Ir para conteúdo

“Era Só mais um Silva que a estrela não brilha”

Por Felipe Sellin

Entendendo a violência do Rio: a criminalização da pobreza ...

A história que eu vou contar pode causar choque em muitas pessoas, embora seja uma condição comum para grande parte da população negra e pobre.

A seguir serão retratadas partes importantes e dramáticas da trajetória real da minha família.

Sou filho de pai vindo de uma família de descendentes italianos e mãe descendentes de africanos. Os mestiços, como eu, filhos de relações entre negros e brancos são chamados mulatos. A palavra é uma derivação de mula, um animal híbrido, originado de relação entre uma égua com um jumento.

Segundo explica minha mãe, como o sobrenome dela era muito comum, “Silva”, ela preferiu não incluir no meu registro. Assim, tenho apenas um sobrenome, aquele que indica minha filiação europeia. O sobrenome “Silva”, embora tenha origem portuguesa, foi dado a muitos escravos quando chegaram ao Brasil, por isso, realmente é muito comum (1).

Meus avós brancos moravam numa casa típica de imigrantes italianos. Assoalho de madeira e muitos filhos morando na grande casa. Na hora do almoço meu avô sempre pegava o melhor pedaço de carne. Todos podiam comer e o resto era jogado para os porcos. Eu tive 7 tios, um morreu de forma muito trágica, os demais estão vivos até hoje. Só meu pai entre os irmãos resolveu sair da zona rural. Mas hoje, entre meus primos, quase todos tem ensino superior e apenas um é agricultor.

Com relação a família africana, as coisas não são tão simples. Primeiro, que África nem é país, não foi apenas meu sobrenome que foi apagado, também foi retirado o direito de conhecer a nossa história. Não podemos saber sobre a chegada, muito menos pra onde foram, somente a certeza que vieram para trabalhar como escravos, ou seja, não seriam tratados como cidadãos. Minha avó contava que fugiu de uma fazenda quando tinha apenas 11 anos, não é possível saber se ela era escrava tardia ou de quais condições ela fugia. Quando minha avó faleceu em 2004, moravam com ela três dos seus filhos. Meses após sua morte os três filhos iniciaram disputas pelo controle da residência. O agravamento da tensão política na casa levou à prisão de um dos moradores. Meu tio foi acusado de ter agredido a própria irmã.

Meu tio estava desempregado a alguns anos. Seu último emprego formal havia sido como garçom de um restaurante na capital do estado. A ociosidade provocada pelo desemprego ocasionava diversos transtornos na família. Nesta época ele era casado e ainda convivia com as duas filhas desta relação. A ansiedade era um terreno fértil para o vício em bebidas. Logo, o alcoolismo provocava outros tipos de conflitos domésticos e problemas psicológicos que culminaram com a separação do casal. Acabou buscando abrigo na casa da mãe, uma senhora aposentada que veio a falecer pouco tempo depois, como eu já havia dito.

Na infância minha mãe e seus irmãos (incluindo este meu tio), moravam numa casa de apenas um cômodo com uma cama de casal no meio e era ali que todos os 18 filhos deveriam dormir. Meu avô morreu muito novo e sozinha minha avó espalhou os filhos que foram morar com famílias que poderiam ajudar a sua criação. Conheci apenas 7 irmãos da minha mãe, os demais morreram ainda na infância, não aguentaram a fome ou as condições sanitárias. A casa da minha avó era uma típica casa da favela, auto-construída com tábuas mal colocadas que deixavas frestas por onde passava muito frio nas noites de inverno. A solução era colar papel de revista nas paredes para melhorar a temperatura interna da casa.

Voltando ao meu tio, os irmãos realizaram um esforço para livra-lo da prisão. Mas, ao ser libertado ele demonstrou acreditar que os esforços foram menores do que ele merecia, por isso, ficou mais tempo do que deveria. Enfim, afastado de todos que ele considerava família e sem emprego ele acabou parando nas ruas.

