosso phármakon – ora nossa cura, ora nosso veneno (dependendo da quantidade). O jovem é símbolo do movimento alemão Sturm und Drang – tempestade Ímpeto. Goethe cria Werther, mas é um movimento de mostrar também um eu (em tom biográfico) apaixonado  com todas as suas mazelas de um amor não correspondido. O livro é epistolar, ou seja, é construído por cartas de Werther ao seu amigo Wilhelm, o que faz o leitor tornar-se, nesse sentido, aquele que escuta as tristezas e alegrias do apaixonado sofredor. “Quem nunca viveu uma paixão não vai ter nada não”, somos seres de afeto. E, nos apaixonamos, mas amamos mesmo poucas pessoas, pois é um ato de coragem. É jogar-se ao abismo, sem se importar com a queda, é almejar o voo, e contemplar a travessia, contudo, nem sempre o voo é longo e a queda pode ser fatal. O que a história de Goethe mostra é um jovem que não soube lidar com seus sentimentos e preferiu a morte à vida sem Charlotte. Não vamos nos ater aos julgamentos morais ao ato cometido pelo personagem – o suicídio. Mas o que leva o sujeito que ama a esse fim? O que nos faz pensar: o que é o amor? Por que é tão romantizado? O amor não deve ser um fio condutor para a morte, mas, sim, para a vida.

Entre outras personagens que tiveram o mesmo fim de Werther, podemos lembrar de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, querendo poesia e amor, acabou morrendo lentamente em sua cama ou ainda Ana Karenina, de Liev Tolstói, o amor foi sua perdição. Enfim, são tantas personagens que mostram como o amor pode ser a cura dos males, mas também o contrário. Como afirma, Aza Njeri essas obras citadas são cânones ocidentais, onde o amor leva à morte, punindo com a morte quem ousar experienciar o amor destituído da rigidez da Razão. 

 Amar, desamar, amar?  Assim, as histórias fazem parte das nossas vidas. Nossa vida é como uma grande narrativa. É uma maneira de se reinventar, pois a narração possibilita  criar nossas possibilidades de ser. Como as grandes tecelãs, as moiras do destino, traçamos, contamos e (re)contamos as histórias em processo verossímil. E, assim, caminham as histórias de amor.

 Em algum momento você já deve ter ouvido falar da história de Sultão Shariar. Conto árabe de “As mil e uma noites”. Conta-se que, em tempos remotos, Shariar foi traído e sua ira fez com que matasse sua esposa e, portanto, jurou vingança a todas as mulheres. Nesse sentido, diante da traição decidiu que todos os seus próximos casamentos durariam apenas uma noite. Um destino cruel para suas próximas amantes. A cada nova boda, ao amanhecer a mulher seria assassinada. Qual seu objetivo? Tentar livrar-se da perversidade e falsidade das mulheres. Ledo engano, pois em sua vida surge uma mulher que consegue driblar o destino implacável e cruel – Sherazade, a filha do vizir. Você deve estar se perguntando como? Com a consciência do que a esperava, ela fez então um último pedido, solicitando que pudesse se despedir da irmã, Duniazade. Com o pedido atendido pelo Rei, sua irmã solicita que Sherazade contasse, pela última vez, uma de suas belas histórias. Todas as noites ela começava uma narrativa, mas não terminava. Angustiado e curioso, o rei Shariar adiou a morte da esposa. E, assim, passaram milhares de noites, e o Rei Shariar envolvido com as histórias de sua esposa cessou o ciclo de morte. Nesse viés,  o amor como instinto de sobrevivência, foi o fio condutor para a vida. Sherazade com sua atitude de coragem rompeu o ciclo absurdo de mortes. E o rei Shariar ficou completamente encantado com sua esposa. Em nome do amor por outras mulheres, Sherazade colocou-se em situação de sacrifício para acabar com a carnificina. Para Renato Noguera: “se a narrativa for ruim, poderá gerar desencanto, que é um dos maiores rivais de qualquer relacionamento” (2020, p. 56). E a narrativa de Sherazade soube envolver o outro – encantou o ouvinte. Nota-se, portanto, que o amor é uma troca, precisa de paciência e cuidado, assim, Sherazade nos ensina um lindo gesto de amor em nome de uma causa.

Na mitologia Tupi, a deusa lua, é conhecida como Jaci, linda, brilhante e com um poder sedutor, escolhia as mais belas jovens virgens para transformá-las em estrelas. Com seu poder de encantamento e de despertar paixões, as jovens ficavam fascinadas por Jaci. Conta-se que uma  jovem, chamada Naiá, sonhava todos os dias em ser escolhida pela lua. Fazia de tudo que podia para chamar atenção e ser selecionada: subindo em árvores, escalando colinas, sempre com a esperança de ser escolhida. Certa vez, Naiá olhou para o as águas do rio e viu Jaci, desesperada correu ao seu encontro. No impulso, sem pensar duas vezes, mergulhou atrás da deusa, no entanto,  era apenas o seu reflexo. Jaci observando a cena, comovida com o que aconteceu, transformou Naiá em uma linda estrela, mas não do céu, ela virou uma linda vitória-régia. Uma interpretação possível é que, seu amor desmedido fez com que não percebesse a realidade, ou seja, a ilusão tomou conta. Quem nunca caiu na cilada de procurar amor onde não existe? Confundindo o sonho com a realidade?

O amor também está relacionado a nossa entrega, pois demanda que as pessoas se apresentem uma a outra – nua e crua, sem véus. Entrelaçando – “Meu paletó enlaça o teu vestido”, um no outro, pois é uma troca. O amor não deve ser uma narrativa egoísta e unilateral, porque é importante romper com o amor de posse,  pois “o amor só dura em liberdade”. Naiá, nos ensina que o amor é símbolo de metamorfose, porque é um caminho de encontros e desencontros, ela mergulha de cabeça, mas não encontra o que procura, porém, renasce, e é esse o  percurso do amor: deixar-se transformar.

Desse modo, podemos afirmar que o amor é pulsão necessária para a vida e não para a morte. E, amamos porque estamos vivos! É conexão com a humanidade em graus e profundidades: “ele é matéria humana, energia que pulsa no corpo e altera nosso estado de ser físico, mental, espiritual e biológico, sendo compreendido dentro de pluri vieses de acordo com as pluriperspectivas Culturais” (2020, p. 56)[3]. O amor ao contrário de algumas obras ocidentais que, compreendem o amor como fio condutor para a morte, é vida: o único caminho possível para resistir a tanto ódio e indiferença.

É desejar e contar sempre uma nova história, mesmo tendo vivido narrativas  tão dolorosas, o amor está na luta por uma causa, mesmo que seja “por amor às causas perdidas”, nos encontros e desencontros, pois é um ato de coragem, político e poético.

REFERÊNCIAS

NOGUEIRA, Renato. Por que amamos? o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor. Rio de Janeiro : HaperCollins Brasil, 2020. 


[1] Chico Buarque “Todo sentimento”.

[2] KRISHNAMURTI. Comentários sobre o viver. p.23.

[3] NJERI. Naza. Amor: um Ato Político-Poético. in: Ética e filosofia: gênero, raça e diversidade cultural [recurso eletrônico] / Franciele Monique Scopetc dos Santos; Diogo Silva Corrêa (Orgs.) — Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2020.

Pâmela Bueno Costa, professora de filosofia na rede estadual e particular de ensino – SC. Graduada em Filosofia. Pós-graduada em Ensino da Filosofia. Mestre em Ensino da Filosofia PROF-FILO. Cursando terceiro ano de Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Ilustradora amadora e aprendiz de aquarela. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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