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Por que o capitalismo odeia os intelectuais?

Quando os historiadores do futuro historiarem as condições que permitiram a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, certamente perceberão que uma onda de anti-intelectualismo na internet precedeu esse movimento político em alguns anos. Durante esse período, na linha liberal de anti-intelectualismo, uma ideia foi recorrente: os intelectuais odeiam o capitalismo. De influenciadores isolados a think-tanks conservadores, o refrão foi martelado com uma insistência obsessiva.

Um dos textos mais circulados nesse período de preparação ao bolsonarismo foi “Por que os intelectuais odeiam o capitalismo?”, de um autor ligado à chamada Escola Austríaca, o espanhol Jesús Huerta de Soto. Entre nós, seu libelo foi difundido por um think-tank direitista, o Instituto Mises Brasil. As ideias de Huerta de Soto sob esse aspecto, por certo, não merecem em si mesmas discussão séria; seu texto é um texto de combate; como tal, lança mão da retórica característica do gênero. Os intelectuais são “os intelectuais”, e essa classe homogênea é movida por paixões como se fosse um só homem. Todo um grupo de pessoas mais ou menos influentes na cultura seria movido pela inveja, pelo ressentimento e pela arrogância. A crítica à sociedade capitalista que venha desses setores é remetida, de saída, a um discurso de ódio. Não decorreria de insuficiências e de excessos em uma economia de mercado, mas de paixões tristes nos descontentes.

Líderes como Bolsonaro não se criam do dia para a noite.

Huerta de Soto

Para além da pura lógica da provocação, característica de toda militância e exacerbada pelo proselitismo de direita na nossa época, o panfleto de Huerta de Soto carrega a sua verdade. Não pelo seu conteúdo, mas pelo próprio fato da sua enunciação. Ele manifesta o profundo-mal estar da mentalidade capitalista quanto à atividade intelectual e aos intelectuais enquanto grupo social. Essa hostilidade é projetada no adversário e borrada na consciência do odiador. O outro odeia; eu sou odiado; por isso odeio. A própria pergunta que intitula o artigo poderia ter como resposta sua forma invertida: “Por que o capitalismo odeia os intelectuais?”.

A opinião de Huerta de Soto não é única. Uma busca no Google encontra discursos semelhantes, em graus diferentes de elaboração, na boca de personagens os mais variados. Em 2015, o CEO da Whole Foods, John Mackey, deu uma entrevista à Reason com acusações parecidas. O ódio aos intelectuais que odeiam o capitalismo é uma das coisas mais bem repartidas neste mundo.

Lagarde e Sarkozy

Essa animosidade da mentalidade capitalista por um certo tipo de atividade intelectual pode também se exprimir de maneira mais sutil e por personagens mais consistentes. Em 2007, Christine Lagarde, ao assumir como Ministra da Economia da França, sob o governo liberal de Nicolas Sarkozy, pronunciou um discurso de saudação na Assembleia Nacional. Citando Tocqueville, Lagarde associava de perto democracia e trabalho, lançando: “Quantas voltas para dizer uma coisa no fundo tão simples: é preciso que o trabalho compense. Mas trata-se de um velho hábito nacional: a França é um país que pensa. Não há muitas ideologias cuja teoria não tenhamos feito. Possuímos em nossas bibliotecas o que discutir pelos próximos séculos.” E fulminou: “Eis por que eu gostaria de dizer: chega de pensar agora. Arregacemos as mangas”.

Em 2007, segundo a linha dada pelo próprio Sarkozy, a ministra Lagarde opunha estritamente ação e pensamento em favor do imperativo hands on. Soava bem em um governo explicitamente inspirado na direita dos Estados Unidos, como o de Sarkozy em seu início. Repercutia, e isso é surpreendente, as idéias fixas dos conservadores americanos quanto à Europa. Mais surpreendente ainda, fazia-o apelando a Tocqueville —  justamente Tocqueville, que analisou os perigos do igualitarismo democrático-capitalista na América e que pensou sobre os contrapesos e sobre os antídotos a esses males.

Alexis de Tocqueville

O mesmo Tocqueville poderia ter sugerido a Christine Lagarde outra linha de argumentação. Poderia ter servido a que ela mostrasse como a associação entre democracia e trabalho — e entre suas formas degradadas: o ressentimento igualitário e o utilitarismo materialista — é um motor precisamente ao anti-intelectualismo que a tecnocracia mais qualificada partilha com o seu antípoda, o populismo.

Para Tocqueville, a democracia de livre mercado convidaria todos ao banquete do bem-estar, mas a participação efetiva de cada um na sociedade do consumo e do conforto raramente estaria à altura das expectativas geradas pelo igualitarismo, e a cólera da injustiça só se tornaria mais aguda. Ora, não apenas o intelectual não contribui em muito a essa festa; seu papel por excelência é o de tomar distância, de estudar as ausências nas listas de convidados e de mostrar que alguns pratos estão requentados. Em suma, sua postura, mesmo quando distingue méritos na comilança, é de superioridade crítica. E de superioridade crítica quanto ao que as massas democráticas mais desejam, mesmo que ele o faça em favor delas. Daí que seja fácil a populistas — atualmente de direita, mas não só — lançar as paixões baixas dos cidadãos ansiosos por uma participação maior nessa festa contra os que, mesmo sentados à mesa, se dão o direito a comentários. Enquanto isso, muitos desses mesmos populistas reservam para si as melhores iguarias. Só isso explica que Trump seja das figuras centrais da reação antissistema, mesmo sendo um herdeiro e um milionário ostentatório. Sua parte leonina no banquete causa menos inveja do que a pretensão dos intelectuais ao alardearem que acham a festança toda de mau gosto.

