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O desenvolvimento de habilidades sociais e pessoas com altas habilidades/superdotação: revisão da literatura

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O estudo das habilidades sociais na contemporaneidade está cada vez mais reconhecido, pois este se constitui fator relevante ao desenvolvimento social e acadêmico  de crianças e adolescentes, sobretudo especificamente de crianças e adolescentes com indicativos de Altas Habilidades/Superdotação (FREITAS; DEL PRETTE, 2014).

Nesse sentido, o estudo das habilidades sociais no Brasil tem se consolidado com o passar dos anos com o casal Almir e Zilda Del Prette, ambos pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), por meio do núcleo de Relações Interpessoais e Habilidades  Sociais (RIHS/UFSCar), que atualmente está associado um grupo de trabalho (GT) na Asso- ciação Nacional de Pesquisa e Pós- Graduação em Psicologia do Ensino Profissional (ANPE- PP), responsável pelos grupos de pesquisa no Brasil, onde diversas universidades federais são  associadas para que haja a disseminação do conhecimento de habilidades sociais no Brasil e fora dele, com publicações em revistas científicas nacionais e internacionais.

Portanto, quando se fala em desenvolvimento de habilidades sociais para pessoas com Altas Habilidades/Superdotação, é necessário elucidar que esse desenvolvimento não é categórico e isolado, mas sim global, levando em consideração todos os aspectos (sociais, culturais, familiar, emocionais, psicológicos) que envolvem o homem.

Diante disso, faz se necessário conceituar habilidades sociais e altas habilidades/ superdotação (AH/SD). Segundo Del Prette e Del Prette (2009), habilidades sociais é um  conjunto de comportamentos sociais que favorecem uma pessoa a ter relacionamentos interpessoais saudáveis e duradouros. Esses comportamentos sociais envolvem aspectos como:  cooperação, empatia, respeito, assertividade e comunicação

. Nesse sentido, Del Prette e Del Prette (2001) categorizou as habilidades sociais em sete eixos

: • Habilidades que favorecem a comunicação – seria a habilidade de fazer e responder perguntas, dar e pedir feedback, fazer elogios a alguém, gratificar, iniciar, manter e terminar  uma conversa.

  • Habilidades que favorecem a civilidade/moral – seria a habilidade de falar por favor, agradecer, apresentar-se e cumprimentar alguém.
  • Habilidades de enfrentamento e defesa de direitos – que seria expressar opiniões, discordar, fazer e recusar pedidos, interagir com autoridades, desculpar, admitir falhas, lidar com a raiva do outro e pedir mudança de comportamento.
  • Habilidades de empatia e sentimento positivo – que seria se colocar no lugar do outro, elogiar, motivar e incentivar alguém a alcançar seus objetivos, ser solidário e cultivar o amor.
  • Habilidades sociais de caráter profissional ou organizacional – que seria coordenar um grupo e falar em público, resolver problemas, tomar decisões e mediar conflitos.
  • Habilidades sociais educacionais – que envolvem pais, professores e outros profissionais envolvidos na educação ou qualificação do trabalho desenvolvido nesse contexto.
  • Por último uma habilidade que os autores elucidam é a Automonitoria, que seria a habilidade de observar, descrever, interpretar, os próprios pensamentos, sentimentos e comportamentos em situações sociais de forma ampla.

Outro aspecto relevante das habilidades sociais é seu caráter familiar, pois é a primeira instância da sociedade que o indivíduo percorre em seu desenvolvimento social, que  atualmente é constituída por pai, mãe, irmãos, avós e parentes, estes dependendo da configuração familiar são responsáveis por ensinar comportamentos assertivos a esse indivíduo que  futuramente será inserido no ambiente social (a rua de casa, escola, trabalho e lazer) e terá que  lidar com os relacionamentos interpessoais e intergrupais de forma a garantir sua sobrevivência em comunidade (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2001).

Diante disso, partimos para o conceito e implicações que tangem as AH/SD, nesse sentido o conceito tem sido ampliado nos últimos anos, pois a princípio ele era definido como uma pessoa que possui o índice de inteligência muito acima da média em relação à população geral, mas atualmente os estudos de Renzulli (1986; 2002), contribuem para a ampliação desse conceito e do diagnóstico para esse tipo de necessidade especial.

