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Um domingo prosaico

Por Charles Santiago

Charles Michel de l'Epée, o pai da educação pública para surdos | Cultura |  EL PAÍS Brasil

Num domingo nostálgico,  acabrunhado com o tempo pandêmico, depois de um sábado sem farra, considerando o período quaresmal, como um bom cristão, longe das ressacas dominicais, elaborando um plano de trabalho, programa de um curso para ministrar com os nobres amigos, estudantes do mestrado profissional em filosofia, fui provocado com o palavrório de Bourdieu:

“O empreendimento paradoxal que consiste em usar de uma posição de autoridade para dizer com autoridade, para dar uma aula, mas uma aula de liberdade a respeito de todas as aulas, seria simplesmente inconsequente, ou mesmo autodestrutivo, se a própria ambição de fazer uma ciência da crença não supusesse a crença na ciência”.

Decerto que, com os dizeres bourdieusianos, era somente mais uma porrada no início de domingo e, como se não bastasse um sábado sem farra, o filósofo maldito, derrubava-me da presunção professoral – “dar aulas” – transmitir conhecimento – mudar o mundo.

É preciso dizer: Não foi o melhor dos domingos, longe disso! Não tardou para que, das minhas memórias, o velho Paulo mandasse o seu recado, “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” – era mais do que um recado, na verdade, desnudava os meus vícios universitários – o lugar de fala.

É justo considerar, mesmo sem a aguardente que nunca sacia, o domingo foi de provocações e grandes aprendizados. Ali, entre um texto e outro, ajustando o que seria um curso para mestrandos, abusei da sobriedade quaresmal e, com os versos de Bourdieu e Paulo, larguei mão da posição de autoridade –  como todo bom estudante, indaguei sobre o propósito de todo um conteúdo  (arbítrio cultural)  para formalização de um curso acadêmico:  “aulas professorais”.

Não se tratou, é claro, de perguntas utilitaristas, mas, antes disso, corroborado pelo professor e amigo Thiago Stadler,O valor das humanidades em um tempo técnico-científico, atinei para os versos do aedo paranaense: “O conhecimento das humanidades desnatura as relações historicamente construídas entre os homens, suas instituições e cultura”. Embebecido, mesmo sem o néctar maltado, mas com o texto do impoluto professor, foi possível ajuizar que a busca “utilitária” do saber humano é descabida e sua retórica é sem sentido, caso não se considere o valor do questionamento e sua práxis cotidiana à luz da ciência das humanidades.

Longe da lógica positivista, encontrar utilidade num mundo técnico-científico, meus questionamentos eram outros – queria eu, no fundo, repensar sobre minha prática – “fazer aulas”. Especialmente nesse tempo, em que a vida é, ligeiramente, tomada de assalto e sua fragilidade busca refúgio, erroneamente, no futuro, o que deve ser – mitigado na espera – “espera naturalizada pelas relações históricas entre os homens”. Ah, minha gente, quão bom é sermos atormentados em nossa labuta cotidiana – pensar e repensar sobre nossa prática profissional – os infortúnios do magistério num tempo que, de um lado estão os negacionistas e, do outro, os profetas do futuro.

Perdido em provocações, assombrado com tristes partidas, diferentemente de Belchior, cheguei à seguinte conclusão: não havia “a certeza de que tenho coisas novas, coisas novas pra dizer”. Isso porque  naquele momento de trabalho, na construção de um plano de curso, autores estavam construindo respostas, apontando caminhos, independentemente de seu lugar geográfico ou de sua postura político-filosófica – colonialista ou decolonial – pobres verbetes do pensamento brasileiro.

Não é de meu interesse achocalhar tradições filosóficas, menoscabar correntes de pensamento, construir querelas como fazem, empalmados pelo modismo filosófico, os pensadores de gabinete, Deus que me livre! Pelo contrário, avexado com o propósito, de fazer aulas para uma turma de mestrando, justamente num tempo pandêmico, fui desafiado por mim mesmo a repensar sobre o magistério e minhas crenças infantis – emancipar o cidadão, mudar o mundo.

Inquieto, sóbrio e, talvez por isso, melancólico com os dilemas da profissão – “produzir sabor no saber” – oh, vaidade! O saber não tem sabor, ah, não! É trágico, dilemático e doloroso – tira-nos do conforto – nega nossas crenças, sobretudo no ambiente acadêmico, onde nossa titulação tem autoridade e a assegura na ação de professar conhecimento – as verdades invioláveis – nossas aulas.

Mas é domingo e, como disse Belchior, “eu ainda sou bem moço para tanta tristeza” e por isso é melhor quebrar o jejum quaresmal, beliscar uma carne, tomar uma cerveja e seguir o poeta: “Deixemos de coisas, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida”.

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural. Autor do livro Filosofia de Boteco.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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