Ensaio da família Trump na ‘Home Beautiful’

Esse modo de apresentar as coisas pode parecer excessivamente abstrato e generalizante. Temos sorte de a história haver registrado, em um país, esse processo de esvaziamento e de hostilização em alta velocidade do intelectual, com o advento do capitalismo.

As vozes da perestroika e da dissolução da URSS, colhidas por Svetlana Alexeievitch nos depoimentos que compõem O fim do homem soviético, dão a medida desse processo na Rússia pós-comunista. Os relatos de Svetlana insistem que a palavra do intelectual, na URSS, tinha um peso muito específico. Podia ser assim porque, depois do ódio professado por Lênin aos intelectuais, o Estado totalitário nascido da Revolução instrumentalizava escritores e artistas a seus fins — Górki talvez seja o caso mais emblemático desse uso. Podia ser assim também porque a existência econômica e social da antiga URSS facultava o tempo e o ritmo de vida próprios a uma certa imantação da palavra. Ou porque os burocratas do Partido tinham uma noção vertical e sacralizada da cultura. O império um dia cai, e as gerações que viveram esse mundo não se reconhecem no mundo dos novos-russos, dos três turnos de trabalho para garantir uma existência que antes a coletividade pretendia dar por assegurada. Qual tempo restou para a palavra pensada na sociedade russa hiperatarefada da democracia e da economia de mercado?

Svetlana Alexeievitch

“Estávamos dispostos a ouvir de joelhos nossos poetas e bardos favoritos. Os poetas enchiam estádios. A polícia montada ficava de plantão. As palavras eram atos. Levantar-se em uma assembleia e dizer a verdade era um ato, porque era perigoso. Ir para a praça… Era a maior viagem, a maior adrenalina, a maior válvula de escape. Tudo aquilo confluía nas palavras… Hoje isso é inacreditável, hoje tem que fazer alguma coisa, e não falar. Você pode falar absolutamente tudo, mas a palavra não tem mais nenhum poder.””

Lagarde não diria melhor do que essa anônima entrevistada por Svetlana Alexeievitch.

Não que haja nesses depoimentos nostalgias do totalitarismo. Ao contrário, se o poder soviético pretendia celebrar a pátria e o socialismo pelo culto a Puchkin, a verdade é que os opositores do regime — democratas ou socialistas dissidentes — valiam-se também precisamente da palavra pensada como forma de contestação política. Não faltam depoimentos em O fim do homem soviético que recordam a circulação frenética das edições clandestinas e a leitura febril dos poetas e escritores proibidos pela ortodoxia. Mesmo as conversas, as famosas conversas de cozinha na calada da noite moscovita, espionadas e temidas pelo poder, desapareceram em favor da corrida por status e pela sobrevivência, uma vez assentado como princípio máximo da sociedade o imperativo econômico. Outra testemunha conta:

“De algum lugar, surgiram pessoas completamente diferentes: jovens com casacos violeta e anéis dourados. E com novas regras do jogo: se você tem dinheiro, é um ser humano; se não tem, não é ninguém. Quem se importa se você leu todo o Hegel? ‘Pessoa de humanas’ soava como um diagnóstico. Tudo que eles sabem é ficar segurando um livrinho de Mandelstam, eles diziam”.

É importante que se diga: a animosidade e o desprezo dos novos-russos pelo intelectual não serviam como um marcador ideológico — dissidente com Soljenítisin ou nostálgico de Stalin, pouco importava; era a palavra pensada ela mesma que estava em jogo. Tratava-se de uma forma de vida contra outra forma de vida. Em um trem, Svetlana Alexeievitch conhece uma dessas novas russas, brilhante e ambiciosa jornalista, ex-amante de um oligarca. Suas palavras talvez sejam as mais impressionantes em O fim do homem soviético, um livro em que não faltam palavras impressionantes sobre morticínios, torturas, desespero (e solidariedade):

“Por muito tempo, eu carreguei essa marca, de moça de boa família, vinda de uma casa com muitos livros, onde o principal móvel da casa era a estante de livros, e que escritores e pintores me davam atenção. Gênios incompreendidos. Mas eu não tinha intenção nenhuma de dedicar a minha vida a um gênio que só vai ser reconhecido após a morte e que vai ser adorado por nossos descendentes. E depois, tinha todas essas conversas, em casa eu já tinha ficado cheia delas: o comunismo, o sentido da vida, a felicidade para os outros… Soljenítsin e o Sákharov… Não, aqueles não eram os heróis da minha história, eram os heróis da minha mãe. Os que liam e sonhavam em voar, como a gaivota de Tchekhov, foram substituídos pelos que não liam, mas sabiam voar”.

A afirmação do que voa sobre o que sonha, do que age sobre o que fala, do que crê que vive sobre o que sabe que morre — como yuppie culta, a mulher entrevistada por Alexeievitch está no limiar entre essas duas formas de vida, e seu depoimento é cristalino porque ela encontra as palavras inteligentes e sinceras para testemunhar a passagem de uma a outra. Resta saber por que esse ódio da mentalidade capitalista aos intelectuais. Talvez porque a forma de vida intelectual seja incômoda ao excesso de presença que há na sociedade da produção. Ela lhe lembra que há uma lacuna fundamental no voo sem sonho e na ação sem palavra.

Por Rodrigo de Lemos é professor na UFCSPA (RS) e doutor em Literatura pela UFRGS.

Estadão. Estado da Arte. 31.3.2020.

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