  • superdotação no contexto educacional, que seria os alunos que possuem alto desempenho escolar, aprendem com facilidade e apresentam nível de compreensão elevado;
  • superdotação criativa-produtiva, os alunos que por meio de atividades humanas originais valorizam o desenvolvimento da criatividade e produtividade. Diante disso ele propôs que esse tipo de superdotação possui três características, tais como: habilidades acima da média, envolvimento com a tarefa e criatividade (ALENCAR, 2007).

No estudo realizado por Perez e Rodrigues (2013), o objetivo principal foi identificar o perfil de uma criança com AH/SD a fim de esclarecer as confusões conceituais que  fazem em relação ao TDAH e a Síndrome de Aspeger. Para isso, utilizaram os estudos de Strip e Hirsch (2000), que identificaram seis características de uma criança com altas habilidades/ superdotação, são elas:

  • velocidade de aprendizagem e sua aplicação – geralmente processa as informações de forma única. Na solução de problemas age de forma intuitiva, inverte o processo normal e não gosta de repetição, caso necessite, consegue seguir instruções, mas prefere utilizar sua criatividade para a resolução do problema.
  • estilo de questionamento – faz perguntas sobre ideias abstratas, teorias e conceitos que podem ser difíceis de responder, pois gosta da complexidade, imagina novas relações, descobre causas e efeitos, prevê novas possibilidades e pode até gostar de respostas ambíguas.
  • aspectos emocionais – experimenta os sentimentos de forma mais intensa e profunda, podendo prejudicar outras áreas de desempenho, faz altos investimentos emocionais nos relacionamentos e fica extremamente decepcionada se perceber algo errado ou alguma deslealdade de um amigo.
  • nível de interesse – é extremamente curiosa e geralmente mergulha em uma área de interesse específica, pois apresenta muita energia nas atividades relacionadas às áreas de interesse e grande entusiasmo, a ponto de criar suas próprias tarefas e projetos sem necessidade de muitas orientações ou sugestões. Outro aspecto é que possui é o profundo envolvimento na tarefa, que até pode prejudicá-lo, pois esse alto envolvimento às vezes faz com que ele não termine a atividade proposta no tempo determinado.
  • habilidade linguística – o vocabulário é altamente rico e extenso, com conhecimento de palavras que outras pessoas não sabem; aprende as habilidades linguísticas e novas línguas com extrema facilidade e rapidez; gosta de jogos de palavras e trocadilhos; pode dominar uma conversação pelo entusiasmo, pelas ideias, embora às vezes sejam muito quietas e tenham que ser incentivadas a falar.
  • preocupação com a justiça – a preocupação com a justiça e com a moral é global e ampla, sendo capaz de compreender e defender até a questão social/política mais complexa com grande empenho e sustentação teórica.

Vale ressaltar que a incidência dessas características é variada de acordo com a singularidade do sujeito, sendo que algumas delas são muito notórias e outras pouco aparentes  em um mesmo indivíduo, justamente pelo caráter multidimensional das altas habilidades/  superdotação. Outro aspecto importante a ser destacado é os mitos e verdades que a temática das AH/SD possui, pois esses aspectos dificultam a identificação e a intervenção não só com esse público, mas também com a família, escola e sociedade (BAHIENSE; ROSSETTI, 2014).

Dentre os mitos que circundam as AH/SD, Winner (1998), em seu estudo, caracteriza nove mitos, são eles:

1- superdotação global, ou seja, o sujeito é excelente em tudo;

2 – talentosas, porém não superdotadas;

3 – QI excepcional;

4 – biologia inversa ao ambiente;

5 – o pai conduz a superdotação;

6 – pessoas com AH/SD tem excessiva saúde psicológica;

7- todas as crianças são superdotadas;

8 – crianças superdotadas se tornam adultos excepcionais;

9 – é inata ou produto do ambiente social.

Assim, Antipoff e Campos (2010), também realizaram um estudo para identificar os mitos que existem quando se trata de AH/SD e além dos citados por Winner (1998), elas elucidaram três mitos que merecem ser destacados, são eles:

  • pessoas com altas habilidades são de classes socioeconômicas mais favorecidas por apresentarem um alto coeficiente cognitivo, justificando sua alta habilidade.
  • não se deve identificar pessoas com altas habilidades, visto que são seres diferentes e não gostam de ser identificados e nem expostos.
  • pessoas com altas habilidades não precisam de atendimento educacional especial, visto que já sabem “tudo” e não precisam aprender mais nada ao longo do desenvolvimento humano, escolar e social.

