Minha trajetória na psicologia, que hoje soma mais de três décadas, foi profundamente moldada pela obra de B. F. Skinner. Desde os anos de graduação, o contato com o Behaviorismo Radical não foi apenas uma escolha teórica, mas o alicerce de minha prática docente e clínica. Ao assumir a cátedra, percebi o desafio recorrente de diferenciar a ciência do comportamento proposta por Skinner da psicologia S-R (Estímulo-Resposta) de John B. Watson. Enquanto o behaviorismo metodológico de Watson limitava-se a uma análise mecanicista, Skinner operou uma mudança de paradigma: ele não descartou o mundo interno, mas integrou-o a um contínuo interacional. Como o próprio autor esclarece, “o behaviorismo radical […] não insiste na verdade por consenso e pode, por isso, considerar os eventos ocorridos no mundo privado dentro da pele” (Skinner, 1974).

Skinner compreendeu que a psicologia só alcançaria o status de ciência natural se adotasse o rigor experimental. Ao utilizar organismos não humanos, como pombos e ratos, estabeleceu um método para isolar variáveis de controle que seriam impossíveis de observar com a mesma clareza em humanos. A transição do conceito de reflexo para o de comportamento operante — em que a probabilidade de uma ação é função de suas consequências — marcou a superação da visão passiva do sujeito.

A transição desta teoria para a prática educativa e clínica não é apenas um exercício técnico, mas um ato ético. As contingências não operam no vazio; elas configuram um contexto onde o aprender ocorre através de uma inter-relação contínua entre o organismo e o meio. Sob essa ótica, a eficácia do ensino reside no arranjo planejado do ambiente. Quando o educador utiliza a tecnologia de ensino — pautada em reforço positivo e no modelamento por aproximações sucessivas —, a aprendizagem deixa de ser uma imposição aversiva. Skinner (1968) foi enfático ao criticar os métodos tradicionais baseados na punição, apontando que “o estudante gasta grande parte do seu dia acadêmico esquivando-se ou escapando de estímulos aversivos“. Em oposição a isso, defendemos um ensino onde o erro seja visto como um dado valioso sobre a necessidade de ajustes nas contingências, e não como um gatilho para a frustração.

Como analista do comportamento e educador, entendo que a avaliação não pode ser um evento isolado ou puramente técnico; ela é o acompanhamento do ritmo ontogenético e do “caminhar” de cada sujeito. O desafio é criar condições para que o aluno não apenas adquira novos repertórios, mas generalize esse conhecimento para além do ambiente educacional. É aqui que Skinner se revela um humanista: ao nos convidar a compreender os comportamentos privados — os pensamentos, as emoções e o simbólico — não como causas mentais, mas como eventos que também estão sujeitos às leis do ambiente.

Ao conhecer o aluno em sua totalidade e dividir metas complexas em passos pequenos, o professor não apenas transmite conteúdo; ele constrói as condições para o exercício da autonomia. Skinner foi, de fato, um homem à frente do seu tempo. Ele não buscou apenas entender a lógica por trás de cada intenção moldada pelas contingências, mas propôs uma visão de ser humano que, ao compreender as forças que o cercam, torna-se capaz de modificar o seu próprio ambiente. Afinal, como sintetizado em sua obra de 1953, “o homem, de todos os animais, é o único que se mostra capaz de controlar seu próprio destino” (Skinner, 1953).

Nesse sentido, reflito sobre a minha própria trajetória com profunda gratidão pela oportunidade de ter conhecido o pensamento skinneriano ainda na graduação e de lecionar, por tantas décadas, o Behaviorismo Radical. A docência, sob esta ótica, reafirma-se como o alicerce da sociedade: ao gerar o prazer em conhecer, ela prepara o indivíduo de forma íntegra para influenciar e ser influenciado, em busca de uma existência socialmente mais humana e produtiva.

Espero, sinceramente, que surjam novos estudantes e curiosos da ciência do comportamento, dispostos a dar sequência a uma psicologia fundamentada em uma epistemologia científica que extrapola a visão dualista e abraça o monismo, enxergando o homem em sua plenitude. Que surjam novos pesquisadores e que a sociedade ganhe com essa postura. Fica aqui o meu reconhecimento a Skinner por ter proporcionado tanta felicidade em minha jornada como analista do comportamento, tanto no exercício clínico quanto na vida acadêmica.

Referências

CATANIA, A. C. Learning. 4. ed. Upper Saddle River: Prentice-Hall, 1999.

KELLER, F. S. Good-bye, Teacher… Journal of Applied Behavior Analysis, v. 1, n. 1, p. 79-89, 1968.

SKINNER, B. F. Science and Human Behavior. New York: Macmillan, 1953.

SKINNER, B. F. Verbal Behavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957.

SKINNER, B. F. The Technology of Teaching. New York: Appleton-Century-Crofts, 1968.

SKINNER, B. F. About Behaviorism. New York: Knopf, 1974.

SKINNER, B. F. Selection by Consequences. Science, Washington, v. 213, n. 4507, p. 501-504, 1981.

Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br

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