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Filosofia de botequim (fechado)

“Esse foi o quadro que o coronavírus encontrou quando por aqui chegou. Um capitalismo predador, desumano e cruel que elimina o indivíduo e destrói o coletivo”, escreve Miguel Paiva, do Jornalistas pela Democracia

Não sigo nenhuma religião e não sou uma pessoa propensa a acreditar no destino. Já afirmei aqui que somos uma contingência do Universo. Acredito basicamente no amor até por uma questão de sobrevivência da espécie humana. Junto com o amor e diretamente ligado a ele, vem o ódio na via oposta. Um não vive sem o outro. Essa pequena introdução filosófica de botequim serve para abrir aqui uma reflexão sobre o Coronavírus e essa pandemia que nos sacode.

Tenho a impressão que o planeta, de tanto em tanto, vai regulando a sua própria sobrevivência. Assim foi desde o início dos tempos com as manifestações da natureza, as guerras, as descobertas, a ampliação dos domínios e colonização das terras desconhecidas. O ódio e a ganância acabou determinando a consequências desses momentos históricos. Fomos evoluindo a passos lentos até chegarmos à era moderna e aos desatinos ampliados pela economia de mercado e a comunicação.

Até os anos de 1960, lá pelo final, o homem vivia mais ou menos à deriva seguindo padrões radicais de convivência. Era a luta pelo mais forte, as grandes guerras, a conquista de territórios e atrás de tudo isso, a religião estabelecendo padrões de comportamento. Prato feito para o mundo capitalista e ideal para o mundo comunista que começava a surgir. Um alimentava a crítica do outro até que lá pela metade da década eclodiu o fenômeno chamado juventude. 

Elvis Presley um pouco antes rebolava sua revolta sexual-comportamental e os acordes dissonantes das guitarras começaram a satisfazer os ouvidos de toda uma geração que até então imitava os mais velhos. Frank Sinatra também encantou a juventude mas repetia um padrão. O rock and roll rompeu com isso. Aproveitou o que tinha de melhor na música negra, na música folk e saiu re-quebrando regras. Essa mesma juventude acabou não suportando o que o mundo preparava para o futuro. As guerras, sobretudo a do Vietnam serviram para abrir os olhos das pessoas e trazê-las para às ruas pela primeira vez. Era um movimento de comportamento, não por um partido ou ideologia, mas para um mundo onde a liberdade estabelecesse o padrão e as escolhas fossem resultado também dos desejos dos jovens. 

O ano de 1968 e os seguintes, entrando pela década de 1970 mudaram o mundo. Os jovens gritaram, cantaram, dançaram, fizeram sexo e determinaram novos padrões. De lá pra cá tudo foi diferente, mas essa mesma onda acabou sofrendo revés de um mundo mais forte e mais cruel do que esses sonhos de juventude. 

A revolução desejada não aconteceu. O calor das ruas foi arrefecendo e a decepção acabou criando uma nova geração, ainda jovem, ainda transformada pela revolução sexual, mas que não pensava mais no coletivo como antes. Não colocava em primeiro lugar o amor, a convivência, o prazer e a espiritualidade sem religião. Essa geração que veio depois dos anos 1970 acabou, até por imposição do capitalismo, criando uma maneira nova de individualismo. Incentivou-se a meritocracia, o cada um por si, o consumismo, a concorrência e o salve-se quem puder moderno. A comunicação evoluiu, a tecnologia favoreceu e a globalização padronizou o que havia de pior dessa revolução toda.

Ao mesmo tempo que revoltas populares ainda aconteciam eram logo sufocadas, instrumentalizadas e transformadas em lenha para essa fogueira das vaidades.

Resultado dessa transformação no chamado mundo econômico foi o neoliberalismo. Filho bastardo do liberalismo ele vinha para reduzir a cinzas qualquer possibilidade de propósito social em seus projetos. A socialdemocracia que herdou parte dos conceitos liberais do inicio do século passado ia perdendo o que tinha de positivo. Para o neoliberalismo o Estado tinha que ser reduzido a zero, a especulação a mil e o Mercado erguido ao ápice do comando geral. Quanto mais ricos os ricos ficassem mas trabalho iria ter para os mais pobres, como se essa divisão fosse uma predeterminação da humanidade para a sua existência. Como se ricos e pobres coexistindo equilibrassem a vida na terra. Por outro lado a China depois de uma experiência dramática de comunismo imposto à força até por conta de uma história cruel no passado e uma população imensa, criava um capitalismo de estado, autoritário, onde o crescimento econômico e industrial justificava qualquer agressão ao planeta e à sobrevivência das pessoas.

Esse foi o quadro que o coronavírus encontrou quando por aqui chegou. Um capitalismo predador, desumano e cruel que elimina o indivíduo e destrói o coletivo.

Posso estar divagando brabo, mas acho que alguma lição tiraremos desta pandemia. A primeira é que o neoliberalismo não funciona mais. Estamos vendo o quanto o estado é importante. O quanto essa doença começou entre os ricos ( mesmo sendo os chineses) e através do comércio internacional desenfreado veio para na Europa e por conseguinte para o mundo todo. Os mais ricos acabaram passando para os mais pobres e com isso podemos ter uma tragédia de proporções universais. Que os mais ricos criem ao menos um pouco de consciência e participem da luta de todos com o que tem de sobra, dinheiro

Acho que sairemos mais pobres e mais reflexivos desta onda toda. As barbaridades do capitalismo acabarão marcadas pela lembrança dessa pandemia que não se vende e não se dobra a nenhuma conversa mole. Só é derrotada pela atitude coletiva e exemplar. A ciência, tão criticada pelo nosso governo, será a nossa frente de luta para derrotar o vírus junto com  a consciência de todos. Não dá para colocar a economia na frente da saúde. 

Que o mundo retome seus princípios mais criativos, que as pessoas tenham a possibilidade de exprimir seus desejos, que os jovens retomem seus sonhos, que os mais velhos possam curtir o presente e o passado sem medo do futuro. Que as pessoas se encontrem novamente para festejar e não para ter medo do contato. Que o sexo seja de novo só prazer e que as crianças sejam portadoras de renovação e não de transmissão.

Temos muitas maneiras de sobreviver sem precisar nos basear em princípios falsos de diferenças naturais. Somos todos iguais nas possibilidades. A meu ver, deus, se existisse, já teria sacado isso há muito tempo e, se existe, a galera daqui de baixo está pouco ligando para o que ele pensa.

Por Miguel Paiva. Brasil 247. 24.3.2020.

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