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‘Nietzsche, o roba brisa’: jovem de Paulínia usa gírias da quebrada para explicar filosofia e viraliza

Marcelo Marques, de 18 anos, cursa o quinto período de história e sonha em ser professor — Foto: Marcelo Marques/Arquivo Pessoal
Marcelo Marques, de 18 anos, cursa o quinto período de história e sonha em ser professor — Foto: Marcelo Marques/Arquivo Pessoal

Marcelo Marques, de 18 anos, cursa história e sonha em ser professor. Para ele, quebrar barreiras de linguagem permite que a filosofia chegue à periferia, onde ainda não tem espaço.

Poucos acadêmicos definiriam Friedrich Nietzsche como um “roba brisa”. O estudante de história Marcelo Marques, no entanto, viralizou na web após usar o termo para se referir ao filósofo em um vídeo que já soma mais de 70 mil visualizações. Natural de Paulínia (SP), o jovem de 18 anos usa gírias “da quebrada” para explicar conceitos filosóficos em seus vídeos e sonha em se tornar professor.

A alcunha de “roba brisa” atribuída a Nietzsche, Marques explica em seu vídeo, é porque, para ele, os pensamentos do autor alemão despertam reflexões mesmo nos momentos de descanso da mente. “Hoje nós vai trazer o vilão. Aquele cara que vai roubar sua brisa. O mano que, você vai tá lá, curtindo, da hora, cê vai lembrar dele e falar: P…! Esse mano roubou minha brisa”.

Sob o nome artístico de “Audino”, o estudante utiliza as redes sociais para transmitir o conhecimento adquirido desde 2016, quando começou a se interessar pela filosofia. Juntos, os recentes vídeos “Traduzindo Karl Marx para gírias paulistas” e “O mito da caverna para becos e vielas”, por exemplo, somam mais de 90 mil visualizações no YouTube.

“Primeiramente, era uma intenção cômica, mas, na hora que eu gravei o vídeo, eu vi que ficou muito didático, ficou tipo uma vídeoaula, mas uma vídeo aula bem interativa, bem dinâmica. Fui lá, postei e viralizou. Estourou, estourou, estourou. Não esperava não, mano. De forma alguma. Nunca esperei isso na minha vida”, relata.

Sonho de criança

Marcelo conta que o interesse por história começou ainda na infância. Nascido e criado nos fundos da casa da avó, na Vila Monte Alegre, em Paulínia, o jovem recorda que, quando criança, costumava ganhar da mãe diversas espécies de dinossauros em miniatura.

“Eu comecei a me apaixonar por dinossauro, por história, e, aí, depois eu comecei a ver uns filmes de Egito, de múmia… Eu sou apaixonado pelo Egito até hoje. Minha área de pesquisa, se eu fosse entrar pra uma área acadêmica, eu queria fazer egiptologia ou assiriologia”, conta.

Atualmente, Audino mora com a mãe no Residencial Vida Nova, na periferia do município. Ao finalizar o ensino médio, foi aprovado na Faculdade Anhanguera, com sede em Campinas (SP), onde cursa a licenciatura em história à distância.

“A única pessoa que me apoiava nos estudos mesmo era meu pai. Meu pai só queria que eu estudasse, independente do que fosse, ele queria que eu estudasse. Ele fala assim: ‘O estudo é a única coisa que vai te dar alguma coisa na vida'”, relembra o graduando.

No futuro, Marcelo sonha em se tornar professor do ensino médio em escolas públicas. “Eu gosto de trabalhar com a galera mais velha, os adolescentes, que, tipo assim, acho que é a galera mais incompreendida, né?”, explica.

Entre becos e vielas

Nos vídeos, Marcelo utiliza gírias e dialetos comuns na periferia como forma de democratizar o conteúdo e torná-lo acessível.

“Tem muita gente que mora próximo à periferia que talvez não se reconheça como periférico, mas fala a gíria paulista, fala a nossa língua. Eu faço meus vídeos mais voltado para os jovens da classe baixa, tá ligado?”.

Estabelecer um diálogo com os jovens é uma das metas que norteiam os planos de Audino. De origem humilde, o estudante do quinto semestre de graduação vislumbra um futuro onde o jovem periférico possa incorporar os conceitos filosóficos ao dia a dia.

“Chegar num sábado qualquer, ir numa barbearia, estar os moleques cortando o cabelo e falando de Kant, discutindo uma visão que é embasada no Kant, que é embasada no Hume, no Freud, no Espinoza, no Schopenhauer. Eu queria ver os moleques trocando as ideias deles, com o embasamento teórico desses caras. Eu queria ver esses moleques aplicarem a filosofia desses caras nos corres deles, na vida deles”, diz.

Quebrando barreiras

Para Marcelo, a sociologia e a história têm se infiltrado nas favelas por meio do funk e do rap, mas ainda não há espaço suficiente para o diálogo sobre a filosofia.

“[A filosofia] se tornou uma linguagem elitista, que cria uma barreira linguística muito grande para quem não tem acesso a uma educação de extrema qualidade. Até a molecada se interessar de entender aquilo, os caras desistem, mano. Então meu trabalho nada mais é que facilitar pra essa molecada entender o que aqueles ‘velhinho falava’”, afirma.

Ele defende que seu papel também é o de valorização da cultura da periferia, em especial por meio da valorização da linguagem.

“Para a periferia, principalmente pra juventude, a linguística, a gíria, o dialeto, o ‘podepá’, é um patrimônio. É um patrimônio da favela, é um patrimônio nosso’, analisa.

Críticas

Há quem critique a iniciativa. Segundo relata o estudante de história, o pai, leitor ávido dos comentários deixados nos vídeos, se deparou recentemente com um usuário que acusava Marcelo de tratar os conceitos filosóficos de forma muito simples, afirmando que isso estaria “empobrecendo a filosofia”.

“Eu não respondi esse comentário porque eu não achei, mas eu penso… A filosofia tá aí para você ficar olhando pra ela como uma parada bonita, bem falada, ou você tá ali pra estudar e aplicar ela na sua vida?”, rebate.

G1. 30.6.2020.

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