Ir para conteúdo

Por que as ciências humanas perderam prestígio na sociedade liberal e como recuperá-lo

Jean Marcel Carvalho França

Há duas máximas que, a cada dia que passa, têm se tornado mais e mais populares nas sociedades Ocidentais contemporâneas: a primeira diz que a universidade está em crise e perdendo a sua legitimidade social; a segunda, complementar à anterior, assevera que as ciências humanas deixaram de ter relevância civilizacional e se tornaram inimigas do senso comum e do bom senso, inimigas das sociedades liberais.

A história das relações entre a universidade, uma instituição medieval, que conservou muitos dos traços das corporações de ofício de outrora, e as sociedades liberais remonta ao século XIX e, em linhas gerais, é a história de uma relação bastante feliz e proveitosa para ambas as partes. É verdade que a maioria dos teóricos fundadores das sociedades liberais, Adam Smith, Tocqueville, John Stuart Mill, entre outros, nunca deram lá muita atenção e importância para a universidade. Malgrado o começo um tanto morno, no entanto, ao longo dos séculos XIX e XX, as relações se estreitaram e os ganhos foram muitos para os dois lados: as universidades conquistaram enorme autonomia nas sociedades liberais democráticas e, não obstante o encarecimento brutal das pesquisas – que impôs severos limites às escolhas individuais –, os investigadores passaram a desfrutar de uma liberdade de investigação nunca antes experimentada, o que levou ao incremento do prestígio social da ciência, e dos cientistas, e enriqueceu como um todo a instituição universitária; as sociedades liberais, por sua vez, usufruíram enormemente das descobertas científicas e civilizacionais saídas do mundo acadêmico, e prosperaram como nunca desde a criação das denominadas instituições universitárias modernas, a napoleônica, em Paris, e a de Humboldt, em Berlim – que nos legou o modelo “instituição de ensino e pesquisa”.[1]

Ao longo das últimas quatro, cinco décadas, porém, os atritos têm se multiplicado e a boa relação de outrora tem ficado para trás. A massificação do ensino de terceiro grau, a especialização excessiva do conhecimento, o combate no interior da academia aos cânones do saber ocidental e aos princípios de civilidade que sustentam as sociedades liberais, o enorme encarecimento da pesquisa científica, a burocratização sem fim das atividades acadêmicas e, sobretudo, a politização excessiva dos universitários vêm minando a ética universitária e azedando as relações entre a instituição – sobretudo a sua ala de humanidades – e as sociedades liberais.[2]

Tais mudanças, é certo, não impactaram da mesma maneira as ditas ciências duras e as humanidades, aí incluídos a História e os Estudos Literários. Os custos elevados de pesquisa e os enormes interesses industriais e estratégicos, por exemplo, entraram no cotidiano dos pesquisadores das ciências exatas e biológicas, mas passaram longe dos cientistas das ciências humanas – em larga medida, salvo pelos computadores, continuamos a utilizar os mesmos instrumentos de pesquisa que Spencer, Marx ou Durkheim utilizavam; quanto aos produtos que geramos, dificilmente a luta pela sua posse desencadearia uma guerra entre empresas e menos ainda entre nações.

Os males da burocratização, sem dúvida, atingem a todos, mas os estragos causados pela especialização excessiva, massificação e politização das universidades foram mais sentidos nas humanidades.[3] Para compreendermos melhor tal diferença, precisamos antes ter uma ideia clara acerca dos produtos que a universidade, especialmente as ciências humanas, promete entregar à sociedade. Para o cidadão médio, que paga impostos e envia os seus filhos para as instituições universitárias, são evidentes as razões pelas quais formamos médicos, engenheiros, biólogos, farmacêuticos e mesmo advogados, economistas, físicos, químicos e administradores. A sociedade sabe, bem ou mal, com mais ou menos propriedade, para que serve essa gente e que contributo se pode esperar deles, pois a função de tais saberes é facilmente apreensível: trata-se de melhorar a vida do ser humano sobre a terra, proteger a sua saúde, administrar os seus conflitos, tornar mais agradáveis as suas cidades e residências, em suma, contribuir para a elevação da qualidade de vida das populações. A especialização, a massificação e a politização não alteraram nem a expectativa da sociedade em relação aos resultados esperados de tais saberes – a dúvida sobre a eficácia do saber científico pertence muito mais aos intelectuais da palavra do que ao senso comum –, nem a estrutura de produção de tais saberes – o encarecimento da pesquisa é a grande mudança ocorrida aí.

Ora, no âmbito das ciências humanas, a relação entre o que se produz em termos de conhecimento e a sociedade para a qual se produz é mais complicada e menos evidente. Poderíamos, por certo, dizer que a literatura torna a vida mais rica, a filosofia torna o homem mais sábio, a sociologia e seus derivados ensinam como se viver melhor em sociedade, a história instrui sobre as múltiplas possibilidades do humano no passado, enfim, poderíamos adiantar um sem número de contributos abstratos que as ditas humanidades dão às sociedades humanas, mas nada aparentemente tão concreto e impactante como um remédio para a dor ou um insumo que aumente a produtividade da terra.

Os intelectuais da palavra refletem pouco sobre isso, mas que produto, afinal, costumam entregar à sociedade? Em linhas muito gerais, não seria equivocado dizer que as humanidades, desde o Iluminismo, e sobretudo desde o século XIX, prometem oferecer às sociedades duas coisas: sabedoria para a condução da própria vida e princípios de civilidade que tornem a convivência humana em sociedade menos conflituosa e mais coesa. Tais produtos, que demandam tempo, tradição e erudição para serem produzidos, com a massificação da universidade, que impõe aos discentes uma formação rápida e pouco apurada, a especialização excessiva, devastadora num campo do saber que exige conhecimento da tradição e erudição, e a politização excessiva, que leva os docentes da área a confundir a ética da responsabilidade, própria dos cientistas, com a ética da convicção, adequada aos políticos e pregadores, perderam muito de sua qualidade e de sua credibilidade junto aos consumidores; há cada vez menos gente querendo adquiri-los – o descrédito dos formadores de opinião e dos especialistas vem daí.[4]

Temos, então, um ponto de partida para pensarmos a tal tensão entre a universidade, melhor, vamos fechar um pouco a perspectiva, entre as humanidades e as sociedades liberais: adaptamo-nos mal às mudanças impostas pela massificação da universidade e pela crescente especialização do conhecimento. Talvez, em larga medida, por termos seguido caminhos virtuosos para outros saberes mas que se mostraram becos sem saída numa área onde o demorado conhecimento da tradição e a erudição crescente eram indispensáveis, pois davam respeitabilidade e lastro aos tais produtos que costumávamos entregar à sociedade: sabedoria e civilidade.

O que vimos até aqui, no entanto, é somente uma terça parte do problema. Há mais dois aspectos a serem considerados para entendermos melhor a tal crise de legitimidade das humanidades: a crescente incompatibilidade entre os intelectuais da palavra e as sociedades liberais e o surgimento de um mercado fiel para as teorias iliberais, ambos os processos iniciados no pós-guerra e ambos intimamente vinculados entre si e com as mudanças referidas na estrutura de funcionamento das universidades. Quanto ao ódio ao mercado, é longa a lista de respostas para a questão: porque os intelectuais não gostam do capitalismo, não gostam das sociedades liberais de mercado? Há aquela hipótese de coloração fabiana, que diz serem os intelectuais da palavra seres mais sensíveis às desumanidades do capitalismo. Há a hipótese conspiratória, segundo a qual esses seres tramam para derrubar uma sociedade que não lhes é favorável. Há a hipótese da proletarização, que aponta a queda crescente da empregabilidade e da remuneração desses profissionais como causa do ódio, em suma. Há, enfim, um leque amplo e variado de explicações possíveis para este que é um fato notável e incontornável das sociedades ocidentais contemporâneas.

Adotaremos aqui a explicação proposta pelo sociólogo Robert Nozick[5] e desdobrada pelos também sociólogos Diego Rios e Raul Berton.[6] A hipótese de Nozick, grosso modo, é a seguinte: os intelectuais da palavra, aqueles que vivem da manipulação de ideias, guardam um enorme ressentimento em relação às sociedades de mercado, pois creem honestamente que não são aí valorizados como deveriam – é uma afronta, aos seus olhos, o fato de que uma celebridade estúpida qualquer goze de mais prestígio social e obtenha mais recompensas do que eles, indivíduos cultos e preparados.

Ora, um número incontável de profissionais cultos e bem preparados colhem menos recompensas sociais do que as estrelas do futebol, isso, contudo, não os faz inimigos das sociedades de mercado. Por qual razão os intelectuais da palavra, indivíduos que gozam de um prestígio social considerável e são razoavelmente bem remunerados, quando levamos em conta as médias salariais das sociedades em que estão inseridos, têm tendência, mais do que outros grupos com igual prestígio social e remuneração, a desenvolver tamanha mágoa do capitalismo? É nas instituições escolares que devemos buscar a resposta para tal questão. Probabilisticamente, salienta Nozick, estudantes que dominam a linguagem e se destacam pela capacidade de produzir ideias recebem dos professores mais atenção e recompensas do que seus colegas competidores. Tais estudantes, os futuros intelectuais da palavra, acostumam-se, ao longo dos muitos anos em que frequentam o ambiente controlado da sala de aula, a acreditar que seus méritos são grandes – e os coloca acima do senso comum – e sempre suscitarão um enorme reconhecimento social – ainda que o pátio do colégio, espaço sujeito a leis incertas, sem o controle do professor, muitas vezes lhes diga o contrário.

Ao ser lançado para fora do ambiente escolar o intelectual da palavra rapidamente percebe que a sociedade de mercado é incapaz de reconhecer e recompensar devidamente os seus supostos encantos e potencialidades, justo ela, uma sociedade que é pródiga em cobrir de louros gente comum, sem mérito e sem talento. Daí o seu repúdio ao capitalismo; daí, igualmente, a sua inclinação, o seu gosto, por sociedades com uma forte presença do estado, um estado que, tal como um professor atento aos seus pupilos de maior mérito, promova uma partilha justa do prestígio e das recompensas a serem distribuídas, dando a quem realmente merece: aos intelectuais da palavra.

Em se tratando de Brasil, creio que é fundamental acrescentarmos mais um ingrediente a este caldo: os intelectuais da palavra, salvo os jornalistas – ainda que sua independência possa ser questionada – , vivem aqui majoritariamente à sombra do Estado, são quadros do Itamaraty, docentes de universidades públicas, diretores de museus, coordenadores de institutos e arquivos, enfim, são funcionários públicos, gente que acredita ser a lógica meritocrática da escola, a lógica do concurso público – o símbolo maior do estatismo e do espírito anti-mercado – , o único modo plausível de ordenar, de hierarquizar devida e justamente os indivíduos – o mercado, sem um poderoso ente ordenador, é um caos e um manancial de injustiças.

Temos, então, já duas partes da equação desdobradas: a emergência das universidades de massas e seus impactos pouco salutares sobre as humanidades, e a hostilidade ao mercado cultivada por uma parte substantiva dos intelectuais da palavra. Passemos à terceira e última parte: a proliferação das ideias iliberais no meio acadêmico e em torno dele. Deixarei de lado aqui aquelas explicações conspiratórias, em que figuram discípulos de Antônio Gramsci tomando de assalto a universidade e as redações de jornais, em meio a uma guerra por hegemonia cultural. É uma perspectiva “conspiratória” e coletivista: intelectuais agindo como classe para tomar o poder. Arrisquemos, seguindo as análises do sociólogo francês Raymond Boudon[7], uma leitura liberal do fenômeno, isto é, experimentemos interrogar a produção, a divulgação e o consumo das ideias antiliberais ou iliberais a partir do binômio oferta e procura. Analisemos, de saída, a oferta: de onde veem as teorias iliberais? Quais são as motivações sociais para a sua produção? Quem as produz?

A universidade é, sem dúvida, o locus privilegiado do cultivo de tais teorias, a mídia, a mídia cultural sobretudo, atua na sua distribuição; a sua difusão rápida e eficaz, por sua vez, e isto é fundamental, deve-se ao fato de se basearem majoritariamente num princípio familiar e palatável ao senso comum: o da conspiração. Há, quando olhamos o panorama das “teorias da moda” nas universidades ocidentais contemporâneas, duas linhas de apropriação bastante populares do princípio da conspiração: a de viés marxista, que afirma que a classe dominante, as elites, para manterem o seu predomínio e satisfazerem os seus interesses, conspiram sistematicamente contra o bem estar dos dominados, dos socialmente vulneráveis e mesmo da sociedade em geral; e a de feitio nietzschiano, que denuncia os complôs cotidianos, as micro conspirações dos detentores de micro poderes, conspirações contidas nas relações entre raças, entre gêneros, entre professor e aluno, entre médico e paciente, enfim, entre dois ou mais seres humanos que interagem –– é a conspiração da civilização instituída contra a diferença.

As teorias iliberais, de Marx a Jameson, passando por Foucault e Bauman, servem-se fartamente de tal princípio, daí a sua rápida aceitação; daí, igualmente, a sensação que causam nos consumidores de que encontraram uma explicação plausível e familiar para os seus problemas e mazelas: sofro porque, do meu patrão ao tecnocrata do estado burguês, são muitos os que conspiram contra o meu bem viver.

Mas por qual razão, afinal, desde pelo menos a metade do século XX, o senso comum ocidental se mostra tão sensível a tais discursos, melhor, por qual razão as pessoas estão tão dispostas a consumir ideias iliberais sustentadas em versões mais ou menos sofisticadas da repisada teoria da conspiração? Há uma longa série de estudos dedicados à análise da disseminação das teorias terceiro mundistas, indenitárias e vitimistas pelo senso comum das sociedades ocidentais, melhor, por uma parte, se não substantiva, ao menos barulhenta do senso comum.[8] Diversos deles sustentam que esse mercado de ideias antiliberais é mantido basicamente por aqueles indivíduos que, por razões as mais diversas, reclamam que a ordem liberal, o tal capitalismo, não atendeu devidamente às expectativas que tinham em relação ao seu desenvolvimento pessoal e à sua prosperidade material. O raciocínio é simples: é infinitamente mais oportuno e confortável atribuir as nossas frustrações a um grande ou pequeno complô dos controladores de uma ordem injusta, do que a más escolhas individuais ou aos desdobramentos imprevistos e não intencionais de um modo de atender as necessidades humanas, um modo imperfeito e por vezes injusto, mas que, há dois séculos, onde é bem aplicado, tem se mostrado menos imperfeito e injusto do que outros.

E não tiremos conclusões precipitadas: não foi, como querem nos levar a crer um certo discurso à esquerda, a desigualdade que aumentou com o liberalismo, não foi o número de estropiados engolidos pelo capitalismo que cresceu. A proliferação das vítimas, dos que se julgam excluídos e abraçam as teorias iliberais é uma consequência direta de um paradoxo que está, como apontou Tocqueville[9], no coração das sociedades liberais: a busca pela igualdade, busca que, se excessiva e entendida em sentido absoluto (igualdade entre os homens), compromete mortalmente um outro pilar dessas sociedades, a liberdade. Ao que tudo indica, é esse público ansioso por ver cumprida as promessas de igualdade e que toma a liberdade num sentido positivo, para usarmos a clássica distinção trabalhada por Isaiah Berlin,[10] que mantém vivo e pungente o mercado das ideias iliberais, ideias úteis –– não necessariamente verdadeiras ou científicas[11] –– e fáceis de serem assimiladas.

Creio que podemos agora retornar ao problema inicial, retornar ao crescente afastamento entre as ciências humanas cultivadas no interior das universidades e as sociedades liberais. Temos já um quadro, se não completo, razoavelmente abrangente da situação. O divórcio existe e tem razões precisas, todas distantes de quaisquer movimentos conspiratórios: a massificação afetou o modo de produzir e a qualidade do que produzimos para a sociedade, os intelectuais da palavra tornaram-se crescentemente ressentidos e anticapitalistas e o mercado para as ideias iliberais cresceu enormemente, sobretudo no interior das próprias universidades.

Parece, todavia, que, nos últimos anos, a roda girou do lado de fora dos muros das redações dos jornais e das instituições universitárias, girou e quem estava dentro aparentemente não viu ou não quis ver. Inesperadamente, a sabedoria hostil ao bom senso e ao senso comum –– o tal conhecimento crítico, sobretudo autocrítico –– e a sistemática pregação contra os princípios de civilidade que dão coesão às sociedades ocidentais, vistos invariavelmente como instrumentos de dominação e opressão, passaram a soar inúteis e risíveis para o mundo exterior. É certo que podemos “resistir”, podemos acusar os “tempos sombrios” e podemos mesmo sonhar o sonho de que lutamos contra uma ditadura renovada, todavia, se queremos de fato sobreviver neste mundo novo que emerge e ter nele alguma relevância, a hora é de pôr fim às reclamações e renovar o portfólio de ideias e serviços que oferecemos à sociedade.

Há duas máximas que, a cada dia que passa, têm se tornado mais e mais populares nas sociedades Ocidentais contemporâneas: a primeira diz que a universidade está em crise e perdendo a sua legitimidade social; a segunda, complementar à anterior, assevera que as ciências humanas deixaram de ter relevância civilizacional e se tornaram inimigas do senso comum e do bom senso, inimigas das sociedades liberais.

A história das relações entre a universidade, uma instituição medieval, que conservou muitos dos traços das corporações de ofício de outrora, e as sociedades liberais remonta ao século XIX e, em linhas gerais, é a história de uma relação bastante feliz e proveitosa para ambas as partes. É verdade que a maioria dos teóricos fundadores das sociedades liberais, Adam Smith, Tocqueville, John Stuart Mill, entre outros, nunca deram lá muita atenção e importância para a universidade. Malgrado o começo um tanto morno, no entanto, ao longo dos séculos XIX e XX, as relações se estreitaram e os ganhos foram muitos para os dois lados: as universidades conquistaram enorme autonomia nas sociedades liberais democráticas e, não obstante o encarecimento brutal das pesquisas – que impôs severos limites às escolhas individuais –, os investigadores passaram a desfrutar de uma liberdade de investigação nunca antes experimentada, o que levou ao incremento do prestígio social da ciência, e dos cientistas, e enriqueceu como um todo a instituição universitária; as sociedades liberais, por sua vez, usufruíram enormemente das descobertas científicas e civilizacionais saídas do mundo acadêmico, e prosperaram como nunca desde a criação das denominadas instituições universitárias modernas, a napoleônica, em Paris, e a de Humboldt, em Berlim – que nos legou o modelo “instituição de ensino e pesquisa”.[1]

Ao longo das últimas quatro, cinco décadas, porém, os atritos têm se multiplicado e a boa relação de outrora tem ficado para trás. A massificação do ensino de terceiro grau, a especialização excessiva do conhecimento, o combate no interior da academia aos cânones do saber ocidental e aos princípios de civilidade que sustentam as sociedades liberais, o enorme encarecimento da pesquisa científica, a burocratização sem fim das atividades acadêmicas e, sobretudo, a politização excessiva dos universitários vêm minando a ética universitária e azedando as relações entre a instituição – sobretudo a sua ala de humanidades – e as sociedades liberais.[2]

Tais mudanças, é certo, não impactaram da mesma maneira as ditas ciências duras e as humanidades, aí incluídos a História e os Estudos Literários. Os custos elevados de pesquisa e os enormes interesses industriais e estratégicos, por exemplo, entraram no cotidiano dos pesquisadores das ciências exatas e biológicas, mas passaram longe dos cientistas das ciências humanas – em larga medida, salvo pelos computadores, continuamos a utilizar os mesmos instrumentos de pesquisa que Spencer, Marx ou Durkheim utilizavam; quanto aos produtos que geramos, dificilmente a luta pela sua posse desencadearia uma guerra entre empresas e menos ainda entre nações.

Os males da burocratização, sem dúvida, atingem a todos, mas os estragos causados pela especialização excessiva, massificação e politização das universidades foram mais sentidos nas humanidades.[3] Para compreendermos melhor tal diferença, precisamos antes ter uma ideia clara acerca dos produtos que a universidade, especialmente as ciências humanas, promete entregar à sociedade. Para o cidadão médio, que paga impostos e envia os seus filhos para as instituições universitárias, são evidentes as razões pelas quais formamos médicos, engenheiros, biólogos, farmacêuticos e mesmo advogados, economistas, físicos, químicos e administradores. A sociedade sabe, bem ou mal, com mais ou menos propriedade, para que serve essa gente e que contributo se pode esperar deles, pois a função de tais saberes é facilmente apreensível: trata-se de melhorar a vida do ser humano sobre a terra, proteger a sua saúde, administrar os seus conflitos, tornar mais agradáveis as suas cidades e residências, em suma, contribuir para a elevação da qualidade de vida das populações. A especialização, a massificação e a politização não alteraram nem a expectativa da sociedade em relação aos resultados esperados de tais saberes – a dúvida sobre a eficácia do saber científico pertence muito mais aos intelectuais da palavra do que ao senso comum –, nem a estrutura de produção de tais saberes – o encarecimento da pesquisa é a grande mudança ocorrida aí.

Ora, no âmbito das ciências humanas, a relação entre o que se produz em termos de conhecimento e a sociedade para a qual se produz é mais complicada e menos evidente. Poderíamos, por certo, dizer que a literatura torna a vida mais rica, a filosofia torna o homem mais sábio, a sociologia e seus derivados ensinam como se viver melhor em sociedade, a história instrui sobre as múltiplas possibilidades do humano no passado, enfim, poderíamos adiantar um sem número de contributos abstratos que as ditas humanidades dão às sociedades humanas, mas nada aparentemente tão concreto e impactante como um remédio para a dor ou um insumo que aumente a produtividade da terra.

Os intelectuais da palavra refletem pouco sobre isso, mas que produto, afinal, costumam entregar à sociedade? Em linhas muito gerais, não seria equivocado dizer que as humanidades, desde o Iluminismo, e sobretudo desde o século XIX, prometem oferecer às sociedades duas coisas: sabedoria para a condução da própria vida e princípios de civilidade que tornem a convivência humana em sociedade menos conflituosa e mais coesa. Tais produtos, que demandam tempo, tradição e erudição para serem produzidos, com a massificação da universidade, que impõe aos discentes uma formação rápida e pouco apurada, a especialização excessiva, devastadora num campo do saber que exige conhecimento da tradição e erudição, e a politização excessiva, que leva os docentes da área a confundir a ética da responsabilidade, própria dos cientistas, com a ética da convicção, adequada aos políticos e pregadores, perderam muito de sua qualidade e de sua credibilidade junto aos consumidores; há cada vez menos gente querendo adquiri-los – o descrédito dos formadores de opinião e dos especialistas vem daí.[4]

Temos, então, um ponto de partida para pensarmos a tal tensão entre a universidade, melhor, vamos fechar um pouco a perspectiva, entre as humanidades e as sociedades liberais: adaptamo-nos mal às mudanças impostas pela massificação da universidade e pela crescente especialização do conhecimento. Talvez, em larga medida, por termos seguido caminhos virtuosos para outros saberes mas que se mostraram becos sem saída numa área onde o demorado conhecimento da tradição e a erudição crescente eram indispensáveis, pois davam respeitabilidade e lastro aos tais produtos que costumávamos entregar à sociedade: sabedoria e civilidade.

O que vimos até aqui, no entanto, é somente uma terça parte do problema. Há mais dois aspectos a serem considerados para entendermos melhor a tal crise de legitimidade das humanidades: a crescente incompatibilidade entre os intelectuais da palavra e as sociedades liberais e o surgimento de um mercado fiel para as teorias iliberais, ambos os processos iniciados no pós-guerra e ambos intimamente vinculados entre si e com as mudanças referidas na estrutura de funcionamento das universidades. Quanto ao ódio ao mercado, é longa a lista de respostas para a questão: porque os intelectuais não gostam do capitalismo, não gostam das sociedades liberais de mercado? Há aquela hipótese de coloração fabiana, que diz serem os intelectuais da palavra seres mais sensíveis às desumanidades do capitalismo. Há a hipótese conspiratória, segundo a qual esses seres tramam para derrubar uma sociedade que não lhes é favorável. Há a hipótese da proletarização, que aponta a queda crescente da empregabilidade e da remuneração desses profissionais como causa do ódio, em suma. Há, enfim, um leque amplo e variado de explicações possíveis para este que é um fato notável e incontornável das sociedades ocidentais contemporâneas.

Adotaremos aqui a explicação proposta pelo sociólogo Robert Nozick[5] e desdobrada pelos também sociólogos Diego Rios e Raul Berton.[6] A hipótese de Nozick, grosso modo, é a seguinte: os intelectuais da palavra, aqueles que vivem da manipulação de ideias, guardam um enorme ressentimento em relação às sociedades de mercado, pois creem honestamente que não são aí valorizados como deveriam – é uma afronta, aos seus olhos, o fato de que uma celebridade estúpida qualquer goze de mais prestígio social e obtenha mais recompensas do que eles, indivíduos cultos e preparados.

Ora, um número incontável de profissionais cultos e bem preparados colhem menos recompensas sociais do que as estrelas do futebol, isso, contudo, não os faz inimigos das sociedades de mercado. Por qual razão os intelectuais da palavra, indivíduos que gozam de um prestígio social considerável e são razoavelmente bem remunerados, quando levamos em conta as médias salariais das sociedades em que estão inseridos, têm tendência, mais do que outros grupos com igual prestígio social e remuneração, a desenvolver tamanha mágoa do capitalismo? É nas instituições escolares que devemos buscar a resposta para tal questão. Probabilisticamente, salienta Nozick, estudantes que dominam a linguagem e se destacam pela capacidade de produzir ideias recebem dos professores mais atenção e recompensas do que seus colegas competidores. Tais estudantes, os futuros intelectuais da palavra, acostumam-se, ao longo dos muitos anos em que frequentam o ambiente controlado da sala de aula, a acreditar que seus méritos são grandes – e os coloca acima do senso comum – e sempre suscitarão um enorme reconhecimento social – ainda que o pátio do colégio, espaço sujeito a leis incertas, sem o controle do professor, muitas vezes lhes diga o contrário.

Ao ser lançado para fora do ambiente escolar o intelectual da palavra rapidamente percebe que a sociedade de mercado é incapaz de reconhecer e recompensar devidamente os seus supostos encantos e potencialidades, justo ela, uma sociedade que é pródiga em cobrir de louros gente comum, sem mérito e sem talento. Daí o seu repúdio ao capitalismo; daí, igualmente, a sua inclinação, o seu gosto, por sociedades com uma forte presença do estado, um estado que, tal como um professor atento aos seus pupilos de maior mérito, promova uma partilha justa do prestígio e das recompensas a serem distribuídas, dando a quem realmente merece: aos intelectuais da palavra.

Em se tratando de Brasil, creio que é fundamental acrescentarmos mais um ingrediente a este caldo: os intelectuais da palavra, salvo os jornalistas – ainda que sua independência possa ser questionada – , vivem aqui majoritariamente à sombra do Estado, são quadros do Itamaraty, docentes de universidades públicas, diretores de museus, coordenadores de institutos e arquivos, enfim, são funcionários públicos, gente que acredita ser a lógica meritocrática da escola, a lógica do concurso público – o símbolo maior do estatismo e do espírito anti-mercado – , o único modo plausível de ordenar, de hierarquizar devida e justamente os indivíduos – o mercado, sem um poderoso ente ordenador, é um caos e um manancial de injustiças.

Temos, então, já duas partes da equação desdobradas: a emergência das universidades de massas e seus impactos pouco salutares sobre as humanidades, e a hostilidade ao mercado cultivada por uma parte substantiva dos intelectuais da palavra. Passemos à terceira e última parte: a proliferação das ideias iliberais no meio acadêmico e em torno dele. Deixarei de lado aqui aquelas explicações conspiratórias, em que figuram discípulos de Antônio Gramsci tomando de assalto a universidade e as redações de jornais, em meio a uma guerra por hegemonia cultural. É uma perspectiva “conspiratória” e coletivista: intelectuais agindo como classe para tomar o poder. Arrisquemos, seguindo as análises do sociólogo francês Raymond Boudon[7], uma leitura liberal do fenômeno, isto é, experimentemos interrogar a produção, a divulgação e o consumo das ideias antiliberais ou iliberais a partir do binômio oferta e procura. Analisemos, de saída, a oferta: de onde veem as teorias iliberais? Quais são as motivações sociais para a sua produção? Quem as produz?

A universidade é, sem dúvida, o locus privilegiado do cultivo de tais teorias, a mídia, a mídia cultural sobretudo, atua na sua distribuição; a sua difusão rápida e eficaz, por sua vez, e isto é fundamental, deve-se ao fato de se basearem majoritariamente num princípio familiar e palatável ao senso comum: o da conspiração. Há, quando olhamos o panorama das “teorias da moda” nas universidades ocidentais contemporâneas, duas linhas de apropriação bastante populares do princípio da conspiração: a de viés marxista, que afirma que a classe dominante, as elites, para manterem o seu predomínio e satisfazerem os seus interesses, conspiram sistematicamente contra o bem estar dos dominados, dos socialmente vulneráveis e mesmo da sociedade em geral; e a de feitio nietzschiano, que denuncia os complôs cotidianos, as micro conspirações dos detentores de micro poderes, conspirações contidas nas relações entre raças, entre gêneros, entre professor e aluno, entre médico e paciente, enfim, entre dois ou mais seres humanos que interagem –– é a conspiração da civilização instituída contra a diferença.

As teorias iliberais, de Marx a Jameson, passando por Foucault e Bauman, servem-se fartamente de tal princípio, daí a sua rápida aceitação; daí, igualmente, a sensação que causam nos consumidores de que encontraram uma explicação plausível e familiar para os seus problemas e mazelas: sofro porque, do meu patrão ao tecnocrata do estado burguês, são muitos os que conspiram contra o meu bem viver.

Mas por qual razão, afinal, desde pelo menos a metade do século XX, o senso comum ocidental se mostra tão sensível a tais discursos, melhor, por qual razão as pessoas estão tão dispostas a consumir ideias iliberais sustentadas em versões mais ou menos sofisticadas da repisada teoria da conspiração? Há uma longa série de estudos dedicados à análise da disseminação das teorias terceiro mundistas, indenitárias e vitimistas pelo senso comum das sociedades ocidentais, melhor, por uma parte, se não substantiva, ao menos barulhenta do senso comum.[8] Diversos deles sustentam que esse mercado de ideias antiliberais é mantido basicamente por aqueles indivíduos que, por razões as mais diversas, reclamam que a ordem liberal, o tal capitalismo, não atendeu devidamente às expectativas que tinham em relação ao seu desenvolvimento pessoal e à sua prosperidade material. O raciocínio é simples: é infinitamente mais oportuno e confortável atribuir as nossas frustrações a um grande ou pequeno complô dos controladores de uma ordem injusta, do que a más escolhas individuais ou aos desdobramentos imprevistos e não intencionais de um modo de atender as necessidades humanas, um modo imperfeito e por vezes injusto, mas que, há dois séculos, onde é bem aplicado, tem se mostrado menos imperfeito e injusto do que outros.

E não tiremos conclusões precipitadas: não foi, como querem nos levar a crer um certo discurso à esquerda, a desigualdade que aumentou com o liberalismo, não foi o número de estropiados engolidos pelo capitalismo que cresceu. A proliferação das vítimas, dos que se julgam excluídos e abraçam as teorias iliberais é uma consequência direta de um paradoxo que está, como apontou Tocqueville[9], no coração das sociedades liberais: a busca pela igualdade, busca que, se excessiva e entendida em sentido absoluto (igualdade entre os homens), compromete mortalmente um outro pilar dessas sociedades, a liberdade. Ao que tudo indica, é esse público ansioso por ver cumprida as promessas de igualdade e que toma a liberdade num sentido positivo, para usarmos a clássica distinção trabalhada por Isaiah Berlin,[10] que mantém vivo e pungente o mercado das ideias iliberais, ideias úteis –– não necessariamente verdadeiras ou científicas[11] –– e fáceis de serem assimiladas.

Creio que podemos agora retornar ao problema inicial, retornar ao crescente afastamento entre as ciências humanas cultivadas no interior das universidades e as sociedades liberais. Temos já um quadro, se não completo, razoavelmente abrangente da situação. O divórcio existe e tem razões precisas, todas distantes de quaisquer movimentos conspiratórios: a massificação afetou o modo de produzir e a qualidade do que produzimos para a sociedade, os intelectuais da palavra tornaram-se crescentemente ressentidos e anticapitalistas e o mercado para as ideias iliberais cresceu enormemente, sobretudo no interior das próprias universidades.

Parece, todavia, que, nos últimos anos, a roda girou do lado de fora dos muros das redações dos jornais e das instituições universitárias, girou e quem estava dentro aparentemente não viu ou não quis ver. Inesperadamente, a sabedoria hostil ao bom senso e ao senso comum –– o tal conhecimento crítico, sobretudo autocrítico –– e a sistemática pregação contra os princípios de civilidade que dão coesão às sociedades ocidentais, vistos invariavelmente como instrumentos de dominação e opressão, passaram a soar inúteis e risíveis para o mundo exterior. É certo que podemos “resistir”, podemos acusar os “tempos sombrios” e podemos mesmo sonhar o sonho de que lutamos contra uma ditadura renovada, todavia, se queremos de fato sobreviver neste mundo novo que emerge e ter nele alguma relevância, a hora é de pôr fim às reclamações e renovar o portfólio de ideias e serviços que oferecemos à sociedade.

  • Jean Marcel Carvalho França é professor Titular de História do Brasil da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e autor, entre outros, dos seguintes livros: “Literatura e sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista (Imprensa nacional – Casa da Moeda, 1999), “Visões do Rio de Janeiro Colonial” (José Olympio, 2000), “Mulheres Viajantes no Brasil” (José Olympio, 2008), “Andanças pelo Brasil colonial” (Editora da UNESP, 2009), “A Construção do Brasil na Literatura de Viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII” (José Olympio/Editora da UNESP, 2012), “Piratas no Brasil“ (Editora Globo, 2016) e “Ilustres Ordinários do Brasil” (Editora da UNESP, 2018).

