Ir para conteúdo

Como não perder o foco na era da distração

Em nova coluna para o Vogue Gente, o psiquiatra Filipe Batista ensina como manter e estimular nossa capacidade de atenção diante de tantos estímulos diários.

Sente que sua atenção está progressivamente pior? Você não está sozinho. Os múltiplos estímulos aos quais estamos atualmente expostos contribuem para essa crescente queixa. O tempo que se gasta com os smartphones, a exigência por alta performance no trabalho e as diversas pressões sociais às quais estamos submetidos estão interferindo em nosso sono, auto-estima, relacionamentos, memória, criatividade, produtividade, habilidades para resolver problemas, tomar decisões e… na atenção.

Vivemos na era da distração, fenômeno gerado sobretudo pela experiência da internet, ou pelo menos ligado à ela. As redes sociais ampliaram a possibilidade de múltiplas conexões, por outro lado, fragilizaram a capacidade humana fundamental de experimentar e estar presente. Reconhecer as inúmeras virtudes e facilidades da conectividade, não exclui a importância de reservar um tempo para se afastar de tudo isso. Envolver-se com o mundo ao seu redor é uma maneira inestimável, mas frequentemente subutilizada, de lidar com os inúmeros desafios da vida atual.

Parece consenso que, em algum grau, todos devamos desacelerar. Mas como? Permanecer curioso, encontrar interesse no cotidiano, perceber o que muitos ignoram mas lhe é importante são habilidades vitais. Há uma diferença entre olhar e ver, ouvir e escutar, aceitar o que o mundo apresenta e perceber o que é importante para você. Enfim, trata-se da maneira como você gerencia sua atenção. Quando tudo ao redor parece cobrá-la, a maneira de contestar é focar no que você mais gosta. É claro que nem sempre isso é possível, mas se trata de não se submeter passivamente aos estímulos impostos e encontrar nisso uma prioridade.

É preciso também lembrar alguns pontos sobre a atenção. É natural que ela desvie às vezes, o que ocorre quando perdemos a concentração por um momento enquanto realizamos tarefas rotineiras, por exemplo. Além disso, ela está diretamente relacionada a uma importante função cerebral chamada executiva, que ajuda a planejar, tomar decisões e prestar atenção. A função executiva atinge o pico ao lado de outras funções cerebrais aos 20 anos e depois diminui gradualmente ao longo do tempo. Felizmente, o processo de declínio é bastante lento. Algumas pessoas podem enfrentar mais problemas de atenção do que outras, pois o cérebro de cada uma está conectado e programado de maneira diferente. Como então identificar um caso que requer cuidado?

Se notar alguma mudança repentina na capacidade de concentração, maior dificuldade em terminar tarefas rotineiras, a perda regular de itens essenciais, a ocorrência de mais erros que o habitual, ou a tomada de decisões ruins com mais frequência, é hora de procurar ajuda. Esses sintomas podem decorrer de uma condição subjacente, como um comprometimento cognitivo leve ou um transtorno de ansiedade ou de humor, como a depressão. Também podem resultar de questões ligadas ao estilo de vida, envolvendo estresse, fadiga, insônia, desidratação, dieta não saudável ou sedentarismo. É fundamental diferenciar tudo isso do transtorno de déficit de atenção, uma condição específica com início na infância e que demanda diagnóstico médico criterioso.

Para o declínio normal da função executiva relacionado à idade, você pode tomar medidas para melhorar sua capacidade de concentração. Dr. Joel Salinas, neurologista do Massachusetts General Hospital, afiliado à Harvard, lista algumas estratégias recomendáveis:

Acompanhe sua falta de atenção: observar as situações em que perde o foco e manter esse registro mental pode ajudar a chamar sua atenção, pois ensina a ser mais atento quando ocorrer novemente. É oportuno planejar atividades que exijam menos foco durante os períodos em que sua atenção é mais baixa.

Pratique atenção plena: essa forma de meditação ensina como trazer os pensamentos de volta ao presente quando se desviam. A prática também ajuda a gerenciar a ansiedade e o estresse, o que pode melhorar a falta de foco.

Pare as distrações: é útil trocar ítens no espaço que chamam sua atenção, como equipamentos que produzem sons ou luzes perturbadoras. Também ajuda desativar as notificações do telefone quando precisar concentrar-se e configurar bloqueadores de sites para não ficar tentado pela Internet.

Trabalhe em blocos de tempo: trabalhar em pequenos trechos de tempo, com períodos de descanso no meio, pode favorecer o foco, pois nossa atenção tende a diminuir após um certo período. O ideal é encontrar um intervalo que funcione para você, quando sua atenção esteja no auge.

Engaje seu cérebro: realizar atividades que estimulem e exijam esforço mental, mas na medida que não oprimam e desencorajem. A sugestão é fazer algo que ensine uma nova habilidade, como pintar, cozinhar, dançar ou aprender um idioma – atividades que exigem foco e atenção, mas mostram progresso e oferecem incentivo, além de ajudar a reduzir o estresse.

Revise seu medicamento: alguns medicamentos, especialmente aqueles usados para tratar problemas de sono, ansiedade ou dor, podem causar sonolência ou cansaço. É recomendado conversar com seu médico sobre a possibilidade de troca ou mudança de dosagem nesse caso.

Fique atento à ingestão de cafeína e açúcar: quedas e picos repentinos nos níveis de açúcar no sangue podem afetar a atenção. Enquanto uma pequena quantidade de cafeína pode lhe dar um impulso mental a curto prazo, em excesso pode superestimá-lo e fazer você se sentir ansioso ou tonto e afetar sua capacidade de manter o foco.

Mantenha-se sociável: o engajamento social protege contra a solidão, que pode levar à depressão, transtornos de ansiedade e estresse, os quais podem afetar a atenção. Ser mais sociável também ajuda no foco, pois envolve ouvir conversas e reter informações.

Vogue. 25.2.2020.

Factótum Cultural Ver tudo

Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: