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Do You Wanna Dance?

Por Paulo Cesar Jakimiu Sabino

Nietzsche - Triunfo dos Escravos • Razão Inadequada

Vejam como é o pensar. O texto da coluna de quem aqui vos escreve estava pronto. Bastava revisar e enviá-lo. Ocorreu nesse meio tempo um advérbio, uma conjunção coordenativa que não ligou orações e sim um pensamento: “mas”.

Era uma noite de 14 de dezembro de 2020 quando me enviaram uma mensagem compartilhando uma notícia: morreu Paulo César dos Santos, o “Paulinho”, integrante do grupo Roupa Nova. Formado na década de 80, os seus hits de maiores sucessos foram lançados quando eu ainda era jovem ou nem era nascido. Porém, como irmão mais novo, acabei sendo influenciado pelo mais velho a ouvir músicas que na minha infância já eram consagradas. Foi assim que peguei gosto por Doctor Jones do “Aqua”, How do you do! do “Roxette”, e claro, por “Roupa Nova” e sua memorável Whisky a Go Go – que se eternizou para mim com a voz do Paulinho nas apresentações ao vivo. Acho que essa foi a razão de ter ficado triste com a morte de alguém que eu nunca conheci – é que ainda assim deixou tantas boas lembranças.

O texto anterior falava da importância do “saber sofrer”, algo que julgava necessário nessa pandemia. Contudo, fiquei me perguntando: é preciso saber sofrer, mas quando é preciso?

Eu fazia referência à filosofia trágica de Nietzsche. Para ser preciso, sobre como ele oferecia um pensamento extremamente contundente sobre a relação dor-alegria. Sugere, no aforismo 12 de A gaia ciência, que talvez seja necessário, para jubilar-se até o céu, entristecer-se até a morte[i]. Naquele momento, isso me parecia fundamental. O “mas”, porém, me despertou de um sonho romântico nietzschiano – e me perdoem os estudiosos de Nietzsche por “profanar” seu nome associando-o com uma corrente que ele abominava, só que cá entre nós, é romântico, às vezes, até piegas. Claro, tem muita coisa aí para ser dita, só que não cabe aqui nesta coluna dissertar filosoficamente.

O interesse do momento é o trágico de Nietzsche. A vida, sendo trágica, não é nem otimista e nem pessimista, o trágico é algo entre esses dois extremos e, ao mesmo tempo, distante deles. O que Nietzsche fez – acertadamente, diga-se de passagem – foi desnudar a razão humana. Deixou a razão exposta em todas suas fragilidades, demonstrando a incapacidade desta em resolver os problemas da vida – ela não tinha nenhuma força oculta capaz de controlar nossa natureza e nossa existência. Assim é o Édipo em Édipo rei: um sábio capaz de resolver o enigma da esfinge para evitar seu destino, e que, ironicamente, é justamente seu feito que o deixa desgraçado. Desse modo, não adianta querer controlar a natureza e a vida a fim de evitar a dor. É preciso se agarrar a ela, até mesmo desejá-la. Saber sofrer, então, seria necessário. Só que sejamos justos: não há como imputar culpa à razão.

É bem verdade que nossas formas de racionalidade estruturaram um mundo cujos hábitos alimentares, mudanças ambientais e formas econômicas podem muito bem serem os responsáveis pelo vírus e pela pandemia atual. O neoliberalismo é uma forma de racionalidade, e vamos admitir, é um sistema que tolera passivamente a perda de vidas, mas não a de dinheiro. Todavia, façamos uma pausa, eu peço que reflita: quantos cientistas não avisaram sobre uma possível pandemia e foram ignorados? Quantos deles não desenvolveram técnicas para evitar o contágio ou ao menos amenizá-lo? Quantos países não enfrentam melhor a pandemia por darem um pouco de ouvidos à ciência? Enquanto nós, nesse negacionismo genocida, experimentamos diferentes perdas cotidianamente, ou então sentimentos desagradáveis derivados da incompetência de nossos governantes. Qualquer grito de esperança é apenas uma patética tentativa de apaziguar a monstruosidade inerente ao nosso governo. A esperança deve desaparecer e abrir espaço para a fúria. Não deveríamos aprender a sofrer, digo, não nessas circunstâncias, não nesse sentido. O luto seria mais fácil se a perda realmente fosse inevitável – mas houve maneiras de evitar, por isso é preciso dar algum crédito à razão e à ciência. Quantas pessoas queridas ainda poderiam estar aqui. Talvez eu ainda pudesse presenciar um show ao vivo do Roupa Nova com a participação do Paulinho. Talvez alguém ainda pudesse abraçar sua avó. Faltou sensibilidade para que a ciência não fosse recusada, porque ciência a humanidade tinha, não de impedir o vírus, mas de sofrer menos com ele. Faltou uma forma mais efetiva de enfrentar a política de morte que tomou conta de nosso país. Porém, quem sabe, talvez eu esteja errado. Talvez o Brasil, cuja uma parcela do povo tem histórico de defender ditaduras e criticar vacinas, seja um país que só vive de esperança. Talvez o brasileiro só jubila-se até o céu porque constantemente entristece-se até a morte. Se é o caso, deixemos Kant e Platão para os povos evoluídos que habitam nesse mundo, o brasileiro precisa mesmo é do Nietzsche.

Precisa do trágico para aprender a sofrer, e, quem sabe assim – me perdoem pelo inevitável uso do clichê – ser constantemente lembrado que “um sonho a mais não faz mal”[ii]


[i] Citação indireta do aforismo 12. NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Cia das Letras, 2011, p. 63.

[ii] Trecho da música “Whisky a Go Go” do grupo Roupa Nova, composição de Michael Sullivan e Paulo Massadas. In: ROUPA NOVA. Intérprete: Serginho/Roupa Nova. Brasil: RCA Records, 1984, 1 Disco, Faixa 7 (4min09seg).

Paulo Cesar Jakimiu Sabino, Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP e Doutorando em Filosofia na UFPR. Entusiasta de literatura russa. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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