[1] SHILS, Edward. O apelo da educação: a ética acadêmica e outros ensaios sobre educação superior. Trad. Gilson C. C. de Souza. Bauru, SP: EDUSC, 2001.

[2] BOUDON, Raymond. Efeitos perversos e ordem social. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

[3] LIPSET, Seymour Martin. Rebellion in the university. Boston: Little Brown and Company, 1971; LIPSET, Seymour Martin; LADD, Jr. Everett Carl. The divided academy: professors and politics. New York: W.W. Norton & Company Inc., 1976; LIPSET, Seymour Martin (ed.) Politics and the social sciences. Oxford University, 1969.

[4] POSTMAN, Neil. Amusing ourselves to death: public discourse in the age of show business. New York: Penguin, 2006.

[5] NOZICK, Robert. Socratic puzzles. London/ Cambridge: Harvard University, 2000.

[6] RIOS, Diego; BERTON, Raul M. La misère des intellectuels. Pour quoi s’opposent-ils au capitalisme? Préface de Raymond Boudon. Paris: L’Harmattan, 2003.

[7] BOUDON, Raymond. Os intelectuais e o liberalismo. Trad. Francisco Agarez. Lisboa: Gradiva, 2005.”
Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/por-que-as-ciencias-humanas-perderam-prestigio-na-sociedade-liberal/

“| Foto: Unsplash
Ouça este conteúdo
Há duas máximas que, a cada dia que passa, têm se tornado mais e mais populares nas sociedades Ocidentais contemporâneas: a primeira diz que a universidade está em crise e perdendo a sua legitimidade social; a segunda, complementar à anterior, assevera que as ciências humanas deixaram de ter relevância civilizacional e se tornaram inimigas do senso comum e do bom senso, inimigas das sociedades liberais.

A história das relações entre a universidade, uma instituição medieval, que conservou muitos dos traços das corporações de ofício de outrora, e as sociedades liberais remonta ao século XIX e, em linhas gerais, é a história de uma relação bastante feliz e proveitosa para ambas as partes. É verdade que a maioria dos teóricos fundadores das sociedades liberais, Adam Smith, Tocqueville, John Stuart Mill, entre outros, nunca deram lá muita atenção e importância para a universidade. Malgrado o começo um tanto morno, no entanto, ao longo dos séculos XIX e XX, as relações se estreitaram e os ganhos foram muitos para os dois lados: as universidades conquistaram enorme autonomia nas sociedades liberais democráticas e, não obstante o encarecimento brutal das pesquisas – que impôs severos limites às escolhas individuais –, os investigadores passaram a desfrutar de uma liberdade de investigação nunca antes experimentada, o que levou ao incremento do prestígio social da ciência, e dos cientistas, e enriqueceu como um todo a instituição universitária; as sociedades liberais, por sua vez, usufruíram enormemente das descobertas científicas e civilizacionais saídas do mundo acadêmico, e prosperaram como nunca desde a criação das denominadas instituições universitárias modernas, a napoleônica, em Paris, e a de Humboldt, em Berlim – que nos legou o modelo “instituição de ensino e pesquisa”.[1]

Ao longo das últimas quatro, cinco décadas, porém, os atritos têm se multiplicado e a boa relação de outrora tem ficado para trás. A massificação do ensino de terceiro grau, a especialização excessiva do conhecimento, o combate no interior da academia aos cânones do saber ocidental e aos princípios de civilidade que sustentam as sociedades liberais, o enorme encarecimento da pesquisa científica, a burocratização sem fim das atividades acadêmicas e, sobretudo, a politização excessiva dos universitários vêm minando a ética universitária e azedando as relações entre a instituição – sobretudo a sua ala de humanidades – e as sociedades liberais.[2]

Tais mudanças, é certo, não impactaram da mesma maneira as ditas ciências duras e as humanidades, aí incluídos a História e os Estudos Literários. Os custos elevados de pesquisa e os enormes interesses industriais e estratégicos, por exemplo, entraram no cotidiano dos pesquisadores das ciências exatas e biológicas, mas passaram longe dos cientistas das ciências humanas – em larga medida, salvo pelos computadores, continuamos a utilizar os mesmos instrumentos de pesquisa que Spencer, Marx ou Durkheim utilizavam; quanto aos produtos que geramos, dificilmente a luta pela sua posse desencadearia uma guerra entre empresas e menos ainda entre nações.

Os males da burocratização, sem dúvida, atingem a todos, mas os estragos causados pela especialização excessiva, massificação e politização das universidades foram mais sentidos nas humanidades.[3] Para compreendermos melhor tal diferença, precisamos antes ter uma ideia clara acerca dos produtos que a universidade, especialmente as ciências humanas, promete entregar à sociedade. Para o cidadão médio, que paga impostos e envia os seus filhos para as instituições universitárias, são evidentes as razões pelas quais formamos médicos, engenheiros, biólogos, farmacêuticos e mesmo advogados, economistas, físicos, químicos e administradores. A sociedade sabe, bem ou mal, com mais ou menos propriedade, para que serve essa gente e que contributo se pode esperar deles, pois a função de tais saberes é facilmente apreensível: trata-se de melhorar a vida do ser humano sobre a terra, proteger a sua saúde, administrar os seus conflitos, tornar mais agradáveis as suas cidades e residências, em suma, contribuir para a elevação da qualidade de vida das populações. A especialização, a massificação e a politização não alteraram nem a expectativa da sociedade em relação aos resultados esperados de tais saberes – a dúvida sobre a eficácia do saber científico pertence muito mais aos intelectuais da palavra do que ao senso comum –, nem a estrutura de produção de tais saberes – o encarecimento da pesquisa é a grande mudança ocorrida aí.

Ora, no âmbito das ciências humanas, a relação entre o que se produz em termos de conhecimento e a sociedade para a qual se produz é mais complicada e menos evidente. Poderíamos, por certo, dizer que a literatura torna a vida mais rica, a filosofia torna o homem mais sábio, a sociologia e seus derivados ensinam como se viver melhor em sociedade, a história instrui sobre as múltiplas possibilidades do humano no passado, enfim, poderíamos adiantar um sem número de contributos abstratos que as ditas humanidades dão às sociedades humanas, mas nada aparentemente tão concreto e impactante como um remédio para a dor ou um insumo que aumente a produtividade da terra.

