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Volta de jovens adultos para a casa dos pais torna-se realidade em várias de famílias brasileiras com a pandemia

Dificuldades no mercado de trabalho impulsionam fenômeno que deve durar mais alguns meses

O pão que ficou em cima da mesa da cozinha de Renata e Roberta Mach já está cheio de bolor. O requeijão na geladeira, certamente, também não presta mais. Faz dois meses que as duas irmãs, de 33 e 30 anos, respectivamente, trancaram o apartamento que dividiam em Niterói e foram correndo para a casa dos pais, em Petrópolis, onde foram criadas. “Nunca tinha passado mais de duas semanas com eles desde que saí, em 2005, para estudar”, diz Renata, analista de marketing.

O movimento das irmãs Mach, uma realidade em várias famílias brasileiras, tem um porquê: a Covid-19 abalou estruturas econômicas, emocionais e sociais. “Tem havido, sim, um retorno. Acredito que seja momentâneo, mas não sabemos quanto tempo isso vai durar”, diz a psicanalista Cynthia Bezerra. Os motivos para o regresso variam. Há casos em que a reorganização financeira fala mais alto, afinal, estima-se que um a cada cinco jovens no mundo tenha perdido emprego na pandemia, segundo dados da Organização Mundial do Trabalho (OIT). Entre quem conseguiu mantê-lo, 23% teve jornada reduzida. A analista de RH Roberta Mach já estava fora do mercado desde janeiro e agora teme que a realocação fique ainda mais complicada e prolongue sua temporada em Petrópolis, o que vai ao encontro das previsões da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Para a entidade, há o risco de que essa situação crie uma “geração perdida de profissionais”.

Mas não é só dinheiro que rege essas mudanças. Há situações em que o rearranjo familiar tem a ver com preocupações e cuidados dos filhos com os pais e vice-versa. O caso das Mach também passa por essa questão: o pai quis mantê-las por perto, na Serra, onde havia menos chance de uma explosão da doença, e o projeto inicial, pelo menos de Renata, era ficar 15 dias por lá.“Vim só com cinco mudas de roupa”, diz ela, ainda sem saber quando voltará a Niterói.

O ano de 2020 não tem sido para planos, mas o engenheiro Julio Vizeu, de 24 anos, está tentando se programar no meio do caos. Também em Petrópolis, com a mãe e a irmã mais nova, de 20 anos, Julio, a essa altura, já assimilou a realidade: fica com a família até o fim do ano. A vida no Rio, no apartamento onde vivia sozinho em Ipanema, volta em 2021. “Dei uma melhorada no home office, comprei até uma cadeira, para não ficar mais tão provisório. Estou criando uma rotina, algo que não fiz no começo porque achei que pudesse voltar logo”, diz o rapaz, que se sente mais seguro fora da capital.

As duas famílias petropolitanas não esperavam que os filhos fossem voltar para casa — ainda mais por um motivo até então inimaginável, como uma pandemia. Além de todas as complicações físicas e mentais, a doença global também alterou entendimentos e planos de liberdade, não só dos jovens adultos, mas de seus pais, já acostumados a terem os filhos longe. “Foi tudo uma surpresa. Ele tinha iniciado um trabalho, acabado de se formar. E eu já estava cada vez mais independente. Tinha a minha vida de volta, não havia tanto compromisso com a casa. Isso combinou com a aposentadoria”, diz a engenheira Marcia Vizeu, de 54 anos. Agora, ela tem, novamente, a responsabilidade de certas tarefas. “Tive que me reajustar nas contas, nos horários, nessas coisas das quais havia me desligado um pouco”, diz a engenheira.

Assim como a mãe, Julio pensa, vez ou outra, na liberdade perdida. Ele costuma ouvir reclamações de que não dá uma atenção a mais no fim de semana de folga. “É um momento em que quero ficar sozinho, conversar com os amigos, mas aí rola uma exigência. A cobrança para socializar aumentou”, diz Julio.

