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O que você diria?

Por Illyana Magalhães

Digamos que eu e você, caro leitor, estejamos diante de abstrações vivenciais, tais como a beleza, a vida, a morte, a solidão, o tempo e o amor. Qual dessas abstrações você seria? Uma? Duas? Nenhuma?!

Digamos, sob uma outra vertente, que você precise escrever uma carta ao amor, ou até mesmo dialogar com ele. O que você diria? Diria que você o engana quando “ama” por interesse, carência ou necessidade de atenção? Diria que o engana, pois “ama” para suprir convenções sociais que nos foram impostas precocemente ou diria que ama sem saber o porquê, simplesmente por amar?!

Digamos que você seja uma junção de todas essas abstrações, tal como sou uma junção de amor, tempo, vida e morte. O que você diria ao tempo se estivesse sentado com ele agora, nesse exato momento? Ou com a morte, por exemplo?

Encontro-me sentada nesse exato momento. Sim, sentada, pois às vezes escrevo andando pela casa ou gravando para depois transcrever. E, ao sentar, com um frio que me é comum tanto externo quanto interno, penso que diria à vida que é bela por si só. A chamaria para brindarmos com o tempo, que me é escasso e ao mesmo tempo tão abundante.

Ao tempo, diria que passasse devagar, pois cada segundo que se esvai é um convite à morte, que se aproxima diariamente. E eu o diria que, por mais que minha vida seja regida pelo tempo, eu o odeio vê-lo passando. Talvez por isso minha casa não tenha relógios. Não me perguntem que horas são. Não há possibilidade de saber que horas são agora, por exemplo, pois há um selo no espaço que pertenceria ao tempo e à data em meu computador, duas grandezas nas quais não tenho controle. Não uso relógios e o tempo em que os usava, eram apenas adornos. Somente sei que horas são, pois sou interrompida por alarmes que insistem em trazer-me à realidade.

Penso que à beleza, eu teria um zelo maior, dada sua subjetividade. Há muita beleza oculta, travestida de ignorância reprimida, suprimida na fala contida. Diria, inclusive, que há muita cegueira deliberada. Há muita beleza em todas as abstrações ditas anteriormente. Há beleza na vida, na dor, na morte, no tempo, no amor que, embora apareça por último, penso ser a mais bela de todas as abstrações.

Se o amor interrompesse a conversa, eu o diria que meu corpo transpira, de modo a senti-lo em todos os momentos possíveis. Amo a vida, amo o tempo, amo senti-lo em meu peito como se fosse rasgá-lo. Amo sua amplitude e o amo mais ainda por permitir que essas palavras sejam um reflexo do amor mais genuíno que poderia sentir. Amo a possibilidade de trazer irrealidade à escrita. Não escrevo, ao contrário do que muitos acreditam, para fugir de uma loucura aparentemente forjada sob um viés intelectual. Escrevo porquê é algo que pulsa. Escrevo por amor, do contrário calaria.

Agora, se a morte me convidasse para um diálogo, eu o pediria que se aproximasse um pouco mais, não por querê-lo, até porque a vida me apetece, seja boa ou ruim. Abraço-a com todos os seus dissabores possíveis. A aproximação permite afinidades, permite que eu o desbrave antes que meus olhos se fechem, abertos para a vida que estão.

Seria, portanto, um belo diálogo. Entre quem vos escreve, vida, morte, beleza, amor e tempo. Abstrações presentes na palma de nossas mãos, mas por vezes desprezadas, ignoradas (in)conscientemente.

Talvez por medo, receio, quando na verdade amamos, vivemos, perdemos e morremos todos os dias, uns em vida outros apenas quando os olhos finalmente se fecham a sete palmos abaixo da terra.


Illyana Magalhães
é advogada, aspirante a filósofa e escritora. Colunista do Factótum Cultural

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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