Diante dos paralelos realizados acima, alguns estudos têm abordado estratégias para maximizar o desenvolvimento de pessoas com altas habilidades/superdotação, não só na área acadêmica, mas nas relações sociais, familiares. São eles:

Em um estudo de caso realizado por Freitas e Rech (2015), de caráter qualitativo-descritivo, que investigou a inclusão escolar de uma aluna com indicadores de AH/SD, do ensino  fundamental de uma escola da rede pública, da cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Os dados foram coletados por meio de observação da sala de aula em que a aluna estava, de atividades de enriquecimento escolar, além de entrevistas com a professora e os pais da aluna.  Em seguida, a entrevista foi transcrita e os dados foram analisados de forma descritiva relacionando-os com as observações realizadas no ambiente escolar. Os resultados demostram que  as estratégias pedagógicas que a professora utilizava não contribuíam para a inclusão escolar da aluna com indicadores de AH/SD, bem como não contribuía para sua inclusão social,  visto que a atividade desenvolvida para a aluna era comum aos outros alunos, não favorecendo a estimulação mínima necessária para seu desenvolvimento. Diante disso, vale ressaltar  a importância do olhar atento do professor a alunos com indicativos de altas habilidades/ superdotação, no sentido de desenvolver atividades que estimulem seu desenvolvimento e não ao contrário, pois incluir é proporcionar o desenvolvimento de todos na sala de aula independentemente de sua dificuldade.

Já no estudo realizado por Ferreira, Ambos e Ludovico (2016), tiveram por objetivo  analisar o papel do professor no Ensino Fundamental ao trabalhar com crianças superdotadas e também como se dá a adaptação do planejamento escolar, visando atender as necessidades e especificidades de cada aluno com Altas Habilidades/Superdotação. Os resultados demostram a falta de qualificação dos professores para mediar e criar estratégias que favoreçam  o desenvolvimento escolar, social e familiar de crianças com altas habilidades/superdotação, tornando o ambiente escolar agradável, atrativo e estimulador de novas descobertas.

Assim, no estudo realizado por Barros e Freire (2015), investigou a constituição de identidade (posicionamentos pessoais e concepção de si) de uma criança com altas habilidades/superdotação (AH/SD) no ambiente escolar. O participante do estudo foi um menino de seis anos de idade com Altas habilidades/Superdotação, que cursava o primeiro ano do ensino fundamental e o programa de atendimento especializado da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Para isso, foram realizadas observações e entrevistas com a criança, família e professores, por meio da análise dialógica dos posicionamentos pessoais nas falas dos participantes. Os resultados demostram que a identidade da criança com AH/SD é  constituída por meio das experiências comuns a outras pessoas, mas com significados singulares à criança, tanto na escola quanto na família, apresentando –se fascinada pela construção  do saber, com interesse em atividades inter e multidisciplinares.

Portanto, vale ressaltar que a transição para o ensino fundamental demostrou -se  motivadora para aprendizagem de novos conteúdos, porem com a ressalva de que em determinados momentos apresenta-se frustrada e confusa com as atividades escolares. Diante  disso, é necessário a implantação de projetos que busquem integrar o conhecimento em sua pluralidade de maneira lúdica, bem como a promoção de um ambiente social que favoreça os relacionamentos sociais.

Quanto a importância da família no desenvolvimento de pessoas com Altas Habili- dades/Superdotação, os estudos de Bloom (1985), Moraes, Rabelo e Salmela (2004) relatam  a influência da família e de professores no desenvolvimento de habilidades acadêmicas e esportivas, desenvolvendo ações que estimulem o potencial cognitivo e criativo desse público.

Para além de habilidades acadêmicas e artísticas, o estudo de Hellstedt (1987) aborda um aspecto importante do papel familiar no desenvolvimento de uma criança com (AH/  SD), é a influência que a família desempenha na construção do ambiente social primário em que a pessoa com (AH/SD) possa desenvolver sua identidade, autoestima e motivação para o sucesso.

Assim o presente estudo tem por objetivo elucidar os estudos realizados e discutir criticamente os aspectos relevantes acerca da temática sobre desenvolvimento de habilidades sociais e pessoas com AH/SD.

CAMINHO METODOLÓGICO

O presente estudo trata-se de uma revisão da literatura, cuja problemática é identificar e analisar criticamente os estudos internacionais e nacionais acerca da temática: desenvolvimento de habilidades sociais e pessoas com AH/SD, nos últimos dez anos.

Para isso, foram analisadas publicações indexadas nas bases de dados SCIELO e SCOPUS, no período de 2006 a 2016. Para tanto, os descritores utilizados na busca ativa, foram: “habilidades”; “sociais”; “Altas Habilidades”; “Superdotação”.

Diante disso, foram incluídos estudos com metodologias quantitativas e qualitativas em português e inglês e foram excluídos artigos em outros idiomas, artigos que tratavam a  temática de forma isolada (Habilidades Sociais ou Altas Habilidades/Superdotação) e artigos que cuja população não era Altas Habilidades/Superdotação.

Da busca ativa na base de dados Scielo, obteve um número de 55 artigos até a data de 13 de dezembro de 2016. Na base de dados Scopus, até a data de 14 dezembro de 2016, foram encontrados 13 artigos. Assim, a seleção inicial resultou em 68 artigos.

Dos 68 artigos encontrados na busca inicial, foram excluídos 33 artigos, que não abordavam o tema propriamente dito. Dos 35 artigos elegíveis, foram excluídos 30, visto que tratavam da temática de forma isolada (AH/SD ou Habilidades Sociais), totalizando ao final, a inclusão de 05 artigos científicos da literatura internacional e nacional, cuja temática era o Desenvolvimento de Habilidades Sociais em pessoas com Altas Habilidades/Superdotação (Figura 1).

RESULTADOS

No estudo realizado por Freitas e Del Prette (2014), teve por objetivo predizer  quais das 12 categorias de necessidades educacionais especiais (Autismo, Deficiência Auditi- va, Deficiência Intelectual Leve, Deficiência Intelectual Moderada, Deficiência Visual, Des- vio Fonológico, Dificuldades de Aprendizagem, Talento, Problemas de Comportamento Externalizantes, Problemas de Comportamento Internalizantes, Problemas de Comportamento  Internalizantes e Externalizantes e TDAH), estariam relacionados ao déficit de habilidades sociais em crianças. Participaram do estudo 120 crianças entre seis e quinze anos de escolas regulares e especiais de quatro estados brasileiros (Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e São  Paulo), que foram avaliados por seus professores por meio do Sistema de Avaliação de Habilidades Sociais (SSRS-BR). Os resultados demonstram que as necessidades especiais preditoras  para o déficit de habilidades sociais são: Autismo, Dificuldades de Aprendizagem, TDAH,  Problemas internalizantes e problemas externalizantes. As outras categorias não tiveram resultados estatisticamente significativos, necessitando de mais estudos.

O estudo de Torrano et al. (2014), teve como objetivo implantar a teoria das múltiplas inteligências na identificação de altas habilidades em 566 alunos, com idades entre 11  e 18 anos, 536 pais e 443 professores, por meio de dois instrumentos: Escalas de Seleção para a Avaliação de Múltiplas Inteligências (SSEMI) de Llor et al. (2012), para avaliar as múltiplas inteligências dos alunos sob as percepções dos professores, pais e alunos e o Teste de Aptidão Diferencial Nível 1 (Dat-5, Ben-Net) de Harold e Wesman (2000) para avaliar cinco aptidões intelectuais (verbal, numérica, abstrata, mecânica e espacial). Os resultados demostram que a  competência cognitiva de alunos com altas habilidades podem ser analisadas não só sob a perceptiva das atividades escolares (linguística, lógico-matemática, naturalista e visual-espacial),  mas também sob a perspectiva não acadêmica (inteligências corporais-cenestésicas, musicais  e sociais) e que houve baixa correlação entre as competências que compõe as múltiplas inteligências com o teste de aptidão, elucidando assim a relevância e a utilidade das escalas de  múltiplas inteligências na identificação de alunos com altas habilidades.

