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A pandemia do anti-intelectualismo

‘De que mal morirá’, de Goya

O início do século XXI tem algumas semelhanças com o do século passado: um antiliberalismo crescente, trazendo a cargo o gérmen do anti-intelectualismo, e uma pandemia de grandes proporções, que no mundo globalizado toma dimensões inimagináveis, seja pelo grande número que são por ela tocados, seja pela rapidez de sua expansão.

A pandemia e suas amplas e imprevisíveis consequências são acompanhados pari passu pela onda anti-intelectualista que se espraiou também de forma endêmica nos últimos anos. A educação, que nunca teve um projeto de envergadura como eixo central no desenvolvimento da nação, foi ainda mais enfraquecida nos últimos tempos. Os contínuos ataques perpetrados pelo governo central às universidades, desmoralizando-as e asfixiando-as financeiramente, buscando esvaziá-las de seus sentidos sociais, são os sintomas mais claros de uma política ressentida que busca incansavelmente, e sem nunca encontrar, os culpados pelos infortúnios de um povo que apenas ele acredita representar.

Scheler

A torrente anti-intelectualista que se espraia epidemicamente pelas democracias ocidentais nos últimos anos tem raízes psicológicas. Está calcada na inveja e no despeito, que por sua vez, como nos ensina Max Scheler (1874-1928), junto ao ciúme e à aspiração da concorrência, tem o ponto de partida para a formação do ressentimento – “um envenenamento da personalidade”. Uma intoxicação individual que, em alto grau, precisa encontrar vias para escoar o ódio e a ira que ali se constituem e se acumulam. Uma delas é a emergência de uma vida motivada pelo ideal de “virar o jogo”, de se alçar ao lugar fantasioso em que o senhor que o oprime e faz sofrer será castigado. A existência se torna o espaço de uma guerra sem fim, que promete no futuro suas recompensas pelo esforço dedicado. A expectativa milenarista alimenta o projeto do ressentido.

thymós dos humilhados, como Sloterdijk definiu esse quantum de afeto que embriaga os ressentidos, faz parte de um projeto epocal que tem na modernidade seu ponto de inflexão: é preciso organizá-lo e concentrá-lo de tal maneira que a ira daí produzida se torne a força para transformar o mundo – ou destruí-lo.

O furor destrutivo que acompanha a onda anti-intelectualista tem história e continua seu caminho na contemporaneidade. Anti-intelectualism is a virus, intitulou Michael E. Peters o editorial de um número da Educational Philosophy and Theory de 2018. Peters inicia seu texto nos recordando da história do senador norte-americano Joseph R. McCarthy, que a partir de 1947 desencadeou uma caça às bruxas que atravessou várias esferas culturais dos Estados Unidos, concentrando-se nos ataques orquestrados contra intelectuais, scholars e escritores. Elemento que salta aos olhos na análise e que nos faz refletir imediatamente sobre a situação atual brasileira é a sincronia do surgimento do movimento macartista e o revival fundamentalista no sul do país que, segundo Peters, defendia um inquestionável patriotismo. O anti-intelectualismo pode se alimentar de fontes religiosas sectárias.

O pensador, o intelectual e a instituição universitária só têm lugar nesse novum saeculum enquadrando-se organicamente aos desejos do líder, que encarna e embala a nova política. Os saberes produzidos devem estar a seu serviço, submetendo-se aos interesses e à verdade do “povo”, colaborando na legitimação de um projeto mais amplo que visa expurgar os seus inimigos num confronto apocalíptico. O anti-intelectualismo é um antiesclarecimento.

Segundo Michiko Kakutani, em seu livro “A morte da verdade”, a direita populista contemporânea se apropriou dos argumentos pós-modernistas e seu repúdio filosófico da objetividade. A rejeição dos ideais do Esclarecimento pela Nova Esquerda, como razão e progresso passou, ironicamente, a ser compartilhada pelas novas expressões populistas. Negacionistas de todas as estirpes – revisionistas do Holocausto, do golpe civil-militar de 1964 no Brasil, por exemplo – exploram o argumento de que não existem verdades e que todas aquelas que são proferidas carregam uma parcialidade e/ou são arbitrárias. Os usos e abusos das perspectivas epistemológicas pós-modernas pela direita populista levaram intelectuais a reações contra o espectro de irracionalidade que atravessa o mainstream político e também acadêmico. Catedráticos como Timothy Snyder levantaram a voz e passaram a defender a verdade dos fatos. Uma de suas vinte lições sobre a tirania é “acredite na verdade”. Para o professor de Yale, “abandonar os fatos é abandonar a liberdade. Se nada for verdadeiro, ninguém poderá criticar o poder, porque não haverá uma base para fazê-lo”. É exatamente essa base que vem se esboroando sob nossos pés há algumas décadas. Termina a lição com um aviso: “A pós-verdade é o pré-fascismo”.

Michiko Kakutani

No momento em que vivemos uma pandemia global, a negação da ciência e da verdade dos fatos que se impõem universalmente é a cereja do bolo da estupidez populista que, seguindo longa tradição autoritária, se dirige às populações não com provas científicas, mas com seu sentimentalismo demagógico e suas crenças infundadas. É que os fatos inconvenientes devem ser desacreditados e afastados. O anti-intelectualismo é a expressão da denegação atávica da direita populista.

Por Rodrigo Coppe Caldeira. Estado da Arte. 25.3.2020.

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