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Os fascistas morrem pela boca

Os fascistas morrem pela boca

Vivemos dias de rara putrefação ética e moral. A Inês não somente é morta, como urubus de todas as ordens pousam os seus hálitos insolentes sobre a fétida carniça da dignidade humana. Bicam, primeiramente, nos olhos, a parte mais amolecida dos cinco sentidos; depois, atacam os ouvidos. É cada coisa que se vê. É cada coisa que se escuta. É cada gente que se move. Morre-se pela boca, mas, os tolos são zumbis intransigentes e seus corações de pedra só sabem pulsar sangue.

Houve um tempo em que as pessoas coravam de vergonha ao confessar os seus instintos mais primitivos. Roubar, torturar, matar, por exemplo. Hoje, não apenas propalam a lamentável estupidez interior, como fazem publicidade dos seus horrendos sentimentos internos, exaltando-os como se fossem atributos de justiça terrena ou divina indispensáveis ao homem contemporâneo, muitas vezes, aliando preceitos religiosos fundamentalistas como justificativas de atos agressivos e comportamento deplorável.

São esses indivíduos, patetas por criação, hipócritas por definição, velhacos por vocação que enfiam brochuras bíblicas sob as axilas fedorentas e vociferam que Deus está no comando, como se fora Ele um miliciano. E não tem religião, nem tem polícia, que solte a peia da corrupção entranhada no seio da sociedade. Pensem num país tropical, abençoado por Elvis e bonito por natureza, que nasceu para ser pilhado pelos seus filhos. Eis, então, uma nação capenga, desabilitada para a justiça social, habitada por um amontoado de gente extrovertida, trabalhadora, religiosa e malandra que acorda cedo em busca do pé-de-meia.

Os fins justificam os meios, é o que se diz. Ando meio aturdido com os fins, com o comportamento inconveniente de muitos. Dinheiro é um câncer, mas, ninguém abre mão dessa praga. Até aqui, nenhuma novidade. Todos gostam do conforto propiciado pela grana. Depois da casa da gente, boteco é o melhor lugar do mundo. Aliás, de igreja, hospital e cemitério, quanto mais rápido a gente sair, melhor. Ouvi esses e outros aforismos jocosos da boca filosófica de um cego inebriado por teorias conspiratórias, cuja maior revelação foi sugerir que a máfia, finalmente, tinha ascendido ao poder, em todas as esferas plausíveis. Não quis contradizê-lo. Sinto sono e preguiça quando bebo e não tenho a visão privilegiada de um cego. Aleijado por dentro, falta-me condição emocional suficiente para compreender por que os sacripantas vivem fase tão alvissareira.

A internet tem-se revelado um marco regulatório na história da humanidade, a verdadeira Caixa de Pandora que tantos temiam. Espetáculos de horror invadem o raso cotidiano virtual, trazendo tensão e outras afetações psíquicas que podem culminar na depressão, no autoextermínio ou no vício pela música sertanejo-universitária tocada em altos decibéis, por exemplo. Brincadeiras às favas, nunca se tomaram tantos psicotrópicos. Há pouco, assisti, aturdido, a um trecho de vídeo no qual um sujeito, uma alta autoridade governamental plagiava um fragmento do discurso de Joseph Goebbels, como se ele, o antigo ministro da propaganda nazista de Hitler, fosse Shakespeare. O moço acabou exonerado das tripas oficiais mais rápido do que a cloaca de um pombo. Ponto para o governo, ainda que vários dos seus integrantes pareçam destrambelhados.

Nunca as causas ideológicas foram tão mal interpretadas e mal defendidas quanto nas redes sociais da internet. Deselegância. Agressividade. Impaciência. Falta de empatia. Propagação de notícias falsas. Pode ser que coisas assim expliquem, em certo grau, os meus ímpetos desgraçados, antissociais, de preferir o isolamento, de evitar agrupamentos de pessoas, em especial, aquelas que desenvolveram talento para serem desagradáveis. Quando querem me atingir moralmente, certos “amigos” me acusam de ser “perfeito”. Não sei do que se trata. Não sou tão perfeito quanto esses cínicos e perfeitos idiotas imaginam. Tenho lá os meus pecados, os meus instantes de fúria, os meus ataques de histeria e de mau gosto. Sou tão humano quanto um cachorro. A diferença é que não mordo. Eu cuido das próprias fraquezas como se fossem cães ferozes: eu as acorrento. E queira Elvis que, nunca, nem por um instante, eu as solte da coleira. Sabe-se lá do que será capaz um homem cego de paixão.

Por Eberth Vêncio. Revista Bula.

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