Depois de algum tempo sem notícias a família recebe um telefonema do hospital. Meu tio havia sido espancado a pauladas e não resistiu. Como a história que ficou famosa quando jovens de Brasília atearam fogo em um indígena que disseram ter confundido com um mendigo (2), meu tio era tratado como constantemente são tratadas as pessoas das classes populares ou, como provocativamente prefere chamar Jessé Souza a “ralé” da sociedade brasileira (3). A formação da “rale” esta intimamente ligada a escravidão e a continuidade desde instituto nas vidas dos brasileiros. Em nenhum outro país do mundo existe um exército tão grande de serviçais e subalternos para realizar todos aqueles serviços que a classe média considera inapropriado para ela. Por isso, entender a “ralé” contribui para que possamos compreender todos os grandes problemas do Brasil, como a desigualdade social, a violência, a falta de leitos no SUS, a qualidade da educação básica e o racismo. Nos ajudam a entender como é possível a morte do meu tio, e como é possível a morte de Miguel, o menino de 5 anos filho de uma empregada doméstica que deveria ser cuidado pela patroa de sua mãe e acabou caindo de um prédio de 9 andares (4), ou de Agatha e outras crianças mortas pela polícia no estado do rio de janeiro (5). Também nos ajuda a compreender por que nenhuma destas mortes provocou a revolta que a morte de George Floyd (6) causou nos Estados Unidos.

A morte do meu tio é apenas o desfecho trágico de uma vida condenada. Nascido numa casa que faltava de tudo e sem as mínimas condições sanitárias foi um dos eleitos de uma seleção natural que sucumbiu mais da metade dos irmãos. Em seguida, se tornou vítima de um sistema educacional incapaz de reter o aluno que precisava trabalhar e estudar. Sem escolaridade, ficou a merce de um mercado de trabalho precarizado que prefere jovens e disciplinados. Na sequência, passou a ser vítima de suas próprias escolhas. Ao tentar fugir da ansiedade causada pelo desemprego perdeu a família; ao não se sujeitar a irmã, foi preso acusado de violência; ao se sentir menosprezado pelos irmãos terminou na rua. Somadas ao fato de o preconceito racial conceder privilégios até para o mendigo branco em relação as demais pessoas em condição de rua (7) meus demais tios (e minhã mãe é claro) conseguiram realizar o menos provável, sobreviver!

Inicialmente eu avisei que a história poderia causar-lhe um choque. Assim como a energia elétrica não pode ser vista, mas seu choque provoca efeitos que podem ser duramente sentidos, o racismo que estrutura as relações sociais no Brasil é invisível, mas causador de enormes estragos. Você não pode colocar o dedo na tomada para entender o choque causado pelo racismo. Mas, sua empatia pode transformar este choque em indignação. A mesma indignação que nos fará transformar a realidade.

PS: Se você sentiu falta de um pouco mais da história da parte branca na família, imagine que a história dos negros que simplesmente foi apagada.

(1) https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-tem-tanto-silva-no-brasil/

(2)https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2018/04/20/ interna_cidadesdf,675182/morte-do-indio-galdino-em-brasilia-completa-21-anos-hoje.shtml

(3) http://flacso.redelivre.org.br/files/2014/10/1143.pdf

(4) https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2020/06/07/caso-miguel-menino-que-caiu-do-9o-andar-de-predio-nao-tera-missa-de-setimo-dia-por-causa-do-coronavirus.ghtml

(5) https://theintercept.com/2019/09/22/agatha-oito-criancas-vitimas-wilson-witzel-rio-de-janeiro/

(6) https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52893434

(7)https://www.youtube.com/watch?v=EC-IywB3dEA&list=PLUK6DwIYi9DJYMns3pzkCr5nCv6O6x2YC

Felipe Sellin, Sociólogo, Professor e Escritor. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Factótum Cultural Ver tudo

Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: