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Condessa Sangrenta como livro paradidático: teoria inicial e prática para o filosofar e escrever

Por Marcelo Neves

Aventuras na História · Condessa Sangrenta: a mais sádica serial killer da  História

Introdução

Defendemos, com este pequeno texto, a possibilidade de textos originais de autores latino-americanos tornarem-se livros paradidáticos, nas aulas de filosofia, no Ensino Médio. Contexto histórico, características dos autores com relação à escrita, influências de autores estrangeiros no pensamento, reflexão e ação escrita e reelaboração e recriação de idéias são algumas contribuições percebidas. Clássicos enxutos em páginas, mas profundos em mensagem, em doutrina, em problematização. Assim, encontramos a filosofia nos quatro cantos do orbe; não é diferente aqui no Brasil, nem nos países em torno de nós.

A primeira parte aborda como um exemplo de prática pedagógica com autores latinos, o texto Condessa Sangrenta, de Alejandra Pizarnik, de publicação aqui no Brasil pela Editora Tordesilhas. Nessa parte, estabelecemos uma relação intensa na obra entre o existencialismo e o surrealismo. Ambos se interconectam no texto, mostrando-se identificáveis nas complexas estruturas do ser humano, especialmente na personagem principal do texto.

A segunda parte julga importante e valioso o livro como um instrumento pedagógico para discutir filosofia contemporânea. Por isso, indicamos a obra para trabalhar com alunos do terceiro ano do Ensino Médio. Os procedimentos indicados são frutos de pesquisa, debate e sistematização com outros temas e disciplinas, todavia, adaptáveis para a obra em questão.

Teoria inicial para o Filosofar e Escrever

Uma interessante obra literária desperta inúmeras discussões filosóficas nos alunos de Ensino Médio. Indicamos sua abordagem como um celeiro de temas atuais em Filosofia com os alunos, pois esta obra é de uma filósofa da América Latina, de nacionalidade argentina. 

Com possibilidades de conceituar e exemplificar o surrealismo ou analisar os tipos processuais de uma ditadura, o texto escrito é uma manifestação da interioridade em contraposição com existencialismo em sua vertente mais comum: uma reflexão sobre o existir humanos e suas ações. O título dessa preciosidade é Condessa Sangrenta, escrita pela filósofa e poetisa Alejandra Pizarnik (1936-1972).  Em língua portuguesa, a obra é publicada pela Editora Tordesilhas.

Por que trabalhar com essa obra, em filosofia no Ensino Médio? 

Primeiro porque a obra, de poucas páginas impressas e abordando comportamentos humanos, tem uma variedade de ilustrações e escrita em prosa poética. O manuscrito contrasta com diversas dissertações volumosas e de desafios de leituras complexas e exaustivas para os leitores, apresentando exemplos sorrateiros, rápidos das ações impiedosas da personagem principal chamada Erzsébet Báthory.

Pizarnik quer nos apresentar a pluralidade textual no processo de filosofar. Ademais,  ao mostrar desdobramentos  aos  leitores, pode estimular outras produções, pois plurais são os discursos filosóficos a ler e produzir: prosa,  poética,  epístola,  diálogos,  dissertações…

O texto também nos insere no harmonioso encontro entre Filosofia e Literatura. A Literatura será uma descrição enfadonha de sequências narrativas caso não convide o leitor para reflexão a partir de tipos dos personagens, do desenvolvimento do enredo, da inteligência das sequências narradas, descritas. O além dos fatos escritos são percepções, são elementos que a filosofia, quando em autêntica simbiose  com o contexto literário, se apresenta no intelecto do leitor, inserindo-o na obra,  despertando-o para reescrever, interpretar, ser personagem do enredo como vivente e redator.

Assim, mergulhando no conteúdo da obra dentro da obra literária, observamos que os tipos humanos que a compõem revelam como os humanos são seres de infindáveis abismos. No que consistem tais abismos humanos? É, em sentido figurado, uma situação extrema de perversidade profunda. São falhas morais modeladas em situações cruéis e traduzidas na vivência cotidiana de um indivíduo. 

Especificamente na história, abismos humanos não porque mulher em busca de juventude eterna somente. Mas por causa da crueldade de ser humano para ser com outro ser humano. Por suas cruéis atitudes, fica evidente que Erzsébet Báthory é um metáfora da existência humana, de tipos humanos. O livro foi publicado em 1971, período auge da cruel ditadura argentina. Não está embutido aí uma visão deste período em que Pizarnik viveu na carne? Não será também uma metáfora das perspectivas da autora,como crítica velada a uma das ditaduras mais sanguinárias da América Latina? 

