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Atitude filosófica no distanciamento social

Por Ronaldo Campos

Aproveitamos este momento de quarentena para colocar a casa em ordem. Abrir aquele armário que em outros tempos nem mais lembrávamos do formato da maçaneta, da textura da porta e do quanto ele é grande, pequeno ou profundo. Criamos um olhar crítico e reflexivo com tudo e com todos que intensamente nos rodeiam neste momento de distanciamento social. Em outras palavras, se fôssemos alunos de exame pré-vestibular, estaríamos matriculados num cursinho intensivo de atitude filosófica.

A atitude filosófica é formada por duas características fundamentais: uma negativa e outra positiva. A negativa surge quando se toma uma distância dos fatos da vida, ou seja, nega-se a experiência cotidiana que é pautada em crenças e ao mesmo tempo questiona-se quais são suas causas e sentido; a atitude filosófica positiva também baseia-se em questionamentos, só que procura compreender as ideias, os fatos, as situações e a nós mesmos. Somadas essas duas características, tem-se o que a filosofia chama de atitude crítica.

Cuidado! Atitude crítica não se confunde com gente chata que reclama de tudo a toda hora, que aponta o dedo para as coisas e para os outros enumerando uma infinidade de defeitos. Também não se refere à pessoa mal-humorada que rosna a cada palavra pronunciada. Aqui o conceito de crítica deve ser entendido na sua origem grega, advinda dos filósofos helênicos, que atribuíam dois sentidos principais à crítica. O primeiro deles refere-se à capacidade para julgar corretamente os fatos de modo racional, sem preconceitos e prejulgamentos. O segundo é o exame detalhado de uma ideia, de um valor, de um costume, de uma obra artística ou científica etc.

Não sei se perceberam, mas aqueles que conseguem, neste momento tão conturbado, julgar os fatos de modo detalhado e racional, conseguem estar imbuídos no cerne da atitude filosófica. Para começar, foi dito um grande ‘não’ aos preceitos e crenças do dia a dia para que fossem avaliados racional e criticamente. Trazendo para um sentido mais filosófico, quero dizer que não sabemos o que imaginávamos saber. É o que foi dito por Sócrates: “Só sei que nada sei”. É como se voltássemos aos primórdios da filosofia grega, nos admirando e nos espantando com tudo e com todos. Assim como fizeram Platão e Sócrates, que se admiraram e se espantaram, respectivamente, com os fatos que vivenciaram em suas vidas. É o reconhecimento tácito da ignorância e ao mesmo tempo a certeza de que podemos superá-la.

Já nas palavras da filósofa Marilena Chauí, fica assim: “Nós nos espantamos quando usamos o pensamento para tomar distância do nosso mundo costumeiro, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes. Seria como se tivéssemos acabado de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que épor que é e como é o mundo e também o que somospor que somos e como somos”. Como não tenho um milésimo do conhecimento e da sabedoria da Chauí, eu diria que é o olhar de espanto e admiração para o mesmo armário que sempre esteve lá. Como não vi essa maçaneta antes? Desconhecia a textura da porta do armário! Não sabia que tinha tanto espaço dentro dele!

Assim sendo, a filosofia se interessa por aqueles instantes em que a realidade das coisas, ou seja, o mundo que nos rodeia e o mundo dos seres humanos (a sociedade) tornam-se estranhos, enigmáticos, incompreensíveis, e todas as opiniões estabelecidas já não são mais suficientes para descrevê-los. Isto é, a atitude filosófica sempre estará presente nos momentos de crise, tanto do pensamento quanto da linguagem e, também, da ação. Pois é nos momentos de crise que se torna mais clara a exigência de fundamentar as ideias, os discursos e as práticas. É exatamente isso que está acontecendo neste instante! Estamos cercados por contradições de todos os lados, seja no campo político, seja no científico, no artístico, no religioso etc. Enfim, em todas as áreas da atuação humana.

Para superarmos essas contradições, continuaremos por um bom tempo em estado de atitude filosófica. Ainda estamos na primeira característica fundamental: a negação. A rotina de todos nós foi negada. Algumas pessoas com mais sensibilidade e outras com menos perguntam-se: Quais são as causas e o sentido de tudo isso? À medida que houver mais compreensão, entraremos na característica positiva. E com os dois lados da mesma moeda em mãos, espera-se maior racionalidade e atitude crítica de todos em relação a um mundo que está passando por profundas mudanças.

Revista Inspire-C. 17.4.2020.

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