Os intelectuais da palavra refletem pouco sobre isso, mas que produto, afinal, costumam entregar à sociedade? Em linhas muito gerais, não seria equivocado dizer que as humanidades, desde o Iluminismo, e sobretudo desde o século XIX, prometem oferecer às sociedades duas coisas: sabedoria para a condução da própria vida e princípios de civilidade que tornem a convivência humana em sociedade menos conflituosa e mais coesa. Tais produtos, que demandam tempo, tradição e erudição para serem produzidos, com a massificação da universidade, que impõe aos discentes uma formação rápida e pouco apurada, a especialização excessiva, devastadora num campo do saber que exige conhecimento da tradição e erudição, e a politização excessiva, que leva os docentes da área a confundir a ética da responsabilidade, própria dos cientistas, com a ética da convicção, adequada aos políticos e pregadores, perderam muito de sua qualidade e de sua credibilidade junto aos consumidores; há cada vez menos gente querendo adquiri-los – o descrédito dos formadores de opinião e dos especialistas vem daí.[4]

Temos, então, um ponto de partida para pensarmos a tal tensão entre a universidade, melhor, vamos fechar um pouco a perspectiva, entre as humanidades e as sociedades liberais: adaptamo-nos mal às mudanças impostas pela massificação da universidade e pela crescente especialização do conhecimento. Talvez, em larga medida, por termos seguido caminhos virtuosos para outros saberes mas que se mostraram becos sem saída numa área onde o demorado conhecimento da tradição e a erudição crescente eram indispensáveis, pois davam respeitabilidade e lastro aos tais produtos que costumávamos entregar à sociedade: sabedoria e civilidade.

O que vimos até aqui, no entanto, é somente uma terça parte do problema. Há mais dois aspectos a serem considerados para entendermos melhor a tal crise de legitimidade das humanidades: a crescente incompatibilidade entre os intelectuais da palavra e as sociedades liberais e o surgimento de um mercado fiel para as teorias iliberais, ambos os processos iniciados no pós-guerra e ambos intimamente vinculados entre si e com as mudanças referidas na estrutura de funcionamento das universidades. Quanto ao ódio ao mercado, é longa a lista de respostas para a questão: porque os intelectuais não gostam do capitalismo, não gostam das sociedades liberais de mercado? Há aquela hipótese de coloração fabiana, que diz serem os intelectuais da palavra seres mais sensíveis às desumanidades do capitalismo. Há a hipótese conspiratória, segundo a qual esses seres tramam para derrubar uma sociedade que não lhes é favorável. Há a hipótese da proletarização, que aponta a queda crescente da empregabilidade e da remuneração desses profissionais como causa do ódio, em suma. Há, enfim, um leque amplo e variado de explicações possíveis para este que é um fato notável e incontornável das sociedades ocidentais contemporâneas.

Adotaremos aqui a explicação proposta pelo sociólogo Robert Nozick[5] e desdobrada pelos também sociólogos Diego Rios e Raul Berton.[6] A hipótese de Nozick, grosso modo, é a seguinte: os intelectuais da palavra, aqueles que vivem da manipulação de ideias, guardam um enorme ressentimento em relação às sociedades de mercado, pois creem honestamente que não são aí valorizados como deveriam – é uma afronta, aos seus olhos, o fato de que uma celebridade estúpida qualquer goze de mais prestígio social e obtenha mais recompensas do que eles, indivíduos cultos e preparados.

Ora, um número incontável de profissionais cultos e bem preparados colhem menos recompensas sociais do que as estrelas do futebol, isso, contudo, não os faz inimigos das sociedades de mercado. Por qual razão os intelectuais da palavra, indivíduos que gozam de um prestígio social considerável e são razoavelmente bem remunerados, quando levamos em conta as médias salariais das sociedades em que estão inseridos, têm tendência, mais do que outros grupos com igual prestígio social e remuneração, a desenvolver tamanha mágoa do capitalismo? É nas instituições escolares que devemos buscar a resposta para tal questão. Probabilisticamente, salienta Nozick, estudantes que dominam a linguagem e se destacam pela capacidade de produzir ideias recebem dos professores mais atenção e recompensas do que seus colegas competidores. Tais estudantes, os futuros intelectuais da palavra, acostumam-se, ao longo dos muitos anos em que frequentam o ambiente controlado da sala de aula, a acreditar que seus méritos são grandes – e os coloca acima do senso comum – e sempre suscitarão um enorme reconhecimento social – ainda que o pátio do colégio, espaço sujeito a leis incertas, sem o controle do professor, muitas vezes lhes diga o contrário.

Ao ser lançado para fora do ambiente escolar o intelectual da palavra rapidamente percebe que a sociedade de mercado é incapaz de reconhecer e recompensar devidamente os seus supostos encantos e potencialidades, justo ela, uma sociedade que é pródiga em cobrir de louros gente comum, sem mérito e sem talento. Daí o seu repúdio ao capitalismo; daí, igualmente, a sua inclinação, o seu gosto, por sociedades com uma forte presença do estado, um estado que, tal como um professor atento aos seus pupilos de maior mérito, promova uma partilha justa do prestígio e das recompensas a serem distribuídas, dando a quem realmente merece: aos intelectuais da palavra.

Em se tratando de Brasil, creio que é fundamental acrescentarmos mais um ingrediente a este caldo: os intelectuais da palavra, salvo os jornalistas – ainda que sua independência possa ser questionada – , vivem aqui majoritariamente à sombra do Estado, são quadros do Itamaraty, docentes de universidades públicas, diretores de museus, coordenadores de institutos e arquivos, enfim, são funcionários públicos, gente que acredita ser a lógica meritocrática da escola, a lógica do concurso público – o símbolo maior do estatismo e do espírito anti-mercado – , o único modo plausível de ordenar, de hierarquizar devida e justamente os indivíduos – o mercado, sem um poderoso ente ordenador, é um caos e um manancial de injustiças.

Temos, então, já duas partes da equação desdobradas: a emergência das universidades de massas e seus impactos pouco salutares sobre as humanidades, e a hostilidade ao mercado cultivada por uma parte substantiva dos intelectuais da palavra. Passemos à terceira e última parte: a proliferação das ideias iliberais no meio acadêmico e em torno dele. Deixarei de lado aqui aquelas explicações conspiratórias, em que figuram discípulos de Antônio Gramsci tomando de assalto a universidade e as redações de jornais, em meio a uma guerra por hegemonia cultural. É uma perspectiva “conspiratória” e coletivista: intelectuais agindo como classe para tomar o poder. Arrisquemos, seguindo as análises do sociólogo francês Raymond Boudon[7], uma leitura liberal do fenômeno, isto é, experimentemos interrogar a produção, a divulgação e o consumo das ideias antiliberais ou iliberais a partir do binômio oferta e procura. Analisemos, de saída, a oferta: de onde veem as teorias iliberais? Quais são as motivações sociais para a sua produção? Quem as produz?

A universidade é, sem dúvida, o locus privilegiado do cultivo de tais teorias, a mídia, a mídia cultural sobretudo, atua na sua distribuição; a sua difusão rápida e eficaz, por sua vez, e isto é fundamental, deve-se ao fato de se basearem majoritariamente num princípio familiar e palatável ao senso comum: o da conspiração. Há, quando olhamos o panorama das “teorias da moda” nas universidades ocidentais contemporâneas, duas linhas de apropriação bastante populares do princípio da conspiração: a de viés marxista, que afirma que a classe dominante, as elites, para manterem o seu predomínio e satisfazerem os seus interesses, conspiram sistematicamente contra o bem estar dos dominados, dos socialmente vulneráveis e mesmo da sociedade em geral; e a de feitio nietzschiano, que denuncia os complôs cotidianos, as micro conspirações dos detentores de micro poderes, conspirações contidas nas relações entre raças, entre gêneros, entre professor e aluno, entre médico e paciente, enfim, entre dois ou mais seres humanos que interagem –– é a conspiração da civilização instituída contra a diferença.

