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A ilusão do check-up completo: como você pode se prevenir de doenças

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Pacotes de exames padronizados não substituem uma revisão anual e individualizada de saúde feita por médicos

“Doutor eu vim fazer um check-up completo, quero fazer todos exames e ter certeza que não tenho nada!”.  A medicina é a ciência da incerteza e a arte da probabilidade, como descrito pelo grande médico William Osler (1849-1919).

Esta semana, trago a notícia que check-up total não existe. O desejo de conseguir fazer um exame que responda todas as dúvidas não passa de um sonho. Tão frequente quanto as promessas de início de ano e mudança de vida, os exames milagrosos e testes inquestionáveis pairam baseados em místicacharlatanismo enganação.

Todas as semanas em meu consultório, oriento algum paciente sobre a necessidade ou não de realizar certos exames e confesso que muitas vezes o cabo de guerra fica pesado para quem eu decido contar que não existem pacotes de exames e nem milagres que atendam a todos. A medicina é muito mais que carimbos, não é mesmo? O ato de solicitar um exame é de extrema responsabilidade, é abrir uma porta e saber lidar com o que estará depois dela.

“Ne nuntium necare” (Não mate o mensageiro) – frase famosa na época de Alexandre, O grande, que simplesmente decidiu matar aquele que trazia informações que não lhe agradavam. A medicina baseada em evidências e o slow medicine são bons guias para que a conduta médica seja norteada por meio do que existe de mais atual, individualizado e estritamente necessário ao paciente.

Uma informação necessária a cada um de vocês que se importam com a saúde é que mais de 70% dos diagnósticos são realizados através da anamnese, ou seja, por meio da escuta capacitada do médico.

Você sabia que o estudo que conseguiu confirmar que os principais fatores de risco cardiovasculares foi realizado há 80 anos? A maioria dos nossos avós nasceu sem que o estudo de Framingham ainda nem tivesse começado.

Esse estudo foi o responsável por comprovar que pessoas com pressão altadiabetesobesidadetabagismo colesterol alterado estão mais vulneráveis a eventos trágicos como infarto derrame cerebral. O estudo foi o responsável pela inclusão de orientações de saúde como reduzir e controlar a pressão arterial, controlar o açúcar no sangue e diabetes, parar de fumar e controlar o colesterol. 

Podem acreditar: os principais alertas de saúde ainda não completaram 100 anos!

A famosa frase “Doutor como está minha pressão, o colesterol e a diabetes?” é a apresentação prática desse estudo: os pacientes sabem que o bom controle desses fatores irá aumentar a qualidade de vida e reduzir as chances de morrer.

O termo prevenção na medicina se divide em algumas etapas:

 Prevenção primária – é a responsável por impedir e reduzir os fatores de risco que podem causar uma doença que ainda não existe naquela pessoa, é a busca por promoção da saúde e prevenção específica.

– Prevenção secundária – é necessária quando o nosso paciente já possui um risco ou doença e devemos encontrar formas de acompanhar este agravo, por meio de consultas ou exames que direcionam a redução desses fatores que são capazes causar mais danos aos pacientes, exames e tratamentos são necessários nesta etapa.

– Prevenção terciária – é o momento delicado, pois a doença já causou danos ao paciente e o médico é o responsável por reabilitar e corrigir as sequelas deixadas, muito comum em pós derrame cerebral e infarto do coração.

Em Hong Kong, no ano de 1995, o termo prevenção quaternária foi apresentado na conferência mundial de médicos de família. Essa prevenção é um ato extremamente maléfico aos pacientes, pois alimenta ações desnecessárias e que podem implicar em riscos reais à saúde. São exames e condutas supérfluas que podem trazer informações equivocadas e expor o indivíduo a riscos que sequer existiam previamente ou a probabilidades muito remotas. A frase “mal não faz” deve ser interpretada ao contrário nesses casos: exames e medicamentos desnecessários prejudicam muito a saúde e são tão perigosos quanto às principais doenças.

O paciente de 70 anos que entra no meu consultório quer resposta para os diversos medos que o incomodam e é normal que queira fazer uma “bateria de exames anual”. A consulta médica é um momento que devemos colocar o paciente como centro das atenções e intenções e, de forma cordial, entender por que muitas vezes ele prefere os números frios dos resultados de laboratório a uma boa conversa com seu médico.

Talvez o maior desafio médico nessas situações seja buscar evidências das doenças silenciosas. Para essas situações, além das consultas, os resultados são de extrema relevância. Conseguir prevenir e reduzir os riscos de um dano maior está entre uma das principais habilidades que médico precisa ter. Esta semana gostaria de deixar claro que a consulta médica é individualizada e pessoas com a mesma idade e, até a mesma doença, possuem necessidades diferentes.

Para que eu continue trazendo boas mensagens para vocês, peço “Ne nuntium necare” – vamos tentar atualizar o termo check-up para revisão anual individualizada de saúde. Anualmente vamos tentar entender que há ações que precisam ser realizadas porém a máxima “menos é mais” pode ser extremamente importante para que não tenhamos informações na mão que irão conduzir à ações prejudiciais à saúde do corpo e do bolso, afinal todos nós sabemos que fazer alguns exames desnecessários podem custar muito caro.

Gaste o seu tempo dinheiro fazendo as coisas que você mais gosta, tenha uma boa relação com o seu médico e incentive-o a estudar e a estar sempre atualizado para trazer as melhores condutas. Uma via de mão dupla se estabelece e o desafio de cuidar é alimentado pelo desejo de ser cuidado.

Tantas recomendações são dadas aos nossos pacientes, mas para os colegas médicos levo os ensinamentos do mestre professor Edgar Nunes de Moraes, chefe do núcleo de geriatria e gerontologia da Hospital das Clínicas da UFMG (NUGG). Ele defende todos os dias e foi tema de um de seus principais livros “a medicina deve ser também a ARTE de (des)prescrever”.

Erickson Gontijo. UAI. 7.2.2020.

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