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Em tempos de burrice, não seja burro

Por Fabrício Santiago Almeida

Estamos vivendo tempos difíceis. Não, não estou falando da pandemia, mas me refiro ao tempo da burrice. Cada dia mais as pessoas valorizam a estupidez, o negacionismo, a falência do gosto musical, a falta de leitura…. Poderia até enumerar mais algumas características da burrice atual, mas vou me ater em uma, a saber, a exposição de frases de filósofos sem nenhum contexto nas redes sociais. Essa improbidade intelectual, que estou chamando de burrice, se percebe principalmente em leituras de filósofos como Marx, Schopenhauer e Nietzsche. Claro que há autores de outras áreas, mas prefiro falar dos filósofos que são apresentados nas redes como “os impactantes”.

O autor d’O Capital, livro não lidos pelos que os citam nas redes, é sempre lembrado por aqueles que desejam ser vistos como politicamente subversivos. Poderiam ler O manifesto do partido comunista e já seria uma boa iniciação ao pensamento do autor. Schopenhauer, quase sempre lembrado como pessimista e carrancudo é, talvez, o mais citado nos últimos tempos. O autor de O Mundo como vontade e como representação, que não é só pessimista ou resmungão, tem sua contribuição filosófica ofuscada pelas frases citadas fora de contexto, ou para simbolizar uma falsa erudição daqueles que assim procedem nas redes. Por fim, Nietzsche. Este, o mais iconoclasta dos filósofos. Serve a todos os gostos, ou seja, justifica neofascismo, pseudointelectuais, esquerda caviar, etc. Frases impactantes são encontradas facilmente nos stories. A turma do crossfit sempre usa a sentença: “o que não me mata me fortalece”. Será que leram o Crepúsculo dos Idolos? Entenderam o que o filósofo quis dizer? Quem nunca ouviu falar da morte de Deus? Ou, Nietzsche matou Deus, ou Deus matou Nietzsche? A tese de um dos mais importantes filósofos da contemporaneidade se tornou piada para os incautos. A burrice nos rodeia…

Como sair dessa condição de supervalorização da burrice? Já sabemos que citar frases de filósofos iconoclastas não resolve. As redes sociais não são caminho para intelectualidade e confiabilidade de informações. Claro, existem grupos sérios nas redes, e principalmente em tempos de reclusão, os cursos, as lives de professores sérios nos ajudam bastante. Mas só isso não basta, precisamos ler os autores, contrário disso, ficaremos repetindo. Essa repetição que enche de orgulho a burrice, não passa de uma ilusão, ou o véu de maia como bem disse Schopenhauer.

A ideia de repetição só é louvável nas poesias como faziam os Aedos na Grécia arcaica. Ainda hoje, essa prática é uma maneira dos intelectuais se manifestarem na estética da mimesis. Porém, repetir frases aleatórias de filósofos, para garantir algum título de intelectual ou autopromoção, nada mais é do que o culto à burrice. Como diz o filósofo espanhol Ortega Y Gasset: “A diferença entre o burro e o inteligente é que o burro é burro sempre. O inteligente sabe que a inteligência é a luta constante contra a burrice”. Percebe-se que o papel do filósofo é o combate à estupidez e a burrice, mas está sendo usado, nos últimos tempos, justamente para celebrar a estupidez humana. Portanto, em tempos de burrice, não seja burro! Não valorize a estupidez!

Fabrício Santiago Almeida, Graduado em Filosofia, Mestre em Filosofia e Doutorando em Filosofia. Professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

E-mail: fabricio.almeida@ufms.br

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