Separamos do texto alguns abismos humanos presentes na personagem principal, a condessa sangrenta (Erzsébet Báthory):

Perversão sexual e a demência da condessa; (…) beleza convulsiva. (PIZARNIK, 2011, pg7)

A condessa, sentada em seu trono, contempla. (…) Já consumado o sacrifício, toca-se outra pedra do colar: os braços caem, o sorriso se fecha assim como os olhos, e a assassina volta a ser a “Virgem” imóvel em seu féretro. (pg11)

A condessa aderia a um estilo de torturar monotonamente clássico (pg17). 

Durante suas crises eróticas, escapavam de seus lábios palavras procazes destinadas às supliciadas. Implicações soezes e gritos de loba eram suas formas expressivas enquanto percorria, excitada,  o tenebroso recinto. (pg18).

(…) boca costurada pela própria condessa (pg 20). 

Abismos humanos também na sua criada Dorko, que arrasta jovens, puxando-as pelos cabelos e  colocando-as dentro de instrumentos de tortura: A criada Dorko arrasta pelos cabelos uma jovem nua; tranca-a na gaiola (pg.15); 

Abismos humanos em outros membros da família de Báthory. Na página 26,  a autora elenca alguns personagens familiares: tio Istvan (confundia o verão com o inverno, andando de trenó na areia, um simulador de papai-noel e neve); primo Gábor (paixão incestuosa com a irmã, que aceita tal paixão); tia Klara (assassinou dois maridos e foi morta com o amante, pelo terceiro marido).

Abismos humanos no esposo chamado Ferencz Nadasdy, violento na guerra, mas “inocente” quando na companhia da esposa: 

[…] achegava-se a ela durante as tréguas bélicas impregnado do cheiro dos cavalos e do sangue derramado – ainda não havia fixado as normas de higiene (…) O guerreiro não admitia ser importunado com histórias que relacionavam sua mulher com mordidas, agulhas, etc. (p. 29-30).

Encontramos, na obra, um esforço da autora em colocar nas ações da personagem, tipos específicos da corrente artística surrealista. Erzsébet Báthory é claramente uma mulher surrealista, pois Alejandra Pizarnik era uma apaixonada pela arte e seus desdobramentos.  Um diálogo que acontece da primeira à última página do livro, enriquecido pelos diversos desenhos de autoria de Santiago Caruso (@santiagocaruso.art).

Sobre as partes expressivas do surrealismo, conseguimos catalogar algumas com base nas seguintes cenas do livro:

a) Léxico psicanalítico e valorização do inconsciente: é necessário que saibamos o seguinte sobre psicanálise: vários autores deram formulações diferentes. Alejandra Pizarnik aproxima-se da psicanálise de Freud (1856-1939), onde o ego e o id com suas armas escondidas no inconsciente humano, ilógicos e sem limites de regras como as que a sociedade nos impõem, se unem na figura da condessa. A análise precisa provém de homens inteligentes, silenciosos, orientados  por uma longa experiência de análise de outros seres humanos; os analistas passam a questionar, a virem atentamente, a escrever os relatos. Estes psicanalistas exercem, mesmo que não reconhecidamente, ofício de um cientista, pois observa, reflete,  escreve. A psicanálise ora são conceitos presentes no texto: perversão sexual, demência, excitada, melancólica. Ou conceituamos, ou apenas citamos onde aparecem alguns? Rompemos a dúvida apelando para as citações:

A perversão sexual e a demência da condessa Báthory (pg.7).

Imprecações soezes (torpes) e gritos de loba eram suas formas expressivas enquanto percorria, excitada, o tenebroso recinto (p.18).

e a próposito de espelhos: nunca puderam ser esclarecidos os rumores acerca da homossexualidade da condessa, ignorando tratar-se de uma tendência inconsciente ou se, ao contrário, aceitou-a com naturalidade (p. 33).

Mas existem remédios fugidios: os prazeres sexuais, por exemplo, por um breve tempo podem apagar a silenciosa galeria de ecos e de espelhos que é a alma melancólica (p. 34).

b) Criação de cenas irreais, com valorização da fantasia, da loucura: É o momento da criação da mente doentia ou que esteja precisando de boa saúde para exercer com segurança e sem hesitar as atividades rotineiras, cumprindo o que está em consonância com equilíbrio mental e corporal. Quando falta esse equilíbrio  ou noções do espaço e do tempo daquilo que está em nosso redor, quando faltam nutrientes que alimentam o cérebro pois ele precisa destes reforços  para continuar suas funções, a mente fica confusa, suas ‘engrenagens não se combinam, o tempo de rodagem de uma roldana destoa das demais e numa clara manifestação de que ela está doente aparece em diversos desses sintomas’ – entre os quais há cenas  irreais: 

Seu tio Istvan, por exemplo,  estava tão louco que confundia o verão com o inverno, fazendo-se arrastar de trenó pelas ardentes areias que para ele eram caminhos nevados (p. 26);