As teorias iliberais, de Marx a Jameson, passando por Foucault e Bauman, servem-se fartamente de tal princípio, daí a sua rápida aceitação; daí, igualmente, a sensação que causam nos consumidores de que encontraram uma explicação plausível e familiar para os seus problemas e mazelas: sofro porque, do meu patrão ao tecnocrata do estado burguês, são muitos os que conspiram contra o meu bem viver.

Mas por qual razão, afinal, desde pelo menos a metade do século XX, o senso comum ocidental se mostra tão sensível a tais discursos, melhor, por qual razão as pessoas estão tão dispostas a consumir ideias iliberais sustentadas em versões mais ou menos sofisticadas da repisada teoria da conspiração? Há uma longa série de estudos dedicados à análise da disseminação das teorias terceiro mundistas, indenitárias e vitimistas pelo senso comum das sociedades ocidentais, melhor, por uma parte, se não substantiva, ao menos barulhenta do senso comum.[8] Diversos deles sustentam que esse mercado de ideias antiliberais é mantido basicamente por aqueles indivíduos que, por razões as mais diversas, reclamam que a ordem liberal, o tal capitalismo, não atendeu devidamente às expectativas que tinham em relação ao seu desenvolvimento pessoal e à sua prosperidade material. O raciocínio é simples: é infinitamente mais oportuno e confortável atribuir as nossas frustrações a um grande ou pequeno complô dos controladores de uma ordem injusta, do que a más escolhas individuais ou aos desdobramentos imprevistos e não intencionais de um modo de atender as necessidades humanas, um modo imperfeito e por vezes injusto, mas que, há dois séculos, onde é bem aplicado, tem se mostrado menos imperfeito e injusto do que outros.

E não tiremos conclusões precipitadas: não foi, como querem nos levar a crer um certo discurso à esquerda, a desigualdade que aumentou com o liberalismo, não foi o número de estropiados engolidos pelo capitalismo que cresceu. A proliferação das vítimas, dos que se julgam excluídos e abraçam as teorias iliberais é uma consequência direta de um paradoxo que está, como apontou Tocqueville[9], no coração das sociedades liberais: a busca pela igualdade, busca que, se excessiva e entendida em sentido absoluto (igualdade entre os homens), compromete mortalmente um outro pilar dessas sociedades, a liberdade. Ao que tudo indica, é esse público ansioso por ver cumprida as promessas de igualdade e que toma a liberdade num sentido positivo, para usarmos a clássica distinção trabalhada por Isaiah Berlin,[10] que mantém vivo e pungente o mercado das ideias iliberais, ideias úteis –– não necessariamente verdadeiras ou científicas[11] –– e fáceis de serem assimiladas.

Creio que podemos agora retornar ao problema inicial, retornar ao crescente afastamento entre as ciências humanas cultivadas no interior das universidades e as sociedades liberais. Temos já um quadro, se não completo, razoavelmente abrangente da situação. O divórcio existe e tem razões precisas, todas distantes de quaisquer movimentos conspiratórios: a massificação afetou o modo de produzir e a qualidade do que produzimos para a sociedade, os intelectuais da palavra tornaram-se crescentemente ressentidos e anticapitalistas e o mercado para as ideias iliberais cresceu enormemente, sobretudo no interior das próprias universidades.

Parece, todavia, que, nos últimos anos, a roda girou do lado de fora dos muros das redações dos jornais e das instituições universitárias, girou e quem estava dentro aparentemente não viu ou não quis ver. Inesperadamente, a sabedoria hostil ao bom senso e ao senso comum –– o tal conhecimento crítico, sobretudo autocrítico –– e a sistemática pregação contra os princípios de civilidade que dão coesão às sociedades ocidentais, vistos invariavelmente como instrumentos de dominação e opressão, passaram a soar inúteis e risíveis para o mundo exterior. É certo que podemos “resistir”, podemos acusar os “tempos sombrios” e podemos mesmo sonhar o sonho de que lutamos contra uma ditadura renovada, todavia, se queremos de fato sobreviver neste mundo novo que emerge e ter nele alguma relevância, a hora é de pôr fim às reclamações e renovar o portfólio de ideias e serviços que oferecemos à sociedade.

[1] SHILS, Edward. O apelo da educação: a ética acadêmica e outros ensaios sobre educação superior. Trad. Gilson C. C. de Souza. Bauru, SP: EDUSC, 2001.

[2] BOUDON, Raymond. Efeitos perversos e ordem social. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

[3] LIPSET, Seymour Martin. Rebellion in the university. Boston: Little Brown and Company, 1971; LIPSET, Seymour Martin; LADD, Jr. Everett Carl. The divided academy: professors and politics. New York: W.W. Norton & Company Inc., 1976; LIPSET, Seymour Martin (ed.) Politics and the social sciences. Oxford University, 1969.

[4] POSTMAN, Neil. Amusing ourselves to death: public discourse in the age of show business. New York: Penguin, 2006.

[5] NOZICK, Robert. Socratic puzzles. London/ Cambridge: Harvard University, 2000.

[6] RIOS, Diego; BERTON, Raul M. La misère des intellectuels. Pour quoi s’opposent-ils au capitalisme? Préface de Raymond Boudon. Paris: L’Harmattan, 2003.

[7] BOUDON, Raymond. Os intelectuais e o liberalismo. Trad. Francisco Agarez. Lisboa: Gradiva, 2005.

[8] SOWELL, Thomas. Os intelectuais e a sociedade. São Paulo: É Realizações, 2011; STOETZEL, Jean. Théorie des opinions. Paris: Presses Universitaires de France, 1943.

[9] TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1977.

[10] BERLIN, Isaiah. Ideias políticas na era romântica: ascensão e influência no pensamento moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 149-216.

[11] BOUDON, Raymond. O justo e o verdadeiro. Estudos sobre a objetividade dos valores e do conhecimento. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.”

  • Jean Marcel Carvalho França é professor Titular de História do Brasil da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e autor, entre outros, dos seguintes livros: “Literatura e sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista (Imprensa nacional – Casa da Moeda, 1999), “Visões do Rio de Janeiro Colonial” (José Olympio, 2000), “Mulheres Viajantes no Brasil” (José Olympio, 2008), “Andanças pelo Brasil colonial” (Editora da UNESP, 2009), “A Construção do Brasil na Literatura de Viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII” (José Olympio/Editora da UNESP, 2012), “Piratas no Brasil“ (Editora Globo, 2016) e “Ilustres Ordinários do Brasil” (Editora da UNESP, 2018).

Por Jean Marcel Carvalho França. Gazeta do Povo. 22.6.2020.


Factótum Cultural Ver tudo

Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: