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Alejandra Pizarnik: Poética da imanência e do silêncio

Por Karine Bueno Costa

Dois livros de Alejandra Pizarnik, sombria e genial poeta ...

O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.

Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas, p.371)

El lenguaje del silencio engendra fuego. El silencio se propaga, el silencio es fuego”.

 (Pizarnik. El Infierno musical. p. 288)

Na historiografia contemporânea, uma das maiores experiências para se atingir o silêncio foi realizada por John Cage, em 1951. Com o objetivo de capturar o silêncio absoluto, o compositor entra em uma câmara anecoica de Harvard, em Cambridge, longe de quaisquer ruídos e ecos, mesmo assim, consegue escutar dois sons, um grave  e um agudo: os de seu corpo, ritmo sanguíneo e de seu sistema nervoso, respectivamente. Como resultado, Cage revela a impossibilidade do silêncio em si. Em um de seus textos, Lecture on nothing, afirma: “O que pedimos é silêncio, mas o que o silêncio nos pede é que continuemos falando”[1] (GAGE, 1959, 109). Ou seja, há uma impossibilidade de atingi-lo, e somente com a palavra/som torna-se provável.

Desse modo, empiricamente, é válido afirmar que, atingir o silêncio absoluto é quimérico, quiçá, na morte. No entanto, entre as palavras, até na música,  há silêncio, e  é impossível dizer sem silêncios. Como dizia Brecht, falar é uma forma de encontrar silêncio por trás das palavras. Ainda, se a escritura é a destruição de toda voz, de toda origem, se o autor  de um texto não se apresenta como sujeito em sua obra, morre para se autorrepresentar, como apontou Roland  Barthes, em  A morte do autor ( 2004, p. 57), nessa morte metafórica, não haveria o silêncio puro?  O silêncio como imanência do sujeito escritor? Esses questionamentos e  desejo latente, de taciturnidade sonora e silenciosa,  permeiam a obra poética de Alejandra Pizarnik, na tentativa de captar o silêncio puro, no não dito e permanecer, de algum modo, na sonoridade das palavras.

Nesse viés, o silêncio poético é semelhante à morte, devido ao desaparecimento do escritor. Giorgio Agamben, em Profanações, no texto “O autor como um gesto” (2007),  aponta que, na escrita,  a grande marca do sujeito está em sua ausência. Não se trata, nessa visão, da amarração de um sujeito em uma linguagem, mas da abertura de um espaço, onde o sujeito que escreve não para de desaparecer. Subjaz, dessa maneira,  que o intuito  de Alejandra Pizarnik, poeta argentina, em seus escritos, é encontrar na morte do eu no texto, desse autor que ganha corpo e espaço, mas no reverso do espelho da página, o silêncio total. E, nesse olhar narcisístico, na folha em branco, encontrar-se e perpetuar-se como ser, no silêncio.

Em um poema de Extracción de la piedra, a poeta inseja: “Aun se digo sol e luna y estrella me refiero a cosa que me suceden. Y que deseaba yo? Deseaba un silencio perfecto. Por eso hablo” (2000, p. 243). Fala para recuperar ou atingir esse silêncio absoluto, assim, o escritor consegue adentrar como imagem ausente,  entre as palavras, no silêncio. No entanto, questionamo-nos: é possível atingir esse silêncio perfeito da palavra, nos espaços vazios da escrita?

Em fragmento de Silence, Cage diz: “Não tenho nada a dizer e estou dizendo-o”[2] (CAGE, 1959, p. 51), logo, a palavra possui o grau zero da escrita, definido por Barthes e Blanchot, em que o eu se torna um outro, no não dito. Há uma ausência da voz do autor presente na escrita, e isso faz com que exista uma poética do silêncio. Para Pizarnik,  esse silêncio da palavra se propaga de forma ígnea pela linguagem: “El lenguaje del silencio engendra fuego. El silencio se propaga, el silencio es fuego” (Pizarnik, 2000, p. 288).

Para analisar de modo mais afinco a poética da imanência e do silêncio na poesia de Pizarnik, vejamos o que a escritora argentina confabula em poema intitulado “Fragmentos para dominar o silencio”, de Los trabajos y la noches: “Las fuerzas del lenguaje son las damas solitarias, desoladas, que cantan a través de mi voz que escucho a lo lejos. […] ¿Dónde la verdadera muerte? He querido iluminarme a la luz de mi falta de luz. Los ramos se mueren en la memoria. La yacente anida en mí con su máscara de loba. La que no pudo más e imploró llamas y ardimos” (2000,p. 223).  A partir desses versos, percebe-se que o eu insurgido da imagem poética confunde-se com quem escreve os versos, escuta ao longe sua própria voz, ainda que com máscara de loba, ou seja, encenando, assim, ocorre a  conjunção da ausência presença, a qual queima como fogo linguístico, de modo metafórico e imagético, é claro. Castro (2007) teoriza que cada palavra  poética é o núcleo de múltiplos sentidos e possibilidades de revelação: “diante da riqueza ofuscante e da ressonância sem limites da linguagem do silêncio, movem-se na fonte inaugural das imagens poéticas. Uma imagem é sempre um ditar sonoro-visual do silêncio” (2005, p. 18).   No mesmo poema, a poeta argentina, prossegue: “No es muda la muerte. Escucho el canto de los enlutados sellar las hendiduras del silencio. Escucho tu dulcísimo llanto florecer mi silencio gris” (Pizarnik, 223). Dessarte, permanece, de algum modo, na palavra, no não dito, nas entrelinhas. O silêncio torna-se a travessia e  atinge-se de alguma forma a poética silenciosa, por isso fala, por isso escreve, para salvar a si mesma, para encontrar-se no silêncio da linguagem: “Si  morir es memoria cerrada/ Yo trabajo  el silencio/ lo hago llama” (p. 315).  A  folha torna-se o espelho de Narciso: “Algo caía en el silencio. Mi ultima palavra fue yo pero me refería al alba luminosa” (Pizarnik, 243). A escrita de si é a tentativa de salvar seu eu no silêncio das palavras, como Derrida escreveu, a escritura é a saída como descida para fora de si: “escavação no outro, em direção do outro em que o mesmo procura o seu veio e o ouro verdadeiro do seu fenômeno (DERRIDA, 2009, p. 40-41). Nesse encontro no silêncio, a voz deixa de ser: “temo dejar de ser/ la que nunca fui/ beber el silencio/ adentro del silencio”. (p. 334). 

Por fim, este verso define bem sua poética da imanência e de tentativa do  silêncio absoluto: “el silencio es de oro e la palabra de prata” (200, p. 294). E o fim da travessia é o silêncio perfeito.

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, G. Profanações. Trad. Selvino José Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007.

CAGE, J. Lecture on nothing. Wesleyan University Press:  1959.

CASTRO, M. A. A questão e os conceitos. In. Caderno do Seminário Permanente de Estudos Literários / CaSePEL – Nº 4.  Dezembro, 2007. Rio de Janeiro: Publicações Dialogarts, 2007.  71 p. ISSN 1980 – 0045.

BARTHES, R. A morte do autor. In ______. O rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BLANCHOT, M. O Livro por vir. Trad. Leila Perrone–Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

DERRIDA, J. A escritura e a diferença. Trad. Maria Beatriz Marques Nizza da Silva, Pedro Lopes e Pérola de Carvalho. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2009.

PIZARNIK, A. Poesia Completa. Lumen: 2000.

ROSA, G. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Nova Aguilar. 1994.


[1] “What we re-quire is/ silence;/ but whta silence requires/ is that I go on talking (GAGE, 1959, 109).

[2]  “I have nothing to say and I am saying it” (Cage, 1959, p. 51).

Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura. Colunista do Factótum Cultural.

 Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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