Segundo a psicanalista Cynthia Bezerra, quando os filhos saem de casa, mães e pais precisam se reestruturar espacial e psiquicamente para minimizar o “luto” diante do ninho vazio. “Há uma reorganização, desde a feira até o lugar subjetivo que eles passarão a ocupar na vida daquela família”, diz a especialista. Com essa volta, é preciso colocar em prática a remodelação mental feita no passado. “Os pais devem entender que não são mais responsáveis. Hoje, eles têm homens e mulheres em casa e atuam como colaboradores. Não ditam mais a rotina.”

Apesar de sentir falta de uma maior possibilidade de silêncio, Renata Mach tem visto nos pais não só os colaboradores, mas também os amigos que eles podem ser em sua vida adulta. “Estamos reconectados. Nesta fase, há outro tipo de cabeça, conversas e interações. Aos sábados e aos domingos, a gente senta, brinca, mostra para eles as lives, assiste juntos. Não tem mais estresse”, reflete Renata. “Quando éramos adolescentes, qualquer ranhura resultava em bateção de porta. Hoje, vejo que não é tão chato voltar para a casa dos pais.”

Pense na mudança de comportamento e de espaço quando se recebe uma visita por uma semana. Agora, imagine quando “essa visita” já dura mais de um ano. É o caso do produtor cultural Fausto Júnior, de 33 anos, que morava sozinho no Rio desde 2006, mas, em 2019, passou a viver com o pai, a mãe e duas irmãs mais velhas em Resende, no interior do estado. Não foi a pandemia que o levou de volta à terra natal, mas a situação claudicante da cultura no Rio. A Covid-19, no entanto, cancelou alguns processos seletivos profissionais que poderiam trazê-lo de volta à capital. Enquanto isso, ele segue dividindo o quarto com os pais. Essa foi a forma arranjada pela família para que Fausto não alterasse a dinâmica das irmãs, que há muito ocupavam o outro quarto e já tinham uma rotina azeitada desde que ele saiu. “Agora que voltei, percebi que não tinha nenhum espaço”, diz. “Mas meus pais são pessoas que gostam de acolher e acabaram dando um jeito.”

Algo semelhante aconteceu com a publicitária Luisa Agra. Desde outubro do ano passado, a jovem de 27 anos deixou a casa da família no Recreio para morar com uma amiga na Zona Sul. Os cômodos, então, foram reorganizados, já que, antes, ela e o irmão dividiam o maior quarto, separando o espaço de cada um com um armário que fazia as vezes de parede. Com a saída de Luisa, o rapaz ficou com tudo só para ele; agora, a mudança foi drástica outra vez. “Semana passada, meu irmão foi para o quarto dos meus pais, e eles ficaram com o maior. Com a divisão do armário, fizeram um espacinho pequeno para mim”, diz ela, que decidiu se juntar novamente à família depois de a amiga tomar essa decisão. Passar a quarentena solitária estava fora de cogitação.

A mediação também passa pelos ambientes comuns. Fausto, por exemplo, diariamente tem que negociar os horários da TV da sala e do quarto — quem vê o que e a que horas. Luisa impacienta-se um pouco com a cozinha, já que a mãe recebe encomendas de quiches e “a linha de produção” não deixa que o ambiente seja igual ao de sua antiga moradia.

A psicóloga Andréia Dumas sente que os problemas surgidos entre quatro paredes geralmente estão relacionados à comunicação. “Os choques são inevitáveis, pelo menos no início. Por isso, é preciso conversar, falar sobre sentimentos. Mas essa prática não pode ser agressiva, tem que ser delicada.”

A especialista acredita que essa vivência da quarentena é um momento único e pode ser aproveitado para ressignificar as relações. “Algo não foi legal lá atrás? Você pode fazer alguma coisa para melhorar agora? O jovem deve permitir que os pais o conheçam e vice-versa”, diz ela. Andréia sugere, como exercícios, uma reunião familiar em torno de fotos antigas e conversas sobre o passado e gerações anteriores.

Marcia Vizeu, mãe de Julio, tem feito isso: “A pandemia vai marcar na nossa vida. Tipo: ‘Lembra daquela quarentena?’ Sinto como se estivesse fechando uns buraquinhos de sentimento, conhecendo mais meu filho nessa idade. Estamos melhorando como pessoas.”

Tempo não falta.

Yahoo Notícias. 17.6.2020.

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