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Tobias Barreto, um condoreiro esquecido

Por Charles Santiago

Entre um gole e outro da beberagem etílica, no sofá da sala, gravitando sobre a verve humana, a vida e sua dimensão ficcional, com o condor solitário, fui atordoado por um sentimento: “D’arvore o espectro soturno, O tronco velho de pé. Espanta o viajor noturno, que lhe pergunta: — quem é?”.

A carcaça extenuada, cheia de devaneios, talvez, entorpecida pelo néctar dionisíaco, ou quem sabe, extasiada com Dias e Noites, ficcionava entre um gole e um verso. Incerta, embebecida, dialogava com o poeta, ouvia suas palavras, imaginava seus tormentos, confabulava com ele – às vezes, nosso adversário, com quem travamos batalhas, é somente um espectro, sua força é nosso amedrontamento.  Atormentados, entregamo-nos ao destino, aceitamos o seu arbítrio, como se existisse força e poder sobre nossa peleia cotidiana.

O destino é como o tronco velho que, no breu noturno, amedronta o viajor, problematiza o caminho, mas é digno de questionamento:  quem é?

Longe do caráter inflexível, questões como pátria, raça e família, a resposta é carreiro, mas também é teimosia, aventura, valentia … a vida que se quer fazer, o ato biográfico, inglório, por vezes, mas intransferível, insubornável e auspicioso: faina poética.

Impacientado com a conversa, aquela confabulada, achando por bem diminuir nos tragos, com o livro em punho, pus-me a refletir, na verdade, pensar sobre uma alma avexada, o desengonçado, mestiço e pobre, o ilustre filho do Nordeste, Tobias Barreto de Menezes. Pensador que, com Castro Alves, representa a expressão máxima da poesia condoreira. Mas não é só isso, o pobre-diabo fora filósofo, jurista, escritor e musicista. Não menos importante, um boêmio, professor, político e jornalista.

Gandaieiro, com um gosto musical apurado, sem contar sua habilidade com o violão, custou-lhe a vocação de seminarista católico. Certa feita, na cidade de Salvador, aquela que, segundo Freyre, “é lugar de cores quentes, carnes morenas, gostos picantes”, no interior do convento onde morava, com saudades de casa, coberto por um céu mole, de estrelas chameguentas, com ar de boemia, tomou nas mãos seu violão,  entoou suas modinhas, infernizando a paz dos infelizes.

Os eclesiásticos, aperreados com a cantoria, não tardaram em expulsá-lo. O poeta inflamado, amostrado em música e com personalidade altiva, deixou seus versos como resposta: “Se os anjos cantam o fazem para agradar a Deus, o que prova que Deus é alegre também. Se aqui é triste, qual é a casa de Deus? Eu não quero viver onde Deus não penetre”.

Moço pobre, mestiço, sem lastro familiar, mas ousado, valente e polemista: “nem tenteis impedir-me a passagem, que não curvo a cabeça a ninguém. Para entrar nos combates da sorte, tenho azas e garras também”, eram seus versos de briga.

Ciente do seu lugar no mundo, um desafortunado, com as agruras da escravidão, sergipano, filho dos sertões do Rio Real, fez do estudo seu esporte de combate, desafiando o que lhe prometera o destino: “pobres ervilhas brotarão viçosas, e o esquecimento brotará também”, o grão lançado  haveria de florescer, mesmo em terreno pedregulho ― no Brasil dos brancos.

Sua labuta ultrapassou o mundo da poesia, batalhou no campo da política, do direito e do conformismo retórico, a genuína filosofia de gabinete, o saber dos arautos! No tempo de Tobias, não sei se mudou muito, era preciso dominar as línguas, não conta a língua indígena, de sinais, não são importantes. Para alguns abestados, isso nem é língua.

Quem bem sabe disso é Quaresma, o major adoidado, pois fora ele quem sacou o nosso infortúnio, compreendendo o nosso amolengado jeito de ser, qualquer outra língua que não fosse o tupi-guarani bestializava os nossos sentimentos.  Qualquer expressão haveria de ser, na sua cachola, fria, mensurável, estática, nunca, sobre nenhuma hipótese, verdadeira, plural, aberta e profunda. Mas, assosseguemos o Lima.

Pois bem, no Brasil de nosso condor esquecido, bom mesmo era ser metido no francês, fazer biquinho, dobrar os beiços para falar, pois além de ser chique, galardoava o título de intelectual.

Avexado com sua condição de desafortunado, por ele mesmo versada: “no meu sepulcro não terei as rosas, as doces preces que os felizes têm; no pó que habito não terei as rosas, as doces preces que os felizes têm”, dominava o latim, familiarizava-se com o francês e, sozinho, aprendeu o alemão, mais do que isso,  tornou-se um especialista, constituiu o que se conhece hoje como o germanismo tobiático.  É digno de nota, que foi um dos maiores representantes da língua germânica no Brasil, basta saber que esse mestiço arretado foi quem, por primeiro, citou em terras tupiniquins, diretamente do original, ninguém menos que Karl Marx e Friedrich Nietzsche.

Estabelecia, por correspondências, um canal de diálogo com os intelectuais germânicos, fazia circular, em terras nordestinas, um jornal escrito em alemão, abusando-se e lambuzando-se, nos jornais da época, da língua e da cultura alemã, não só como afronta aos seus adversários,  os afrancesados, mas para além disso, como intérprete de um Brasil mais igual, considerando sua regionalidade, suas culturas no contexto com outros mundos.

O germanismo tobiático revolucionou o juridicismo brasileiro, o dogmatismo positivista: “não devemos ficar adstrito à letra fria da lei, é preciso colocá-la no mundo da cultura”. Nas palavras de Beviláqua, aquele que redigiu, de próprio punho, o Código Civil Brasileiro, o direito tem uma dívida com Tobias, porque seu pensamento transformou as estruturas do mundo jurídico.  Nas palavras do jurista esquecido: “o direito não é um filho do céu, é simplesmente um fenômeno histórico, produto cultural da humanidade”, a alma de homens e mulheres que fazem cotidianamente a vida acontecer.

Como político, acastelou a emancipação feminina, na Câmara Provinciana do Recife, contra o machismo de seu tempo, coisa que não parece distante. Ao lado das mulheres, defendia que uma moça tivesse o direito de atravessar o atlântico para estudar medicina, coisa impossível em sua época. Com a força da poesia, avassalada por um toque filosófico, com seu entusiasmo de oratória, irrompeu contra os machistas, venceram as mulheres, pois foi outorgado o direito. Vitorioso, avançou, apresentou o projeto de Lei de n. 129/1879, educação pública, com inclusão das mulheres, pois segundo Tobias é preciso “fazê-la entrar com o homem na partilha dos mais altos gozos da vida, que são os gozos da inteligência”.

Há muito o que dizer, mas impossibilitado de reflexão séria, já tomado pelo espírito da beberagem, com os lábios salivando, deixo o esquecido poeta, sabe Deus o motivo, talvez sua origem geográfica, mas essa é uma querela para outro momento. Agora, como último suspiro, abeirando-me da embriaguez, despeço-me com uma lembrança tobiática, a hora de sua morte:

“Relógio da minha vida, que a desgraça adiantou, a hora da despedida meu coração já soou. Bate-me o peito, entretanto, dos olhos corre-me o pranto, cujo amargor é tão bom! Pois eu choro? Ó sorte crua! Também o mármore sua, também o bronze dá som!”.

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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