Já no estudo de Freitas, Del Prette e Del Prette, (2014) o objetivo foi caracterizar  o repertório de habilidades sociais de crianças superdotadas e identificar diferenças e semelhanças ao repertório de crianças com desenvolvimento normal. Participaram do estudo 394  crianças entre 8 e 12 anos, destas 269 eram superdotadas, que responderam o Sistema de  Avaliação de Habilidades Sociais (que avalia seis classes de habilidades sociais: Responsabilidade, Autocontrole, Assertividade, Evitar problemas e Expressão de sentimentos positivos e  Empatia) e o Questionário Sociodemografico. Os resultados demostram que crianças superdotadas obtêm um repertório significativamente elaborado na maioria das classes de habilidades sociais (Responsabilidade, Autocontrole, Assertividade, Evitar problemas e Expressão de  sentimentos positivos), porém, na classe empatia demonstram déficit significativo.

No estudo realizado por Pinola, Del Prette e Del Prette (2007), com alunos portadores de deficiência mental, tiveram como objetivo avaliar e comparar o desempenho social  (habilidades sociais e problemas de comportamento) e acadêmico desses alunos em relação  aos alunos de alto e baixo desempenho escolar. Participaram 30 professores que avaliaram 120 alunos do ensino fundamental (40 com deficiência mental-DM, 40 com alto  desempenho-AD e 40 com baixo desempenho-BD), por meio do Sistema de Avaliação de Habilidades Sociais, versão brasileira (SSRS-BR) de (Bandeira, et al. ,2009). Os resultados demostram que os três grupos se diferenciaram significativamente no desempenho acadêmico respectivamente, (AD, BD e DM), nas habilidades sociais os alunos de AD obtiveram escores  acima da média. Nos fatores assertividade e autodefesa os alunos BD e DM tiveram desempenho significativo. Nos problemas de comportamento AD apresentou escore abaixo da mé- dia. Nesse sentido, os alunos BD e DM apresentam dificuldades acadêmicas e interpessoais,  reforçando a importância do desenvolvimento de habilidades sociais a esses grupos para que sejam efetivas as políticas de inclusão escolar.

Assim, no estudo realizado por Freitas e Del Prette (2013), com 120 crianças, subdivididas em 12 categorias de Necessidades Especiais Educativas – NEE (autismo, deficiência  auditiva, deficiência intelectual leve, deficiência intelectual moderada, deficiência visual,  desvio fonológico, dificuldades de aprendizagem, dotação e talento, problemas de com- portamento externalizantes, problemas de comportamento internalizantes e transtorno de  déficit de atenção e hiperatividade) entre seis e 15 anos, dos estados (Minas Gerais, São  Paulo, Rio de Janeiro e Paraná) que foram avaliadas por seus professores. O objetivo era identificar as diferenças e semelhanças no repertório de habilidades sociais, por meio do Sistema de Avaliação de Habilidades Sociais (SSRS-BR) – Versão Professor. Os resultados demostram  que as crianças dotadas e talentosas obtiveram o melhor desempenho no escore geral de habilidades sociais e em relação a seis grupos de NEE: autismo na escala global, asserção positiva, autocontrole e autodefesa; TDAH e problemas internalizantes e externalizantes na escala  global, responsabilidade/cooperação e autocontrole; nos demais grupos houve diferenças em  subescalas específicas, nesse sentido podemos inferir que crianças dotadas e talentosas possuem comportamentos assertivos em várias habilidades sociais, indicando que possuem bom  ajustamento socioemocional.

DISCUSSÃO

Portanto, a revisão da literatura nacional e internacional sobre habilidades sociais  em pessoas com altas habilidades/superdotação se pautou prioritariamente em estudos quantitativos, que utilizaram escalas que avaliam as habilidades sociais (FREITAS, DEL PRETTE,  2014; TORRANO et al., 2014; FREITAS, DEL PRETTE, DEL PRETTE, 2014; PINOLA, DEL PRETTE, DEL PRETTE, 2007; FREITAS, DEL PRETTE, 2013), elucidando que atualmente o tema das habilidades sociais em pessoas com altas habilidades/superdotação, está sendo abordada quantitativamente por meio de escalas e inventários em versões para professores, pais e alunos.

Nesse sentido, é importante elucidar a necessidade de se realizar estudos qualitativos, no sentido de desenvolvimento de projetos que atuem de forma prática e efetiva o  desenvolvimento de habilidades sociais em pessoas com AH/SD em escolas, creches, família, ambientes recreativos, projetos sociais, a fim de favorecer relacionamentos sociais saudáveis e que contribuam para uma sociedade de fato inclusiva e que saiba conviver, estimular e auxiliar nas diferenças.

Ao analisar os cinco estudos verifica-se que a três deles é realizados na perspectiva de professores (FREITAS, DEL PRETTE, 2014; PINOLA, DEL PRETTE, DEL PRETTE, 2007; FREITAS, DEL PRETTE, 2013), um na perspectiva de professores, pais e alunos (TORRANO et al., 2014) e um na perspectiva dos alunos (FREITAS, DEL PRETTE, DEL PRETTE, 2014), demonstrando que o caráter cognitivo das AH/SD, que é desempenhado pela opinião de professores e pais, nesse sentido a literatura atual corre o risco de restringir os  aspectos multifacetados das AH/SD, que se pauta na teoria das múltiplas inteligências salientada por Renzulli (1986; 2002) e Alencar (2007).

Outro risco que se corre é o de reafirmar cada vez mais os mitos que envolvem AH/  SD, salientados por Winner(1998), Antipoff e Campos (2010), visto que esses mitos elucidam apenas o caráter cognitivo das altas habilidades/superdotação, dificultando o desenvolvimento social dessas pessoas.

Nesse sentido, vale ressaltar a importância do professor e da família, no acompanhamento do aluno com indicativo de altas habilidades, visto que o sofrimento psíquico e  emocional sofrido, muitas vezes ocorre pela carência de orientação, sobre as altas habilidades e também pelo alto reforço negativo que os pais, a escola e a sociedade oferecem a esse público, limitando seu desenvolvimento não só na área de interesse/alta habilidade, mas em outras áreas da vida cotidiana.

Quanto ao papel do professor, o fato se confirma em estudos atuais (FREITAS, RECH, 2015; FERREIRA, AMBOS; LUDOVICO, 2016; BARROS, FREIRE, 2015), cuja problemática apresentada é a necessidade de qualificar o professor para mediar e criar estratégias pedagógicas que favoreçam não só desenvolvimento acadêmico de crianças com AH/  SD, mas também o desenvolvimento social saudável e cooperativo no ambiente escolar como um todo, visto que a escola desempenha o papel social de formar cidadãos críticos e atuantes na sociedade em geral.

Quanto ao papel da família no desenvolvimento de pessoas com (AH/SD), o fato se confirma nos estudos de Bloom (1985), Moraes, Rabelo e Salmela (2004) e de Hellstedt  (1987), ao afirmarem que a família desempenha papel primordial em seu processo de desenvolvimento acadêmico, artístico, esportivo e social, visto ser o primeiro núcleo que uma  pessoa integra na sociedade, sendo este responsável por formar aspectos essenciais para a convivência em sociedade.

Diante disso, a presente revisão da literatura elucida a relevância de se desenvolver  estudos e pesquisas de abordagem qualitativa, que evidenciem as múltiplas condicionantes sociais e apresentem descrições e análises de experiências que favorecem o desenvolvimento de  habilidades sociais para esse público a fim de propiciar o desenvolvimento humano, familiar, social e educacional (inclusão) nesses contextos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente revisão da literatura possibilitou um novo olhar para a temática do desenvolvimento de habilidades sociais em pessoas com AH/SD, visto que existem poucos estudos na área. Assim, enfatiza–se a relevância e a necessidade de se desenvolver estratégias de  intervenção prática que versem o desenvolvimento de habilidades sociais em escolas, comunidades, projetos sociais, comunidades religiosas, grupos terapêuticos, unidades de saúde,  universidades com projetos de extensão e sociedade em geral, a fim de promover o bem estar e qualidade de vida não só dessas pessoas, mas de suas famílias e sociedade em geral.

Autores:

Raíssa Ferreira Ávila
Juliana Santos de Souza Hannum
Luciana Novais de Oliveira
Karin Yuriko Branquinho Bittar
Fábio Jesus Miranda

ClinicaCieb. 17.5.2019.

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