Até podem iluminar esse recinto enlutado e transformá-lo em uma espécie de caixinha de música com figuras de vivas e alegres cores que dançam e cantam deliciosamente (p. 34).

c) Fusão dos sonhos e da realidade num todo único: tornam viáveis caracterizar este fragmento a partir do léxico ligado a sonhos e a realidades. Aos sonhos destacamos olhos postos em parte, transe, metamorfoses, expressões que sugerem vagar, devaneio, imaginação; à realidade, consideramos como relevantes as expressões: cravar afiados aços, açular (provocar) a prisioneira:

Vermelho atiçador em mãos, Dorko açula a prisioneira que, ao recuar –  e eis aqui a graça da gaiola -,  crava por si própria os afiados aços  enquanto seu sangue emana sobre a mulher pálida,  que o recebe passível com os olhos postos em parte alguma.  Quando se repõe de seu transe,  afasta-se lentamente. Houve duas metamorfoses:  seu vestido branco agora é vermelho e onde houve uma moça há um cadáver (pg. 15).

Diante dessas imagens fortemente surrealistas apresentadas, é conveniente ver o quão este movimento artístico é presente na obra a condessa sangrenta.  Seguramente a autora quis colocar seu personagem Erzsébet Báthory,  como uma mulher com traços fortemente elaborados sob o olhar atento do movimento realista.

E o movimento existencialista, como encaixá-lo na história e ver a existência de fato, de uma contraposição na prosa poética condessa sangrenta? A vivência da condessa, vivido aqui identificado como torturas, rituais constantes de embelezamento, sugeridos como troca de vestido, perfumar-se, ter um espelho e ficar horas diante dele. É dessa vivência identificada no âmbito dos frios cômodos do castelo com pisos ensanguentados, que a personagem constrói sua essência. Ser cruel é sua natureza, natureza moldada em ações com fins essencialmente agradáveis ao ego, ao prazer, ao fartar-se insaciavelmente.

A temática existencial continua com um desdobramento nos capítulos finais do livro. Diante de um espelho, passa imagens das crueldades promovidas e permitidas pela condessa. As cenas trazem reflexões acerca da sua responsabilidade frente ao outro, abafada pelo fato do que interessava agora era o abrandar a chegada da velhice e o fim da existência. A solidão chegou. É um momento aparentemente de abandono. Entretanto, o abandono às antigas práticas não existiu.

A temática existencial se desenvolve a partir dos abismos humanos, citados no começo do texto. E agora outras variantes com fins de perceber melhor outras características contrapostas ao movimento surreal.

Torturar foi uma atitude constante no período das grandes guerras mundiais, e certamente, durante a Ditadura Militar Argentina, compreendida entre os anos 1966 e 1976. A obra em questão foi lançada em 1971. A condessa é mais cruel que as outras mulheres.

Como apregoado pelo movimento existencialista, a liberdade entre os indivíduos ocorre no texto de maneira paradoxal. A condessa goza, humanamente falando, de todas as liberdades possíveis de ação, pensamentos e sentimentos. Mas não se pode dizer o mesmo das vítimas. Se por um lado os abismos humanos vistos na personagem condessa sangrenta exemplificam  uma incrível manifestação da liberdade de fazer com as vítimas aquilo que ela querer, por outro lado, as vítimas são extremamente subtraídas do direito à vida, à liberdade de escolha, conduzindo a poetisa a fazer como desfecho uma triste realidade sobre a liberdade, como coroamento desta clara contradição: “a liberdade absoluta da criatura humana é horrível” (p. 56).

Colaboraram:

1 – COSTA, Karine Bueno. Alejandra Pizarnik: poética e imanência do silêncio. In https://factotumcultural.com.br/2020/07/31/alejandra-pizarnik-poetica-da-imanencia-e-do-silencio

2 – http://escrevo.etc.br/para-ler-escritoras-13/ <ACESSO: 04/04/2021>

3 – LOPES, Ellen Cristina Nascimento. Poesia-tradução à beira do silêncio : Tradução integral da obra poética de Alejandra Pizarnik / Ellen Cristina Nascimento Lopes. – 2018. 671 f. : il. color. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/36524 <ACESSO: 05-04-2021>

4 – PILETTI, Claudino. Didática especial. São Paulo – SP: Ática, 1998.

5 – PIZARNIK, Alejandra. A condessa sangrenta;  tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro; ilustrações de Santiago Caruso. –  São Paulo:  Tordesilhas, 2011.

6 – POCHO, Cláudia Lopes. Tecnologia educacional: descubra suas possibilidades na sala de aula. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

Marcelo Neves, Formado em licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília. Mestrando do curso PROFILO/UNESPAR, turma 2020-2022. Professor efetivo da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2003.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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