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"Alguns idiotas vêm e transformam isto dos alienígenas numa religião. Não tem nada a ver com religião", diz Erich von Däniken

Erich von Däniken, o criador da ideia por trás da série “Alienígenas”, do Canal História
D.R.

Os cientistas chamam-lhe pseudociência, mas a ideia de que os extraterrestres visitaram a Terra no passado e que isso ficou documentado ganharam novo fôlego com uma série do Canal História. O homem que a inspirou fala em Lisboa este sábado

Erich von Däniken, o criador da ideia por trás da série “Alienígenas”, do Canal História, vem a Portugal falar em público pela primeira vez. A conferência é este sábado, dia 22, no Cinema São Jorge em Lisboa, às 15h30. Dois dias antes, Däniken deu uma entrevista ao Expresso. Encontramos um homem de 85 anos com uma vivacidade que podia ser (passe o cliché, neste caso verdadeiro) a de alguém com menos 25 anos. Talvez a forma rápida como fala tenha a ver com a sua longa prática de media – em especial televisão, onde é preciso aproveitar o tempo – mas também com o hábito de contestar imediatamente as objeções que lhe apresentam. Ele sabe que os cientistas consideram as suas ideias pseudociência, ou pior, e tem resposta para tudo.

A ideia central de Däniken, exposta pela primeira vez em 1968 num livro intitulado “Os Deuses Eram Astronautas?”, é que há milhares de anos a Terra foi visitada por extraterrestres de uma civilização muito mais avançada. Estudaram alguns grupos e linguagens, tiveram relações com os humanos que viviam na altura, deixando a sua herança genética na terra, e um dia desapareceram, prometendo voltar.

As provas da sua teoria são monumentos e outros vestígios arqueológicos situados em varias partes do mundo. Quando lhe pedimos que mencione uma ou duas das principais, aponta para um velho exemplar de “Os Deuses Eram Astronautas?” que levámos, em cuja capa se vê uma figura que aparece no sarcófago de Palenque, no México. Os arqueólogos dizem que se trata de um rei Maia falecido com jóias e outros símbolos da sua cultura. Däniken vê evidência de algo chamado ‘culto à carga’, um fenómeno que acontece às vezes quando povos tecnologicamente pouco desenvolvidos entram em contacto com civilizações modernas. Um avião pode ser confundido com um Deus que vem do ar, e a mercadoria que sai dele passa a ser venerada.

Essa interpretação é desmentida pelos arqueólogos e pelos historiadores, como o são as que Däniken faz de outros testemunhos do passado, desde as linhas de Nazca e as pirâmides de Qeops até às estátuas da ilha da Páscoa e a um mapa criado em 1513 por um cartógrafo otomano chamado Piri Reis. Mas Däniken não se intimida com os especialistas. “Adoro discutir com eles. De qualquer forma, perdem. Na profissão deles, são os melhores, mas na minha eu sei mais do que os críticos”.

A ARQUEOLOGIA NÃO É UMA CIÊNCIA EXATA, DIZ

Se a profissão dos críticos é a arqueologia, digamos, qual é a dele? “Sou um escritor e investigador neste campo. Na ciência chamamos-lhe paleo-SETI”.

Diz que a arqueologia e a etnonogia não são ciências exatas, mas ciências de recolha. “Recolhem materiais, têm uma teoria, veem como os materiais se encaixam nela, mas não é como a matemática ou a geometria”. Corrige algumas confusões que existem em relação às suas ideias. Por exemplo, que ele diz que os extraterrestres construíram as pirâmides do Egito ou as estátuas da Ilha da Páscoa. “Foram sempre os humanos que fizeram os templos, edifícios, etc. Porque os fizeram? Para os deuses”. Ou seja, para aquilo que viam como deuses.

Perguntamos-lhe se recorda o momento em que teve a intuição decisiva que o lançou numa carreira que já dura há mais de 50 anos e produziu 42 anos. Ele conta a história. “Fui educado como católico. O meu pai era um católico estrito, e estive seis anos num colégio interno dirigido por jesuítas. Tínhamos de fazer traduções de partes da Bíblia: latim para grego, grego para alemão”.

“Eu era um profundo crente. Ainda sou. Nunca perdi o meu Deus”, diz. “Mas quando eu era rapaz, Deus tinha de ter certas qualidades mínimas. Por exemplo, Deus não comete erros. Deus não precisa de um veículo para se mover do ponto A para o ponto B. Quando fazia aquelas traduções, percebi que Moisés, ao princípio, antes de o Deus da Bíblia descer, recebe uma ordem para construir um barreira à volta de uma montanha, a fim de que as luzes não se aproximem, pois eles magoar-se-iam se isso acontecesse”.

“Portanto Moisés constrói a barreira”, prossegue. “A luz fica a uma distância segura, e então dá-se a descida. Fumo, fogo, barulho… E eu perguntei: que tipo de Deus é este? O meu Deus é omnipotente. Não precisa de construir uma barreira para proteger. Não precisa de descer com fumo e fogo. Tive dúvidas sobre a minha educação, e quis saber se outras comunidades da Antiguidade tinham histórias como as nossas”.

Isto aconteceu aos 17 anos. “Na altura tínhamos umas férias longas, de dois meses. Um professor veio e disse que tínhamos de estar com os nossos pais como se pudéssemos morrer a qualquer momento. Eu perguntei-me o que Deus diria quando a minha alma estivesse perante o seu trono. Seria, ok, Eduquei-te como católico, és um estrito crente, entra no céu, ou seria, Dei-te um pouco de inteligência para perceberes que aqui há alguma coisa errada. Porque não lutaste contra isto? Deus é inteligência, não é um crente”.

“É SÓ UMA HIPÓTESE”

A sua estreia como autor seria década e meia mais tarde. Oriundo de uma família de hoteleiros, Däniken exerceu diversas funções nessa área, desde barman a recepcionista e a gerente de hotel. Um dos seus hóspedes foi Hermann Oberth, um percursor da aeronáutica, que o terá encorajado e lhe disse que as críticas seriam muitas, “como estrume sobre um pilar de mármore”.

Diz que nunca tinha tido experiências espirituais particulares, que era só um rebelde. “Alguns idiotas vêm e transformam isto numa religião. Não tem nada a ver com religião. É só uma ideia. Uma hipótese”, diz. E a contestação por parte dos cientistas? “É normal. Fico satisfeito com isso”. Admite que mudou de opinião algumas vezes. “Claro que há alguns erros. Nos meus primeiros livros, há sempre erros. É normal. Se lermos um livro científico com sessenta anos, há sempre alguma coisa que está errada”.

Também houve quem sugerisse que as suas ideias se poderiam ter inspirado num livro sobre a possibilidade de visitas por extraterrestres que o astrofísico Carl Sagan publicou em 1966. Ele contesta, notando que só encontrou o famoso astrofísico uma vez, num programa de televisão. Diz que mais tarde, quando Sagan morreu, alguém terá descoberto um manuscrito onde ele afirmava que, na sua mente, ele estava do lado de Däniken, mas jamais o poderia dizer em público. Esse manuscrito foi publicado? “Não”.

Apesar de o Canal História ser criticado por ter um programa que os historiadores não reconhecem como científico, “Alienígenas” tornou-se um programa bastante popular. As ideias de Däniken ganharam um novo impulso, e hoje em dia ele viaja pelo mundo a fazer conferências e apresentações.

O MOMENTO DA INSPIRAÇÃO

Mantém a pugnacidade, lamentando que os arqueólogos e outros cientistas não discutam consigo. “É como na politica. A direita não discute com a esquerda e a esquerda não discute com a direita. Os arqueólogos nem sequer lêem Däniken, muito menos discutem com ele”, diz.

Há quem ache que não foi por acaso que ele começou a pensar em astronautas extraterrestres precisamente na altura em que a exploração espacial começou e a primeira viagem à lua estava prestes a ser feita. “Nunca tive um plano temporal”, responde. Mas a sua imaginação não poderá ter sido alimentada pelo que acontecia à sua volta? “Sim, e isso não tem mal nenhum. Muitas invenções em todo o mundo surgiram quando a altura era a certa. Quando é tempo de a laranja cair, cai de todas as laranjeiras. É normal que, quando começou a haver astronautas, tenhamos tido uma ideia nova. Foi uma inspiração. Não significa que seja falsa”.

E quanto à ideia de que, nos anos 60, quando as religiões tradicionais estavam em declínio e se experimentavam muitas coisas novas, a sua teoria tornou-se popular porque forneceu uma espécie de religião substituta? “Não, não”, diz. “Nunca quis fundar uma nova religião ou uma seita. Houve algumas religiões fundadas com base nisto, mas eu detestei-as. Não era essa a minha vontade”.

“Não é uma questão de acreditar, mas de ouvir argumentos e contra-argumentos e então decidir”, resume. Fala de uma religião chamada Rael, que diz rejeitar, como rejeita todas as tentativas de fazer coisas semelhantes. “O meu deus é só um. Não há deuses”.

Expresso. 22.2.2020.

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