Ir para conteúdo

A Batalha pelo Trono no Brasil

Por Felipe Sellin

“E EU TENHO UM PONTO SENSÍVEL EM MEU CORAÇÃO PARA ALEIJADOS, BASTARDOS E COISAS QUEBRADAS.” Tyrion Lannister

(Contém spoiler da série e do país)

Antes de tudo, pretendo me apresentar a você.

Eu tenho um amor e um desamor intimamente ligado ao texto de hoje. Sou um apaixonado por seriados de televisão (que agora estão nas plataformas de streaming); ao mesmo tempo em que sou indignado com a desigualdade social existente, em especial, no capitalismo brasileiro.

Dito isso, curiosamente, a crise brasileira atual eclodiu ao mesmo tempo em que as séries de televisão e das plataformas de streaming se tornaram fenômenos da cultura pop. Talvez por isso, não faltaram relações entre a realidade brasileira e a dramatização de várias destas séries. 

A mais conhecida delas foi relacionar o personagem principal de House of Cards e o ex-presidente do congresso Eduardo Cunha. Na série, Frank Underwood é um político sem escrúpulos que sabe utilizar as regras da democracia liberal para alcançar seus objetivos inescrupulosos e antirrepublicanos.

Outra série que constantemente aparece relacionada com a vida brasileira é The Handmaid´s Tale. A obra trata-se de uma distopia em que o poder foi tomado por grupos ultraconservadores que utilizam distorções bíblicas como ferramenta de controle ideológico.

Portanto, as séries tratam de dois assuntos que fazem parte do vocabulário político atual (principalmente aquele usado nas redes sociais): corrupção e fascismo.  

Poderia escrever ainda muitas linhas sobre as relações entre séries e a realidade brasileira. Senão, que cada uma das citadas merecia atenção que cabem em teses acadêmicas. Mas, diferente das leituras pessimistas que apresentei anteriormente, estou convencido que George R. R. Martin, o autor das Crônicas de Gelo e Fogo, livros que originaram a Game of Thrones, nos sugeri caminhos para nossa crise atual, mas para isso, devemos avançar até o final da história.

A conjuntura de Game of Thrones é de enorme instabilidade política, isso após a queda de um grupo político em uma manobra repleta de traições contra um governante considerado louco por muitos.

Chegamos então, ao início da nossa história. A família no poder demonstra toda forma de perversidade, incapacidade dos novos governantes e distanciamentos dos problemas reais (Os Lannister, família que toma o poder, é parte da elite econômica que odeia pobres e só pensam em proteger a si mesmos de qualquer ameaça).

Os outros grupos políticos, e até mesmo aliados, tentam avisar sobre a existência de um grande perigo que pode colocar fim a humanidade. Este perigo é maior que qualquer disputa política.

O governante é colocado frente a frente com um morto vivo, avisado de como ele se multiplica em grande velocidade e que todos poderiam acabar daquele jeito. Apesar do pavor demonstrado naquele momento e promessas de que poderia ajudar naquele combate contra a morte, a família no poder se recusa a travar aquela que parece ser a verdadeira guerra. Ao invés disso, o governo mente, sabota aqueles que buscam salvar vidas. Há um custo nisso, que o faz perder os mais importantes aliados, mas não o faz recuar.

Como se não fosse suficiente, existem alguns outros personagens curiosos. O pai desta dinastia é o homem mais rico e poderoso do mundo. Ele representa seus interesses econômicos e aparece como o mentor intelectual deste governo (Um misto de Donald Thurmp e de seu marqueteiro, que também trabalhou na campanha política do atual presidente brasileiro, Steve Bannon).

Muito próximo a todos os que ocuparam o poder, está um personagem que todos sabem que gostaria de ocupar o posto máximo do poder e sabem que não podem confirma nele. Às vezes se apresenta como aliado, mas é capaz de golpear se houver interesses seus em jogo (em qualquer guerra de tronos existem vários canalhas como este).

O mestre dos sussurros, personagem responsável pela comunicação dos atores no poder é responsável pelas informações sobre o que acontece no mundo, o que pensam os grupos populares, e, principalmente, transmite as informações da maneira como quer, muitas vezes distorcidas. Uma espécie de gabinete do ódio de Westeros. Curiosamente, as noticias são transmitidas por pessoas conhecidas como “passarinhos” símbolos da rede social mais utilizada pelo governo brasileiro.  

Há ainda a figura da fé militante, um grupo religioso conservador capaz de controlar a tal ponto opinião popular e colocar o povo para cuspir e xingar a mulher que estava no poder e que antes era amada por conta de um crime banal, se é que de fato podemos considerar crime o que ela fez. Ou mesmo, colocar na prisão um governante por não seguir sua postura conservadora ditada pelo Alto Septão.

Mas, eu havia falado em otimismo, pois, existem alternativas políticas. A primeira das alternativas é ligada ao grupo político que já esteve no poder no passado. Embora este grupo se dedique a reformas sociais por onde passa, quando esteve no poder também fez suas maldades, no entanto, afirma que agora tudo será diferente. Correndo por fora, um bastardo dos grupos políticos. Dizem que ele não pertence a nenhum grupo político o que o torna mais fraco politicamente, mas, se você olhou a história com atenção, já sabe que este cara pertence aos dois grupos e por isso, tem características de todos eles (Importante lembrar, que, na ficção, a união entre estes dois foi o principal fator para a derrota dos Lannister).

Contrariando a todos os interesses dos atores políticos apresentados, haverá uma proposta de mudar tudo para um novo sistema. Apesar de a proposta ser apresentada por um respeitável estudioso da política, as elites certamente zombarão de qualquer solução que lhes tire o poder. 

Mas, a solução que a série encontra para vencer a tirania e promover a paz é surpreende. Alguém que até então permanecia quase a margem do jogo político. Pensando no grupo que ele representa, pela primeira vez estará no poder, não os interesses de uma família, mas sim os trabalhadores, os pobres, os deficientes, os imigrantes e as crianças, ou seja, todos os “excluídos da história”.

Eu admito que o final da série não agradou a maioria, mas isso se deve ao fato dos interesses econômicos da emissora, por um lado, e a ansiedade de nós, em sermos (apenas) espectadores. Em nossa batalha de tronos, precisamos aparecer como sujeitos ativos da ação política, e, talvez, não precisemos mais de um trono!

Se você não conseguiu relacionar os personagens da série e os atores políticos da realidade brasileira, ou você não conhece a série, ou está lendo mal o Brasil.

Se você não viu a série, acredito que está perdendo uma ótima oportunidade de entretenimento.

Se você não compreendeu o Brasil, faremos mensalmente um enorme esforço para te ajudar com essa tarefa de realizar uma análise política e social do país de forma leve aqui em nossa coluna.

Felipe Sellin, Sociólogo, Professor e Escritor. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Factótum Cultural Ver tudo

Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: