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Nietzsche, Dostoiévski e Sófocles em: sobre o que pode a razão

Por Paulo Cesar Jakimiu Sabino

E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
[i]

No mês passado eu falei sobre como devemos dar crédito à razão humana, uma vez que a razão e a ciência viabilizaram meios de “atenuar” – na falta de uma palavra melhor – o sofrimento causado pela pandemia com a qual convivemos. Neste mês, porém, quero romper o acordo de “boa vizinhança” estabelecido anteriormente. A razão forneceu muito, dei algum crédito a ela, mas também é preciso apontar suas falhas.

O que em existe em comum entre um tragediógrafo grego, um romancista russo e um filósofo alemão? Todos os três estabeleceram uma crítica contundente à racionalidade – cada ao seu estilo, à sua maneira. No Édipo rei, Sófocles ilustra um aspecto sempre presente nas tragédias: a luta contra o destino, a necessidade do ser humano em controlar sua fortuna (a tykhe). O que torna uma peça trágica não é o sofrimento ou a desgraça, mas sim o fato de que a desgraça e a dor são ocasionadas pela ação do herói que ousou enfrentar seu destino. Édipo pensou ter encontrado sua salvação quando desvendou o enigma da esfinge, ele poderia fugir de seu destino, mas a Tykhe é uma deusa implacável. A tragédia grega mostra ao espectador que existem coisas no mundo que não controlamos, que nossa existência é efêmera e nossa sorte pode mudar num piscar de olhos.

Na segunda metade do século XIX, na Rússia, os membros progressistas da intelligentsia pregavam uma exacerbada confiança na razão. Fossem liberais, fossem revolucionários adeptos do materialismo, eles chegavam a admitir que o ser humano, uma vez que fosse esclarecido, agiria de acordo com as “leis da natureza”. Dostoiévski desdenhava, fazia troça com tal pensamento. Tal ideia eliminava a independência do ser humano e o tornaria uma mera “máquina” que agiria conforme a natureza o programasse. Para Dostoiévski, esses revolucionários não haviam captado a característica fundamental do ser humano: ele pode sentir prazer na dor, e, sendo assim, agirá deliberadamente de forma contrária ao que lhe causa benefício. Ele não é um ser que age de forma objetiva a fim de “melhorar”. A ideia de que a civilização nos tornou melhores é um pensamento absurdo e incapaz de ser concebido sem qualquer questionamento. A razão que erigiu a civilização nada mais fez do que refinar nossos métodos bárbaros de causar dor e de sofrer. Dostoiévski afirma com a elegância digna de um romance russo: “pelo menos, se o homem não se tornou mais sanguinário com a civilização, ficou com certeza sanguinário de modo pior, mais ignóbil que antes”[ii]. A razão propiciou formas adequadas de “agir bem”, de uma reta conduta capaz de tornar a humanidade melhor. Mas não havia qualquer garantia que seus ensinamentos serviriam ao bem e não à crueldade. O ser humano é perspicaz quando é sádico – é o único ser que pode ser conectado a este adjetivo. Ele sabe o que é “certo”, e mesmo assim prefere fazer o “errado”, nem que para isso deva modificar toda a realidade apenas para justificar sua lógica. O inconsciente humano atua pela lógica da insanidade. Dostoiévski percebeu isso, ele analisou a alma humana nesse sentido – eis seu grande mérito.

Algo parecido faz Nietzsche. No entanto, o filósofo argumenta de uma forma diferente. É comum pensar que Nietzsche ataca a razão para elevar os sentimentos, instintos e tudo aquilo que pertence ao âmbito do corpo. Isso, porém, é desconsiderar que tal ruptura entre razão e corpo não existe na filosofia madura do autor do Zaratustra. Quando ataca a razão, Nietzsche não quer destruí-la ou eliminá-la. Ele apenas a rebaixa ao papel de coadjuvante. Significa que a razão atua determinada por impulsos e paixões, por afetos e sentimentos. Inverter essa hierarquia é querer fazer do comandado um comandante, estragando tudo o que é orgânico no ser humano. Essa foi a maior façanha de Nietzsche. É quando ele abandona qualquer traço romântico para se tornar um dos filósofos mais realistas no panteão da filosofia. Muito antes do cinema e da literatura infestarem nossas mentes com temas de robótica e cyberpunk, Nietzsche percebia que a identidade do ser humano não é sua razão, mas as emoções, o corpo. Antes de pensar, nós sentimos, e o pensamento é produto de afetos.

A razão pode transformar o mundo, mas só quando se coloca em seu verdadeiro papel, quando se reconhece suas fraquezas. Por isso, uma educação de afetos é mais importante, ou, em outras palavras: é preciso aprender a sentir antes de aprender a pensar. Se a razão e a ciência foram ignoradas, se o mundo está como está hoje, fazendo valer capital e não vidas, o motivo é um só: o corpo fracassou, estamos doentes – em sentido psíquico e fisiológico. Para mudar o mundo, eu penso, é preciso urgentemente que sejamos capazes de dar conta de nossos afetos, senão estaremos sempre no estado atual. No louco jogo de afetos, a sociedade que não souber criar uma dinâmica para absorvê-los de forma saudável, está fadada ao medo e à desgraça. Essa sociedade vai destruir não a si mesma, mas sim os seus indivíduos.


[i] Trecho da música “Poema” de Ney Matogrosso, composição de Frejat e Agenor Neto (Cazuza). In: VIVO. Intérprete: Ney Matogrosso. Rio de Janeiro: PolyGram, 2000, 1 Disco, Faixa 6 (4min21seg).

[ii] Citação direta de DOSTOIÉVSKI, F. Memórias do Subsolo. 5ª ed. Tradução de Boris Schenaiderman. São Paulo: 34, 2006, p. 36.

Paulo Cesar Jakimiu Sabino, Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP e Doutorando em Filosofia na UFPR. Entusiasta de literatura russa. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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